30 de março de 2016

Comunidade de Aprendizes, uma boa aventura

Parte I
Rosamund Bartlett, biógrafa de Liev Tolstói, escreveu: “(Tolstói) nunca parou de entender a si mesmo em sua escrita, fosse por meio de (...) seus personagens (...), fosse (...) nas anotações em seus diários. (...) Se a tentativa de abarcar e descrever a evolução de sua consciência era um projeto (...) utópico, como tantos sonhos russos, a própria infinitude da empreitada é, todavia, uma reafirmação da humanidade de Tolstói”.
Ao ler este parágrafo reafirmou-se, em mim, uma observação que é consequência de um trabalho de muitos anos, mas, principalmente, dos últimos sete anos: uma pessoa contém a infinitude da humanidade, a infinitude da vida. Por isso, vou parafrasear Rosamund: a arte da educação é, antes de tudo, a tentativa de propiciar condições para que o educando conheça a si mesmo, através da experiência do cotidiano. Se a tentativa de abarcar e descrever a evolução da consciência de cada criança como ser único, legítimo e intransferível é um projeto utópico, a própria infinitude da empreitada é, todavia, uma reafirmação da humanidade desta tentativa.
Falamos da criança, contudo a mesma afirmação se estende aos adultos que precisam manter a mesma atitude de atenção e observação sobre si mesmo. O processo de individuação, isto é, o processo de autoconhecimento, não tem um fim conhecido.
Deste modo, este texto defende que a escola deve ser, além de um lugar de aquisição de conhecimentos diversos, um lugar de aprendizado e autoconhecimento partilhado por crianças e adultos: uma Comunidade de Aprendizes.
A função da educação, neste texto, é profundamente leal ao significado da palavra educare – ex (fora) + ducere (conduzir, levar): conduzir para fora. Conduzir o que já está presente no educando, ajudá-lo a trazer à tona o que já é presente. E o que será trazido à tona? Sua sensibilidade, suas possibilidades, suas limitações, seus interesses, seu inconsciente saber sobre si mesmo, sua vocação vital – pessoal, legítima e intransferível. Conduzir, neste caso, não significa apontar caminhos, apontar rotas predeterminadas. Significa oferecer a mão e ajudar a criança em suas cotidianas descobertas, apoiá-la em sua diária experimentação, dar-lhe suporte para a aquisição do conhecer – um conhecer que se dá justamente na exploração do ambiente, da vida –, aplaudir a ampliação de sua consciência sobre o que cada uma sente- pensa quando experimenta uma situação nova ou renovada.
Disse “criança”, porém, voltamos a lembrar, qualquer pessoa, de qualquer idade, estará sempre experimentando e reexperimentando situações, conhecendo mais e mais de si mesmo, pois a empreitada é infinita. Assim, mão do adulto acolhe a mão da criança e, ao mesmo tempo, tem a oportunidade de reconhecer a si mesmo através da mão estendida daquela criança.
O Processo da Educação confunde-se, funde-se, deste modo, com o Processo de Individuação: um caminho a ser trilhado por cada criança em direção ao si mesmo, seu si mesmo, seu self. Trata-se de uma bela expedição, uma bela aventura, em direção a uma fonte misteriosa e pessoal, a “particularidade que você sente que é você” (J. Hillmann). Misteriosa, é verdade, mas, cuja existência não pode ser negada. Foi justo este mistério que levou Nabokov a escrever, reconhecendo que “nem no ambiente nem na hereditariedade posso encontrar o instrumento exato que me moldou, a calandra anônima [e misteriosa] que imprimiu à minha vida uma certa marca d’água, um desenho singular que, [no meu caso], torna-se visível quando se acende a lâmpada da arte por trás do papel da vida”.
Quando uma criança pode, livremente, caminhar em direção a este tesouro singular – que é seu por direito absoluto – ela tem a oportunidade de descobrir que seu bem-estar está, não em objetos exteriores, mas em si mesma e na, também livre, manifestação de sua vocação pessoal – vocação que é a própria doação deste tesouro à rede da vida.
