21 de março de 2015

MARÇO 2015

­­DIÁRIOS DE CUMURUXATIBA
2015
MARÇO

Reinício de atividades na primeira semana de março. Começa o 8º ano do Projeto de Gente, em Cumuruxatiba. Paralelamente, no Rio de Janeiro e também em Cumuruxatiba, são realizados encontros para a reforma da Associação Projeto de Gente. Contamos com a importante colaboração de Lorena, advogada e amiga da Vila-Escola, que se dispôs, voluntariamente, a estudar o estatuto, reorganizá-lo e, principalmente, apontar os passos para a reorganização da PROGENTE.

É bem possível que, ainda em março, se realize uma assembléia com extensa e necessária pauta. A saber: revisão do Estatuto; eleição da nova Diretoria; organização das fichas cadastrais de sócios e suas respectivas categorias, membros efetivos e sócios desligados através de comunicação escrita; próximas etapas para regularização da Associação junto ao INSS, RF e CAIXA (CEF); apresentação da prestação de contas e planejamento financeiro para 2015; apresentação dos projetos em andamento e planejamento executivo para 2015; avaliação e deliberação da inclusão do Projeto “Vila-Escola Projeto de Gente em Cumuruxatiba - BA como filial da Associação ou apoio pela PROGENTE nos termos do Artigo 2º, parágrafo 3; revisão e inclusão dos sócios que FIRMAM pela Associação e assuntos Gerais.

Embora tudo isso seja muito importante, o que mais queremos registrar é o dia a dia da Vila-Escola Projeto de Gente. Assim, vamos contar um episódio interessante acontecido logo na segunda semana de março. Cenário: roda de conversas e decisões. Presentes: cerca de 13 estudantes e 03 educadores. Um dos estudantes coloca como pauta a obrigatoriedade na participação nas rodas. Até hoje, 7 anos e pouco de atividade, a roda não tem presença obrigatória. O argumento é: como realizar um trabalho de cunho democrático com uma regra ditatorial apontada direto para o coração da comunidade? Sempre pareceu um contra senso. Entretanto, há muito percebemos que a roda não é o melhor momento para a moçada. Concluímos, com tristeza, que as crianças não estão nem um pouco acostumadas a serem ouvidas, a terem direito de voz. Não decidem nada, encontram tudo pronto, mas, em contrapartida, obedecem o que foi ordenado pelo adulto.

Pois bem, um menino de 8/9 anos propôs o fim da voluntariedade quanto a presença nas rodas. Seu argumento surpreendeu: “quero que a roda seja obrigatória porque, assim, serei obrigado a frequentá-la.” Um educador não perdeu tempo e mostrou a contradição ao menino: “ora, exatamente por não ser obrigatória você precisa apenas desejar participar; é só chegar.” A triste constatação foi perceber que, obrigado, ele viria. Um menino de 8/9 anos acostumado a obedecer. Uma educadora, percebendo o conflito surdo do menino, propôs dar uma força a ele: “que tal se eu te chamar e a gente juntos vai pra roda... a roda, muitas vezes, é mesmo chata, demora muito até todo mundo dizer o que acha das coisas.” O menino concordou.

Do mesmo modo, vemos como a reorganização do espaço físico da Vila-Escola – muitos leitores deste texto já sabem que, durante o verão, somos uma pousada – não é uma atividade querida. Assim, precisamos trazer os nossos objetos que permaneceram guardados na temporada de verão. Em parte é trabalho chato mesmo, mas, por outro lado, cremos que existe uma falta de costume da criança se sentir “dona” do espaço. O espaço não é delas, é do adulto que manda e desmanda, que inventa as regras e punições. São 7 anos e alguns vão, pouco a pouco, percebendo que ali tem uma coisa diferente.
Este é um ponto delicado para o educador de uma escola libertária: é preciso ter paciência. É preciso ter sempre em mente que aquela criança está, na maior parte do tempo, imersa em um ambiente opressivo, autoritário, competitivo. O próprio educador precisa estar, todo o tempo, atento para limpar ranços autoritários, opressores, reações que emergem de profundezas ainda a explorar.

Nesta semana foi proposta uma mudança importante na dinâmica da V-E. Está em pauta o seguinte: de 13 às 15h, acontecerão os Projetos de Saber – propostos por crianças e/ou adultos. Já existem mais de 20 ideias. Às 15, lanche e, até às 17, atividades soltas. A diferença é que as crianças escolherão os projetos e virão para colocá-los em prática. O que acontece, hoje em dia, é que temos educadores de menos. Assim, os Projetos de Saber são constantemente interrompidos pelas ações daqueles que não estão envolvidos em algum deles. Não é justo que um grupo não veja sua proposta avançando porque o educador é demandado por 4, 5, 6 vezes durante a realização da atividade. Uma criança pode estar em quantos Projetos queira. Ainda faltam detalhes que serão debatidos na próxima semana.

De todo modo, a proposta gerou inquietação, divisão de opiniões. A ver!

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