9 de maio de 2016

Diário - semana 02/05/16 à 06/05/16

Diário


Parece que há males que vem para bem. Foi isso que senti nessa segunda-feira passada na Vila-Escola. Terminada o momento de tutoria, a moçada foi pra rua jogar bola. Os times (duplas) foram separados e os gols (chinelos) foram postos com três passos de largura. Não havia juízes, ou se preferirem, todos eram juízes. A bola rolou e conforme os jogos se sucediam uma tensão foi crescendo no ar. Indecisões e desconfianças: “A bola saiu!” “Não saiu!”, “Gol!” “Foi na trave!”, “Falta!”. A competitividade e tensão do jogo extrapolou quando um menino, sentindo-se vítima de uma entrada mais dura, virou um chute no meio das pernas de uma menina. A intenção não era a bola, era machucar. Não acreditei. Seria pra vermelho direto. Mas não havia juízes. Antes mesmo deles se engalfinharem nos tapas, eu interferi: - “Pode parar! Bora pra roda!”. Olhei para o menino e vi que saía lágrimas de seus olhos. Não correram muito por seu rosto pois ele logo tratou de as secar, garantindo assim que ninguém o zombasse. Ele brigara com uma menina e ainda chorava. Quanta pressão para sua pouca idade. Entendi suas lágrimas como uma válvula corporal cuja mente e corpo, não aguentando a crescente tensão do jogo, se viu agindo de forma que não gostaria. Ele se pegou num ato falho. Essa criança tem doze anos. A outra, a menina, tem onze. Ambas subiram as escadas da Vila-Escola e sentaram na roda. Fiquei impressionado. Nenhuma delas pareciam duvidar do que era preciso ser feito: conversar. Muitas vezes me deparei com a relutância das crianças (dos adultos também, assim como a minha) em querer resolver conflitos. Essas duas crianças fizeram diferente. Com todo mundo na roda, os dois relataram sua versão da história. Eu também falei o que tinha visto. A conversa deve ter demorado uns trinta minutos ou mais. Durante esse intervalo percebi que as crianças haviam se acalmado, apesar de ainda se sentirem um pouco injustiçadas. Acho que de alguma forma perceberam que, além das regras (do futebol), há a subjetividade de cada pessoa envolvida no jogo. O que um sente ou interpreta em relação a um lance, nem sempre será igual ao que o outro sente e interpreta. Quando escalamos um árbitro para apitar a partida, delegamos as decisões a ele, mas quando nós mesmos somos os juízes, temos que lidar com as diferenças e tentar chegar a um acordo. Quanta lição. Quando a roda terminou não sobrara tensão alguma e o futebol deu prosseguimento, com os mesmos jogadores, com os mesmos juízes. Se é que a mesmice tem vez...


Patto

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