Porém, uma criança consegue, livremente, caminhar em direção a seu tesouro? É muito importante que se reconheça as imensas dificuldades se colocam antes mesmo que se consiga criar condições para que uma criança possa conhecer e entender a si mesma. Apenas para começar citamos duas destas dificuldades. A primeira: nós, adultos e intitulados educadores, nos conhecemos o suficiente a ponto de criar condições limpas de preconceitos para que as crianças conheçam a si mesmas? A segunda: somos capazes de perceber que as crianças quando entram na escola estão escondidas atrás de estruturas defensivas erguidas por elas para que pudessem ter a sensação de existir nos ambientes em que vivem – ambientes estes, via de regra, exigentes de determinadas (preconceituadas) atitudes? Somos capazes de perceber que elas, ao chegarem ali, foram tão poderosamente ameaçadas em seus direitos de ser de fato quem são que se defenderam, já negaram a si mesmas, se esqueceram quem são, estão aprisionadas, não estão livres? Vale lembrar os versos da canção popular: “já podaram seus momentos, desviaram seu destino, seu sorriso de criança quantas vezes se escondeu”.

Sugestões de respostas na parte II.

Parte II
Ora, se os ambientes que recebem as crianças são cheios de regras predeterminadas, preconceituadas, somos obrigados a reconhecer que somos nós, adultos e principais construtores destes ambientes, que estamos carregados de tais preconceitos, pois somos nós que assentamos os “tijolos” desta construção. Geração após geração, apenas mudando o estilo da época, repetimos estes gestos. Assim, as regras, preconceituosas, predeterminadas, passam a ser consideradas naturais, ditas normais. E, agravando tudo, aqueles que estiverem contra elas serão considerados marginais, desregrados e anormais.
Infelizmente, começando a tentar responder as perguntas feitas no primeiro módulo, revela-se que a educação não é, via de regra, uma tentativa de propiciar condições para que a criança conheça a si mesma – pois, como uma criança pode conhecer a si mesmo em um ambiente criado por pessoas que se escondem de si mesmas? Defendemos, portanto, uma ação complexa e radical que exige uma nova organização levada a efeito por pessoas que reconheçam que devem desconstruir preconceitos, reformular regras, para então propiciar condições para que a criança (re)conheça a si mesma, (re)lembre quem ela é, traga à tona o que foi negado, esquecido e substituído pelas tais exigidas atitudes. Pessoas adultas – mães, pais, educadoras, educadores – que aceitem sua condição de aprendizes e formem a Comunidade de Aprendizes junto aos pequeninos e pequeninas. Assim, para que estas condições possam se organizar, é necessário que, antes de tudo, os adultos voltem sobre si mesmos, desçam de seus pedestais de senhores e donos de verdades, e criem, em si, escolas para si mesmos. Felizmente, estas escolas podem ser, ao mesmo tempo, escolas para os pequenos: as Comunidades.
Mas, vamos voltar à primeira pergunta, feita lá em cima, cuja resposta, já sabemos, é simples, embora complexa: não, não nos conhecemos. Por isso, por ser uma resposta simples porém definindo uma posição paralisada, quase um beco sem saída, é necessário buscar coragem, e repetir a perguntar: conhecemos de nós o suficiente para nos sentir, mínima e realmente, satisfeitos com o que sabemos de nós mesmos? Estamos, mínima e realmente, apontando nossa vida na direção de nossas verdadeiras crenças? Estamos, mínima e realmente, em paz com nossas consciências? Podemos nos responsabilizar, mesmo frente a toda e qualquer consequência, em qualquer espécie de tribunal, por nossas ações? Podemos, como disse Jean Yves Leloup, afirmar que “posso me equivocar, mas não minto para mim mesmo”? Um educador não pode deixar de responder a esta pergunta senão com um firme: não posso mentir para mim mesmo. Se não percebemos isso, vamos cobrar das crianças a nossa própria mentira. E, assim, estaremos ajudando a matar a verdade de cada uma delas. De fato, nem mesmo estaremos vendo a verdade de cada uma delas.
