3 de julho de 2017

Preparando um pouso em Brasília

Marina Cristal
Junho, 2017

“Acredita-se que a duração do dia, direção do vento e mudanças hormonais desempenham um papel importante no instinto migratório das aves de rapina, funcionando como um “gatilho” para que elas iniciem as migrações.”
Menq, W. (2015)*

Indo pra Brasília pra participar de dois encontros potentes sobre relações entre pessoas e processos de aprendizagem, ENA e CONANE, estava muito entusiasmada e ao mesmo tempo me via com um desconforto. Ainda que o convite para participar desses encontros tenha vindo para mim, sabia que ele vinha também – e muito! – para a Vila-Escola Projeto de Gente em mim. E neste ano eu não frequento mais seu espaço físico, não participo mais das trocas cotidianas, não sou responsável por Projetos de Saber nem sou tutora de um grupo de pessoas que estão por ali seguindo seus caminhos... Como poderia então estar nesses encontros como uma das pessoas representantes da VEPG? Talvez não “como”, mas “por que”? O que é que está ao mesmo tempo em mim e na VEPG que é bem-vindo nesses lugares?
Tentando resolver esse siricotico dentro de mim, fui olhando pras coisas, pras relações e praquilo que faz sentido pra mim. O convite para estar na Roda de Conversa “Educação de Crianças e Jovens no século XXI: Amorosidade e o Mundo Globalizado” da Conane 2017 talvez fosse a porta mais próxima a ser aberta e me mostrar um pouco daquilo que me estava sendo pedido – e que eu tinha condições de entregar. Fazer este movimento de reconhecimento me ajudava a apaziguar o desconforto.
Quando me olhava para o tema, ainda bem antes de sair de casa, sentia o coração entusiasmado; eu queria mesmo poder conversar sobre isso tudo que era sugerido: educação, jovens, crianças, amor, mundo, maneiras que criamos para estar no mundo! Muitas reflexões, dúvidas, intuições, memórias, dicas, emoções se revelavam e a partir desse amontoado de gostosuras ia conversando comigo – com o Alê também! – e sentia bem-estar. Me percebia muito viva e conectada com o campo que ia sendo iluminado. Lembrando desse processo me convenci de que aquilo que me levava a estar nessa roda poderia ser algo como um elo primal, latente e vivo, entre minha caminhada e a VEPG, uma de nossas intersecções, algo como uma base compartilhada.
Ufa! Estava apaziguado o siricotico!
Me tranquilizava ao acolher em mim essa percepção de que há coisas que nos conectam para além da proximidade física, embora ela faça muito falta de vez em quando. Também ao notar que há raízes primordiais que sustentam um certo tipo de olhar e viver, que suprem necessidades profundas de um modo de existir de alguém – ou de algumas pessoas –, e que por sua força e profundidade, sua preservação é extremamente necessária pra quem se sustenta ali. Fazia sentido para mim, pegando carona com Maturana, admitir que para que este radical seja conservado, tudo o que não é ele, pode vir a mudar completamente, então por isso se faz possível que em algum momento a distância física seja inevitável.
Talvez partilhar dessa base seja o que me possibilita me identificar como parte dessa comunidade de aprendizes da VEPG. Não sou, quem sabe, uma árvore típica do ecossistema da Vila-Escola Projeto de Gente, nem uma nascente de água ou mamífero esplendoroso, mas uma ave migratória, que participa das trocas também pela sua própria ausência, simples e natural.
O movimento de saída física se deu, não sei dizer se influenciado pela duração do dia, direção dos ventos ou mudanças hormonais, mas sei que sustentado pela minha vontade pessoal de encarnar a Honestidade e o Amor. E com as dores inevitáveis da natureza sigo engrossando o coro de tantas outras aves migratórias que pousaram e pousam pela VEPG, cantando que existe no mundo a distância amorosa, desvinculada da separação por inimizades, e que há muita potência no vazio.
Ninguém dá o que não tem. Eu sinto que não posso trazer verdade ao dizer para alguém que é possível viver da maneira que pede seu coração se eu não escutar o que diz o meu e seguir seus pedidos. Afinada com isso, sigo buscando manifestar em mim, no mundo, o meu Amor Próprio, aquele que só pode vir ao mundo por mim, pelo jeitinho que moléculas e memórias se organizaram neste ser que vive encarnado e pulsando, (re)descobrindo e (co)criando.


* Aves de rapina migratórias - Aves de Rapina Brasil . Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/Aves_de_rapina_migratorias.pdf > Acesso em:27 de Junho de 2017

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