13 de setembro de 2015

PROJETO DE SABER - ARTES VISUAIS




Eu conhecia a Vila-escola de longe, de ouvir falar e de pequenas e rápidas visitas  pontuais em festas, mas sempre tive grande carinho por ela, além do interesse em estar mais próxima. Neste ano em abril fui então convidada a integrar o quadro de educadores logo no início de maio, ficando responsável pelo Projeto de Saber Artes Visuais (anteriormente chamado de Projeto de Saber Desenho), e de Teatro quando há interesse da criançada.

Venho contar aqui é um pouco de como temos pensado e realizado a Arte Educação dentro do Projeto de Saber Artes Visuais, que tem ocorrido continuamente com grupos de até 10 crianças com idades entre 06 e 13 anos. Nossos encontros são semanais às segundas-feiras, e ocorrem das 13h30 às 15h. Os educandos escolhem previamente de qual projeto irão participar em cada dia da semana pelo período de um mês, após este prazo podem mudar de projeto.

A Vila-Escola é uma experiência de Educação Democrática, Libertária e um tanto de outras coisas, mas vou me ater desta vez a esta última característica, pois assim é possível entender melhor algumas escolhas pedagógicas que têm sido feitas.

Um primeiro equívoco comum é imaginar que uma educação que se propõe libertária é algo sem quaisquer combinações sendo campo propício ao desrespeito mútuo em virtude de um pacto pela busca de manter uma ideia de liberdade pura e ingênua que prevê um espaço/tempo no qual cada um pode realizar tudo aquilo que desejar. Mas não é isso que queremos aqui.

Nosso intuito é proporcionar a liberdade em outro âmbito, mais profundo, dentro de um campo composto por solidariedade e respeito – como temos escrito num cartaz perto da cozinha “Liberdade é fazer o que se quer, combinado com o outro.” – que possibilite e proporcione a vida saudável dentro de uma (da nossa) comunidade. E para vivermos nossa livre expressão dentro de uma comunidade, seja ela qual for, necessitamos de autoconhecimento e ferramentas para interagir com nosso meio, e é isto que, dentro do Projeto de Saber Artes Visuais, buscamos disponibilizar para todos nós.

No caminho do autoconhecimento em relação às nossas habilidades artísticas, precisamos romper com as certezas equivocadas que são dadas às crianças dentro da educação formal, possibilitar que ao menos questionem o que lhes foi previamente dado como verdade absoluta, seja racional ou emocionalmente. Em outras palavras apresentar-lhes um fazer artístico onde seja possível existir uma representação de um cachorro vermelho com patas de dinossauro em que a base não precise ser sempre um retângulo branco, e trabalhar para a supressão da certeza de que ele não é um bom desenhista, pintor ou fazedor de qualquer coisa. Buscamos propiciar a descoberta de seres ativos, criativos e criadores também por meio das artes visuais.

Tanto lhes foi e é dado como certeza, e essas criam um muro que as impede que defrontem com sua natureza artística individual, ao não se encaixar nos moldes e pré-requisitos ela se julga inferior e impotente, enxergando apenas esse muro que a separa do seu eu-artístico.

O “dom do desenho” ou o “dom da música” ainda são lugar comum, por isso muitas de nossas crianças acreditam que, tendo nascido sem o tal dom, nunca serão bons artistas e que seus trabalhos não são dignos de serem apreciados. E esta desconstrução pode ser realizada com o auxílio, entre outras coisas, da aprendizagem técnica.

Assim, nós trabalhamos no projeto com apresentação de técnicas de artes visuais e desenho, seguidas da livre experimentação das mesmas. Ao menos um ponto tem sido bastante recorrente em nossos encontros: observar e desenhar o que se vê. A observação do mundo em cores e linhas vai aos poucos ruindo o muro de ilusões que nos afasta das nossas capacidades artísticas, e amplia nossa conexão com a linguagem visual, proporcionando que sejamos aptos a cada vez mais nos expressarmos através de nossas criações.


Seria injusto com as crianças proporcionar-lhes um local de falsa liberdade, ou de superficialidade onde ingenuamente cada um desenha o que quiser do jeito que quiser, ignorando o muro que as separa de suas reais possibilidades criadoras. É um campo para poucos avanços no sentido da livre expressão, e quase nenhum no caminho para o autoconhecimento e relação saudável de carinho e apreço com aquilo que ela é capaz de criar. Há que se apresentar cada vez mais ferramentas para que cada indivíduo possa recuperar seu direito de ver o mundo da arte com seus próprios olhos. 

Seguimos tentando fazer nossa parte!

Marina

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