O pensamento e ação budista podem ajudar a refletir – voltar sobre si – a respeito do que estamos escrevendo. Disse o Buda: “Sede vós mesmos vossa própria bandeira e vosso refúgio. Não vos confieis a nenhum refúgio exterior a vós. Apegai-vos fortemente à Verdade, que ela seja vossa bandeira e vosso refúgio.” A verdade é, podemos ler nessas palavras, a misteriosa identidade que trazemos entranhada em nosso interior: o arquétipo do EU SOU... A bandeira deve representar este arquétipo. O refúgio está em cada um, está no EU SOU e na coragem de manifestá-lo. Aliás, a mesma coragem exigida quando estamos no beco sem saída, escondidos de nós mesmos e só nos resta encarar o que quer que nos levou a este lugar paralisante, semimorto. Ou isso ou enfrentar o mais profundo e inescapável mal estar.
Por isso, segue o Buda em seus ensinamentos: “Não acrediteis numa coisa apenas por ouvir dizer. Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações. Não acrediteis em alguma coisa só porque é dita e repetida por muita gente. Não acrediteis em uma coisa só pelo testemunho de um sábio antigo. Não acrediteis numa coisa só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la por verdadeira. Não acrediteis no que imaginaste pensando que um ser superior a revelou. Não acrediteis em alguma coisa apenas pela autoridade dos mais velhos ou de vossos instrutores. Mas, (...) aquilo que corresponde ao vosso bem e ao bem dos outros, isso deveis aceitar, e por isso moldar sua conduta”.
Vamos retomar perguntas, pois por muito tempo precisaremos retomá-las, repeti-las para nós mesmos, em voz alta, em silêncio, sozinhos, em grupo. Nossas escolas se organizam para ajudar as crianças a desenhar sua bandeira, lhes dão chance de conhecer seu refúgio? Os mestres dessas escolas estão dispostos, além de desenharem também eles mesmos suas próprias bandeiras, a não impor bandeiras apenas porque são ditas e repetidas por muita gente, apenas porque foram transmitidas por muitas gerações, apenas porque os favorecem- mesmo que ilusoriamente – e, por um longo hábito, passaram a tê-las como verdadeiras? Estão dispostos a desconstruir muros que ergueram, também por necessidade em algum momento de suas vidas, ao tentar fazer frente a seus próprios e exigentes ambientes?
Quando leio a expressão milenar, budista, que foi aqui transcrita: “(...) aquilo – um algo – que corresponde ao vosso bem e ao bem dos outros, isso deveis aceitar, e por isso moldar sua conduta”, lembro de dois outros personagens, que viveram em tempos muito distintos, e trabalharam em direções aparentemente também muito distintas do Buda. Apenas aparentemente. O mais antigo foi Agostinho, padre da igreja católica, que em uma carta dirigida a jovens, escreveu: “Enfim, amem uns aos outros e, de resto, façam como quiserem”. Esta é uma afirmação que dota quem a deseja praticar de imensa responsabilidade, tanto no que diz respeito ao autoconhecimento quanto ao conhecer o outro. No mesmo rumo, escreveu Malatesta, anarquista: “Tudo se resume em: Liberdade total! Solidariedade total!”. Os três apontam para o mesmo lugar: a responsabilidade de ser quem somos e, por isso, conformam bons lemas – lemas libertários – para Comunidades de Aprendizes.
E, assim, nos preparamos para a parte III.

