21 de março de 2016

O mundo aqui dentro



   Antes de tudo, gostaria de manifestar que percebo a educação como algo plural. Não vejo a possibilidade de falar em educação como algo que parte de uma pessoa específica – o educador –, e afeta o educando de modo simples e unilateral. É uma relação humana, e sendo assim é algo complexo, profundo, múltiplo que envolve afetos, memórias, emoções e expectativas de todos os envolvidos.
   Mesmo assim, nas relações educacionais escolares é dada especificamente aos adultos a incumbência de cuidar das crianças que ainda não sabem se relacionar com os perigos da vida, sejam eles físicos, mentais, emocionais ou espirituais. Mas quais são esses perigos?
   Ainda convivemos com a expectativa social de educadores “prepararem as crianças para o mundo lá fora”: cruel, desumano, violento, competitivo... Essa visão reflete uma angústia humana associada à noção de tempo que engloba experiências passadas, expectativas e medo do futuro. Esta mesma angústia está ligada à ilusão de segurança, refletindo a crença de que prever determinadas situações e tomar atitudes visando estar preparado para enfrentar as situações imaginadas com base no conhecimento adquirido de experiências passadas torna-nos mais fortes, poderosos, bem-sucedidos e privilegiados em relação às situações da vida. Vida futura. Alheia. Inventada. Impossível...
   Ao vislumbrar que o mundo trará invariavelmente essas experiências, esquecemos que o tal mundo lá fora é formado por pessoas, por todos nós e que se ele está assim é porque as pessoas, que somos nós, portam-se dessa maneira. Somos então levados a estabelecer relações baseadas na competição e desconfiança, a fim de buscarmos nos safar dos perigos do mundo lá fora, prevendo-os.
   Essa postura defensiva nos faz a princípio vitimas potenciais do mundo e impede as belezas de nos preencherem, pois nosso mundo interior está sempre coberto com o véu da desconfiança, do medo, da busca por uma posição segura dentro do mundo lá fora. Nosso mundo aqui dentro fica à mercê das suposições e quase nunca é encarado, porque afinal o mundo lá fora traz perigos sem fim e o mundo aqui dentro não parece ser tão importante para nossa sobrevivência. E é nisso que eu vejo maior perigo: Esse mundo de dentro acaba sendo encoberto pelas aflições conectadas com o dia de amanhã e suas infinitas possibilidades incalculáveis e inalcançáveis.
   Mas sem olhar para os dois mundos: lá fora e aqui dentro, não há como saber se quero reproduzir ou não esse sistema social. E ainda, será que esse mundo lá fora é só isso mesmo? Será que não estamos destreinados pra olhar as outras infinitas possibilidades não duais que ele oferece?
   É curioso pensar que uma instituição, seus profissionais e pais de crianças construam a sua rotina, realizem as escolhas daquilo que será vivenciado pela criança com base em especulações imaginativas totalmente alheias à realidade, necessidade e interesses presentes da criança, olhando com medo e ganância para o “mundo lá fora” e negligenciando o “mundo aqui dentro”, presente, vivo, pulsante, vibrante e fluido. Assumidamente perecível e fugaz.
   Os perigos dos quais a educação da criança para o futuro busca livrá-las são monstros invisíveis que habitam o sótão mental da humanidade. Enquanto estamos preocupados em, sonhando, inventar como enfrentar monstros imaginários, a pulsão vital dos seres fica à parte e sem receber atenção. A vida que ocorre agora, plena de policonexões e encontros, fica em segundo plano a fim de resolvermos nossos quebra-cabeças do que virá a ser esse Ser-criança que a princípio se apresenta e aos poucos se enreda na teia de projeções futuras deixando-se cada vez menos ser visto ou revelado, inclusive por e para si mesmo. É para este mundo que acredito ser essencial olharmos agora e auxiliar as crianças também a criarem e descobrirem ferramentas, e utilizá-las para uma vida de momentos presentes relevantes, vivazes, verdadeiros.
   No mundo aqui dentro também são carregadas memórias e as opções que temos sobre o que fazer com elas; temos projeções e relações e muitas vezes não sabemos que é possível escolhermos como agir – não simplesmente reagir – em relação a isso tudo que se apresenta de dentro de nós buscando interagir com o mundo exterior, porém não como algo alheio. Não atropelando a consciência e plenitude da relação com seu mundo interior em prol de uma promessa de sucesso ou sensação de segurança, por medo do mundo lá fora, no futuro ou dentro de outro ser, sobre o qual é impossível termos qualquer controle real.
   Reconhecer a importância do mundo interior e do momento presente nos dá autonomia e revê a nossa vulnerabilidade, aceitando-a. Podemos esquecer as garantias, reconhecendo que elas não existem, e assim se faz desnecessária a busca por privilégios quaisquer e podemos nos entregar de todo coração e com toda a vida para relações de solidariedade e amor, onde todos aprendemos uns com os outros a sermos melhores para nós e para a parcela de nós que vive do lado de fora, que compreende o mundo e nossas relações.
   Ouvimos a premonição apavorada de pais, mães e tutores dizendo “Lá na frente, lá fora, ele vai se deparar com as mazelas e se não for apresentado a elas empiricamente não saberá o que fazer”. Me nego a acreditar que seja assim. O tempo todo estamos expostos às mazelas e maravilhas aqui de dentro e comumente nem olhamos pra elas. Ao ocuparmos conscientemente nosso corpo, nossas emoções, atitudes, pensamentos e ações, mais livres e fortalecidos seremos para lidar com o que quer que se apresente a nós do lado de fora, pois saberemos resolver a relação entre o que está fora e está dentro antes de reagirmos e reverberarmos mais dores e tristezas para o mundo.
   O mundo lá fora tenta se ocupar do que virá, do que fazer com o futuro, das escolhas mais acertadas para serem tomadas com a vista em suas possíveis consequências vindouras. Mas as questões efetivas são colocadas para serem resolvidas agora, todos os dias, em todos os agoras em que vivemos, e nesses agoras vivenciamos emoções, mas dificilmente sabemos o que fazer de positivo com elas, diferente de sentirmo-nos culpados por “escolhas erradas” do passado ou orgulhosos com as “escolhas certas”. Não nos é ensinado como estar em paz.
   Enquanto educadora, sinto-me motivada a priorizar o contato com o misterioso e importantíssimo mundo aqui dentro de cada um, a começar pelo meu próprio. Na verticalização do contato consigo podemos aprofundar todas as nossas relações e estarmos atentamente presentes no mundo, trazendo para ele aquilo que nós escolhemos conscientemente, esculpindo um mundo pacífico e solidário, onde todos ganham juntos e não precisam ser reconhecidos por serem melhores que ninguém em qualquer quesito; um mundo no qual possamos estar em paz compartilhando aquilo que nos motiva, interessa e aconchega o coração.

Marina
março de 2016

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