18 de abril de 2016

Jogos Colaborativos

Diário de Cumuruxatiba

Ontem, 08/03/16, foi dia de jogos colaborativos na V-E. A roda decidiu que ter jogos colaborativos é importante porque a gente já está bem (mal) acostumado com os jogos de competição. Aliás, a sociedade parece funcionar, quase sempre e bem exatamente, como um jogo competitivo.

Vale lembrar que não foi uma decisão unânime, nem sequer fácil. Uma criança chegou a dizer, quando perguntada sobre o que achava dos jogos colaborativos: “não é legal, não, é chato, a palavra colaborativa já é chata!” De todo jeito, houve maioria.

No 1º dia em que houve jogos com esta característica, resistência dos que votaram contra. Porém, já no 2º jogo, a adesão aumentou e a hora de saída da V-E teve que ser alterada porque todo mundo pediu mais um, mais um, mais um...

Na 2ª semana pudemos fazer algumas observações:
  1. A transformação, sem consciência, de colaboração em competição. Como o jogo propunha que grupos deviam cruzar, sem cair, o “mar infestado de tubarões” e chagar ao outro lado – cada um estava em pé sobre um banco de plástico e 4 formavam uma tripulação, isto é, deviam navegar juntos. Logo formou-se a ideia de que a vitória seria da tripulação que chegasse primeiro ao outro lado. O processo de co-labor dentro de cada equipe correu o risco de ficar em segundo plano em função do “chegar em primeiro lugar”. Além disso, entre os tripulantes, abriu-se a possibilidade de conflito quando um fazia um movimento que parecia inadequado ao outro. Foi possível perceber as múltiplas maneiras de reação de cada criança, sua competitividade ou timidez, a maior ou menor facilidade para ouvir a proposta do outro, por exemplo.
  2. Do mesmo modo, no jogo do telefone sem fio, aconteceram situações que revelam tanto questões já incrustadas na sociedade quanto questões individuais – e, sempre bom lembrar, o corpo social é formado pela ação, ou reação, dos corpos individuais. No jogo: algumas crianças ficavam muito atentas à possibilidade de que alguma outra mudasse a palavra ou frase a ser passada adiante. Ali estava uma pessoinha acostumada a uma sociedade que rouba e que, portanto, gera desconfiança. Ela não curtia a brincadeira, pois policiava, e apontava, os outros; era uma criança desconfiada devolvendo o alimento que recebe do social e, por sua vez, alimentando esta sociedade que não confia em seus pares.
  3. Outra situação, na mesma linha da observação anterior: a criança que, conscientemente, mudava a palavra ou frase a ser repetida, não para roubar ou atrapalhar a brincadeira – foi possível perceber –, mas como forma de sentir um certo poder sobre o grupo ao interferir no andamento da brincadeira.
A competição naturalizada, a desconfiança naturalizada, a naturalizada defesa estruturada por uma criança. Como deve se comportar um educador nestas situações? Se ele não traz à tona estas questões estará colaborando para sua manutenção e fortalecimento. Se, por outro lado, ele aponta e comenta pode propiciar um campo de humilhação, um campo para o aprofundamento da reação. Também neste caso não ajudará a desconstrução dessas questões; aliás, pode também fortalecê-las.

Aí está um momento delicado de nosso trabalho como educadores: encontrar o bom ponto entre o sermão chato (blá-blá-blá a ser evitado, pois será estéril) e a omissão que não ajuda o outro a perceber que algo pode ser reorganizado; encontrar o bom ponto que pode apoiar uma descoberta, uma desconstrução, e uma nova construção – mais harmônica.


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