Parte III
Agora, vale a pena voltar à Educação e, por consequência, ao Processo de Individuação. Alexander Lowen escreve que o ato de buscar ALGO deve ter como base uma experiência prazerosa. Uma interpretação possível para este “algo”, aparentemente um tanto vago no texto de Lowen, pode ser compreendê-lo como sendo a verdade de cada um, sua bandeira, seu refúgio. O termo vago não é tão vago assim, pois está aberto para ser preenchido pela individuação que emana de cada ser, de cada criança; o vago nos convida a refletir, e buscar, o que é próprio, pessoal e intransferível; o vago nos convida a preencher, a construir, a corporificar a vida; o vago nos convida a viver um – prazeroso – processo de conhecimento, conhecimento de si mesmo, conhecimento dos outros que nos cercam; nos convida a realizar a jornada da individuação. O que posso, devo, desejo, manifestar para sentir-me feliz, que “algo” me proporciona prazer e paz de espírito? Podemos, portanto, dizer que a experiência prazerosa deve estar na base da busca de ser, ser quem se é, pois nada deve trazer mais paz e prazer do que a livre manifestação do ser que sentimos emergir, natural, de nosso misterioso, e individual centro vital.
O Processo de Individuação é, pois, uma busca que deveria estar assegurada para cada criança. Assegurada e prazerosamente assegurada. Conhecer a si mesmo deveria ser uma experiência de prazer e alegria. Entretanto, o que as crianças percebem – mas não podem dizer? R. D. Laing escreve o que poderia ser a resposta das crianças: “Eles, os adultos, estão jogando o jogo deles. Eles estão jogando o jogo de não jogar um jogo (jogo que Laing chama de jogo paralítico). Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão, quebrarei as regras do jogo e receberei a sua punição. O que eu devo, pois, é jogar o jogo deles, o jogo de não ver o jogo que eles jogam.” E então, dia a dia, passo a passo, a busca deixa de ser busca, uma alegre e séria brincadeira, para se tornar um jogo, tenso, de cartas marcadas, no fim do qual todos devem esquecer sua colorida bandeira e desenhar uma mesma bandeira. Jogo roubado, sem sorrisos, pois, neste jogo, o gol será descobrir que bandeira é a bandeira já imposta e assim responder a resposta certa. Jogo sem graça e, deste modo, uma monótona bandeira tremulará sobre um falso refúgio, onde impera o “jogo de não jogar”, o jogo que não diverte, jogo árduo, preocupante, onde não se pode errar, onde os dados têm que cair no número predeterminado. Um jogo onde se briga apenas pelos primeiros lugares oferecidos aos que levantam a bandeira certa, imposta, pois os demais serão excluídos, discriminados, ridicularizados. E aquele “algo” vago, vago porque, como dissemos, expressa uma verdade única e intransferível que poderia ser conhecida ao longo das experiências da vida de cada criança, será substituído por um único e obrigatório algo, conhecido por todos, repetido por todos, robotizado, industrializado.
Infelizmente, este jogo é jogado em todas as camadas da estrutura piramidal da sociedade. Jogado dentro de famílias, dentro das fronteiras nacionais, nos locais de trabalho, e é aprendido, basicamente, dentro dos muros das escolas. Escolas onde, esquecidos de nós, somos treinados para “ganhar a vida”; vale dizer, ganhar o dinheiro necessário para sobreviver – sobreviver, pois, nesta circunstância, não há mais vida em sentido pleno, abundante.
Alguns mestres, mesmo carinhosos, destas escolas, bons discípulos, bem esquecidos de si mesmos, empunhando as monótonas bandeiras, disciplinadores, conhecedores da “verdade”, sabedores do que é a “vida de verdade”, percebem apenas genérica e superficialmente seus alunos, não vêem sua luz e então dizem: “algo de errado deve haver com algumas crianças [as que são indisciplinadas, que repetem as séries, tiram notas baixas, etc], pois é certo que assim não agiriam se algo de errado não houvesse. (...) [Estas crianças] não se apercebem de que há com elas algo de errado porque uma das coisas que nelas andam erradas é não se aperceberem de que há com elas algo de errado [por não jogarem o jogo combinado como ‘natural’]. Portanto, temos que ajudá-las a aperceberem-se de que o fato de não se aperceber de que há com elas algo de errado é uma dessas coisas que nelas andam erradas.” (Laing) Estas crianças, frequentemente, apenas reagem, não têm consciência clara do que as move, sentem-se desconfortáveis e reagem. Entretanto, como veremos, a maioria delas acaba por ceder ao poder da competitividade social e adaptam suas críticas à ordem social, mundial, globalizada.
