18 de abril de 2016

Face a Face

Face a face
Um feixe de varas de bétula branca amarradas por cordas vermelhas, às vezes com um machado de bronze preso a ele. As varas de bétula significavam o poder de punir; as cordas vermelhas, a união e o absolutismo dos que comandavam; o machado de bronze, o poder de vida e morte. Acabamos de descrever um fasces: instrumento que, no Império Romano, era carregado por funcionários públicos quando nobres saíam às ruas. Eram usados para abrir caminho, para separar a multidão, separar o povo.


Fasces, raiz da palavra fascismo e também ponto de partida para uma triste imagem: o fascismo cria raízes e floresce na polarização, no mais das vezes simplificadora, reducionista, que opõe pessoas ou grupos de pessoas; isto é, o fascismo engendra-se justo na separação, na negação da escuta, na negação da concórdia, na negação da comunhão de possibilidades.

Pessoas e grupos que não se ouvem; pessoas que, com maior, menor ou nenhuma consciência, buscam apenas a consolidação de seus interesses; pessoas que frequentemente não têm a percepção da totalidade dos interesses envolvidos; pessoas que apenas buscam derrotar o outro, realizando o exercício da competitividade tão comum, quase naturalizado, na sociedade; pessoas que constroem muros entre uns e outros; pessoas que trabalham ferozmente na criação de guetos, pois acreditam em verdades perfeitas e, por consequência, dominantes, autoritárias: fascismo, fasces em ação.

Os funcionários que portavam os fasces – os lictores – cumprem um importante e simbólico papel neste contexto, pois são aqueles que, trabalhando para a elite – minoria que habita o topo da pirâmide –, ajudavam justamente na cisão entre aqueles que – maioria na base da pirâmide – assistiam à passagem do cortejo dos nobres. A função dos lictores, face brutal do poder, é precisa: através do uso do fasces provocavam medo, promoviam o terror, dividiam as pessoas, provocavam cismas, criavam castas, desuniam. Trabalhando neste sentido, os lictores alcançavam privilégios para si mesmos; porém, mais que tudo, escondiam o próprio medo.

Enquanto isso, também temerosas, ameaçadas, assustadas, a imensa base cindia-se, fragilizava-se, construía muros entre seus pares. Porém, seguia cumprindo o papel de sustentação dos que sobre elas organizavam seus poderes – podres mas eficientes poderes –, pois, estes inumeráveis muros, em sua junção labiríntica, revelavam-se ainda mais fortes como base de sustentação para o diminuto povo do topo da pirâmide que, assim, se mantinha em seu privilegiado posto de observação e comando.

O que mudou deste os tempos descritos aí em cima para os tempos de hoje? Talvez, essencialmente, nada. O cenário por certo é diferente; a tecnologia avançou incrivelmente; o número de pessoas aumentou também espantosamente; porém, talvez apenas uma sofisticação do modelo foi se formatando ao longo dos tempos: fasces, hoje, são sobretudo o poder econômico e o poder da mídia.

Hoje, quem está no topo da pirâmide? As grandes corporações e o sistema financeiro. E esta, talvez, seja a única constatação segura, pois, em tempos de globalização, não nos transformamos em uma “aldeia global” partilhando amor, saberes e riquezas; o que, de fato, compartilhamos é a estrutura do acúmulo e do consumo.

Há algum tempo, escrevi um texto chamado “O Muro e o Dinheiro”. Hoje, vou me permitir retirar alguns parágrafos deste texto e inseri-los neste “Face a Face”: “Como em qualquer processo de construção de estruturas defensivas, também o dinheiro foi, a princípio, protetor da existência humana: prestava-se para viabilizar a troca de serviços, habilidades, ou conhecimentos, muitas vezes necessários à manutenção da existência. Como brincou o cineasta Jorge Furtado, em A Ilha das Flores, o dinheiro facilitava a troca, antes impossível, de galinhas por baleias. Contudo, à medida que suas qualidades originais eram esquecidas, seu uso ganhava uma oculta segunda intenção. Com a segunda intenção, oculta, organizava-se um peso escravizante, compulsivo. Esta segunda intenção era, justo, a pretensa garantia através do acúmulo do excedente: a existência garantida – pretendia-se! – através do acúmulo de recursos. Uma estrutura defensiva, oculta, ambígua, ia ganhando forma, não mais protegendo seus construtores.