Sobre estas crianças que, ultrapassando obstáculos, criticam mais profundamente, apontam o jogo de não jogar, os mestres (pais, mães, chefes nos empregos, professores) redobram seus esforços, se debruçam sobre elas comentando que “algo de errado com elas está havendo posto que elas pensam que é conosco que algo anda errado porque tentamos ajudá-las a perceber que algo de errado com elas deve haver por pensar que conosco algo anda errado porque tentamos ajudá-las a perceber que as estamos ajudando a perceber que as não estamos perseguindo quando as estamos ajudando a perceber que algo de errado deve haver com elas quando não percebe que algo de errado deve haver com elas quando não nos agradecem sequer pelo fato de tentarmos ajudá-las a perceber que algo de errado deve haver com elas quando não percebe que algo de errado deve haver com elas quando não percebe que algo de errado deve haver com elas quando não percebe que algo de errado deve haver com elas.” (De novo, Laing, e exatamente como ele escreveu, sem pontuação, revelando o embaralhamento de uma mente defendida, perdida, que anda em círculos, que aceita a ilusão como coisa real)
Por um tempo as crianças tentam, à custa de sua imaginação, proteger seu mundo, vasto mundo, tenta preservar sua autonomia, a lei nuclear, pessoal, que elas, misteriosamente, trazem consigo – e que apenas desejam explorar em uma prazerosa e possível expedição. Agem assim por natureza, pois, “por não terem quase nada, as crianças precisam confiar mais na imaginação do que na experiência” (Eleanor Roosevelt). Porém, poucos, pouquíssimos, conseguem manter contato com este mundo invisível, já que a experiência ao fim revela que devem abrir mão de quem são para serem aceitos, para terem a sensação de ser amados, para se sentirem viáveis na estrutura social que as cerca. Como têm relativa pouca força frente ao mundo adulto, pois deles dependem para comer, beber, esquentarem-se, resta pouca chance para as crianças. Rendem-se, pois sentem sua vida, sua existência, ameaçada.
A vocação pessoal é assim substituída por um equivalente menor, via de regra apenas um compartimento da vocação maior: a vocação profissional – aquela que, na sociedade constituída pelos humanos, vai gerar recursos para seguir com a sensação de vida presente.
Alguns, também poucos, pouquíssimos, tentarão, mais adiante, recuperar o senso de vocação pessoal, o senso que emana do núcleo que segue sussurrando: “menina, menino, existe uma fonte de vida pessoal, natural e legítima, que está apenas escondida. Você pode reencontrá-la e saborear novamente seu gosto, gosto puro, hoje esquecido. É trabalhoso, pois você precisará, além de reencontrar a fonte, descontaminá-la. Mas, é possível, e sua vida será mais plena e feliz do que é hoje”. Poucos, pouquíssimos, vão se dar conta de que este poço limpo foi contaminado com águas estagnadas, contaminadas, pois estas águas contaminadas, há muito são percebidas como a única fonte possível de vida – mesmo que vida desagradável, como desagradável é o gosto desta água. Vida possível, menor, não a possível e abundante vida, fruto da vocação viva que fez Josephine Baker perguntar: “É isso que chamam de vocação, o que a gente faz com alegria como se tivesse fogo no coração e o diabo no corpo?”
Diabo? Que diabo é isso?

Parte IV
Um diabo que não à toa é confundido com o ser maléfico das religiões. Porém, aqui, trata-se do daimon grego, o guardião do conhecimento do EU SOU... Um guardião que é convocado pela divindade Laquesis a quem as almas se apresentam após escolherem a vida que lhes servirá de escola para conhecerem a si mesmas. Com este poderoso acompanhante as almas humanas vão frequentar a escola onde terão a chance de se conhecer e, uma vez conhecidas suas aptidões, habilidades, e sensibilidade, se oferecer ao mundo, à rede da vida.
Este guardião, como o Grilo Falante do Pinóquio, não deixará de lembrar, seja em sonhos ou em momentos de revelação, os chamados insights, quem é cada um, o EU SOU... Por isso, por ser este incansável protetor da vocação pessoal, é muitas vezes sentido como inoportuno, diabólico no dizer de muitos, pois fala o que não desejamos ouvir, grita quando tapamos os ouvidos, reclama indignado quando a escolha não é a leal escolha do si mesmo, briga conosco quando abrimos mão de nós mesmos, quando nos rendemos às probabilidades que ilusoriamente apaziguam nosso medo de não ser aceito, de não existir – probabilidades que um longo hábito nos leva a tomar como verdadeiras, como únicas, como única realidade de vida. Entretanto, também esquecemos que o guardião é parte de nós, e, por isso, não pode ser afastado totalmente. Aliás, mais do que não pode ser afastado, ele não se afasta independente do que nossa vontade ordene.
Para que o mito das Moiras não fique apenas em seu início, vamos resumir seu final: Laquesis envia a alma, agora com seu guardião, o daimon, para Cloto que ratifica a escolha feita pela alma – isto é, confirma que naquele lugar, junto a aquelas pessoas, a alma vai aprender o que precisa. Cloto então a manda para Átropos que torna este destino uma vocação. Depois, sem olhar para trás, a alma – e seu incorporado guardião, seu daimon – atravessa o Deserto do Esquecimento, senta no Trono da Necessidade, esquece-se de tudo isso e busca a vida na qual cumprir seu destino, ser quem ela é, será uma necessidade como beber e comer. E todos sabemos o que acontece quando não bebemos ou não comemos: infelicidade, tristeza, mal estar, doença.
Enquanto escrevia este texto uma pessoa telefonou-me e contou sobre um conhecido seu que, para ascender no plano de cargos e salários de sua empresa, iniciou um curso superior que ele detesta, mas, nas regras sociais-trabalhistas onde ele está submerso, absolutamente necessário para suas pretensões. A pessoa comentou que seu conhecido está com ódio da faculdade, chega a ficar doente por conta disso. Creio que podemos dizer que ele percebe o ódio em relação à faculdade, mas não percebe com a mesma clareza o ódio ao sistema que dita as regras, assim como, menos ainda, percebe o ódio contra ele mesmo que, aprisionado, aceita estas regras para se manter, ilusoriamente, livre para “fazer o que quiser” com o salário ganho no fim do mês. Trata-se, portanto, de uma escolha. Uma escolha realizada já com o coração, há muito tempo, fechado para si mesmo, esquecido de si mesmo. A escolha do ódio, da doença.
Estas escolhas são realizadas, como vimos, precocemente, com mais ou menos intensidade, por cada um de nós, por cada criança, dentro de suas famílias, de suas escolas, de suas sociedades, de suas culturas. Escolhas que vão tomar forma na organização da vida de cada um, pois, cada criança percebe, de variadas maneiras, que “há perigo na esquina, (que) eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens” (Belchior). Na verdade, fechado já antes da juventude, já na infância.
De todo modo, sempre serão escolhas. Felizmente são escolhas, pois, quando percebermos nossos equívocos, podemos, com grande esforço (é certo!), retomar a rédea da vida, ao invés de, depois do tempo passado, das forças esgotadas, nos darmos conta que este sofrimento, esta doença e infelicidade fundam-se no fato de que “(...), apesar de termos feito tudo, tudo, que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos, como nossos pais”. (Belchior)
 Por isso, precisamos criar Comunidades de Aprendizes, uma comunidade na qual as crianças, nas expedições do dia a dia, possam conhecer a si mesmas, suas paixões, sensibilidade e interesses – seu bem-estar, sua boa aventura, sua bem-aventurança.

Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, abril de 2015

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