A função primária da pequena moeda, portátil, – a troca –, sua natureza genuína – a partilha de habilidades, de serviços –, ao final de um processo, jazia esquecida, escondida sob o peso da escravidão do acúmulo que “garante”, da compulsoriedade do acúmulo e de seu primo-irmão, o consumismo – a busca da existência “garantida”. Para possuir o excedente que “garante” a “vida” é necessário adquirir este excedente, e, para adquiri-lo é necessário possuir um excedente de dinheiro. 
O dinheiro não representa mais a possibilidade de troca de habilidades, de conhecimento transformado em serviços e objetos úteis a muitas pessoas. Representa a impossível garantia. Ganância instituída.

Desta maneira o dinheiro sofreu uma profunda metamorfose: de moeda de troca a instrumento de poder. Ilusório poder, é fato, mas, sentido como real através da sensação da garantia que o excedente pretende oferecer. Migrava-se das possibilidades para o poder imperativo, dominante.”

O que se disputa, no pano de fundo, é o controle do poder econômico ao qual todos estamos submetidos, pois, qualquer mãe ou pai condena seu filho ou filha à morte se não ganhar o mínimo de dinheiro para suprir suas necessidades mais básicas: comer, beber. E milhões de pais e mães não ganham este mínimo de dinheiro.

O exagero de acúmulo por parte de uns poucos faz com que muitos, a imensa maioria de seres humanos, necessitem oferecer, para conseguir a manutenção básica de seus filhos e filhas, sua força de trabalho usada em empregos produtivos ao sistema; não conseguem, no mais das vezes, oferecer sua vitalidade maior para a criação de um trabalho pessoal, assinado – feliz e prazeroso.

A dimensão humana, e a própria rede da vida, está sufocada pela lógica perversa e irracional de acumulação, do capital que não se importa com o bem-estar e a felicidade de cada um nesta rede. O dinheiro, de meio para a satisfação de necessidades e de desejos, converteu-se em finalidade em si, pois, atrás do dinheiro, esconde-se a ilusória conquista de estabilidade, de felicidade, de saúde. De um modo ou outro, todos estamos envolvidos pela lógica do sistema.

Contudo, brechas se abrem, e, atentos, temos a possibilidade de descobrir o truque do ilusionista. Podemos investigar como se arma este truque que, ao fim e ao cabo, parece determinar o destino de todos.

Uma dessas brechas: somos nós, seres humanos, que elaboramos o truque. Ninguém mais, nós mesmos. Porém, nós, os ilusionistas, acreditamos tanto no truque que agora estamos iludidos, cegos, presos no truque. O truque, transformado em armadilha com o passar dos anos, está em cada um, não fora, não no sistema! O sistema não tem vida própria, nós o alimentamos, cuidadosamente, dia após dia. Alimentamos e esquecemos suas raízes, esquecemos porque criamos o truque e o repetimos compulsivamente.

Esquecemos porque queremos esquecer o medo da instabilidade, da ausência de garantias, o medo da interdependência, o medo da impermanência; quisemos, e seguimos querendo, negar o inegável. Assim, construímos a armadilha e esquecemos onde guardamos a chave da gaiola de ouro, do “habitáculo duro como aço”¹ – ricos condomínios-guetos ou favelas-guetos –, estruturas onde todos são igualmente prisioneiros, todos enjaulados.

Finalizando, quem são os lictores nos dias de hoje? Resposta direta e reta: qualquer um que trabalhe com a intenção de dividir, de quebrar a integração, de construir um sistema guetificante, sistema de castas, de privilégios para alguns, de fartura não solidária, de escassez também não solidária. Os lictores, hoje, estão potencialmente em toda parte, desde a direita até a esquerda do leque social.

Cada um deve, antes de tudo, buscar em si a raiz de sua atitude, de sua ação, pois a chave do “habitáculo duro como aço” está com cada um – o sistema, nem nenhum sistema, possui esta chave. Não importa a que grupo um se associe, dentro deste grupo cada um pode ser mais ou menos agregador, mais ou menos atento ao que os outros falam. Cada um precisa conhecer a si mesmo, colocar-se face a face consigo mesmo, esclarecer se pretende empunhar sua fasces e usá-la contra o outro – o que é o mesmo que contra si mesmo, pois a fasces separa, apenas separa – ou se pretende depor esta arma.

Como bem disse meu amigo Ademar, o Mestre Dema, “existem variadas qualidades de presença, e de ação, em qualquer sistema”. Que cada um se coloque face a face consigo mesmo e responsabilize-se.

¹ - A expressão alemã stahlhartes Gehäuse, traduzida como “habitáculo duro como o aço” ou “jaula de aço”, foi utilizada por Max Weber.
Alexandre Cavalcanti
Médico-educador na Vila-Escola Projeto de Gente
(este texto reflete uma opinião pessoal)
                                                                                                              















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