17 de novembro de 2014

Celebrando os sete anos de atividades!

Um passeio pela curta, curtíssima, história da Vila-Escola Projeto de Gente, em Cumuruxatiba


Sete anos de trabalho em Cumuruxatiba. Doze anos desde um primeiro lampejo de ideia. Pouco tempo, sei, porém, o suficiente para despertar o desejo de registrar reflexões, acontecimentos e emoções ocorridos ao longo destes anos. Pouco tempo, sei, mas, o que é o tempo quando mergulhamos na paixão, na utopia real que nasce e se põe, todos os dias, atrás do horizonte? O que é tempo para o que vive – real – nos sonhos de cada um?

Assim, vamos para 2002, talvez abril. Um grupo de pessoas se reuniu para conversar sobre uma ideia. Uma ideia que surgiu, um tanto misteriosamente, em uma fazenda do litoral do Rio de Janeiro, Jaconé, – fazenda de uma querida amiga. Para mim, este foi um ano trabalhoso, de difícil lida, frustração e tristeza.

Na boca da noite, sentado debaixo de uma árvore, à beira de um pequeno lago, um pensamento – de fonte homeopática, saudável nascente – emergiu. Puxando a memória daquele momento, pensei, mais ou menos, assim: “muito se diz que nosso organismo funciona melhor, é mais saudável, quando estamos bem com a gente mesmo. Pesquisas são feitas, por exemplo, com o sistema imunológico. Pesquisas científicas, aceitas pela comunidade dos médicos”.  

Mas, o que é estar bem com a gente mesmo?, segui pensando em doses homeopáticas: “Talvez possamos dizer que estamos bem com a gente mesmo quando somos respeitados em nossos anseios mais profundos, respeitados em nossa sensibilidade pessoal, em nosso ritmo. Felizes. Bem com a gente mesmo. Felizes! Então, podemos dizer que somos mais saudáveis quando estamos mais felizes”. E pensei mais um pouquinho: “Muito se diz, mas pouco se faz, de verdade, para sermos, de verdade, felizes, saudáveis. Mais grave ainda, somos, desde pequeninos, convidados a esquecer dos nossos próprios anseios para corresponder a outros, ditados por outras pessoas. Somos convidados a esquecer quem somos, esquecer a fonte de nossa felicidade, somos convidados à infelicidade e à doença”.

Ali, na Fazenda Novo Horizonte, surgiu, então, a ideia de construir um lugar que nos convidasse a ser quem somos, que convidasse os pequeninos a ser quem são, livres, atentos a si e aos outros. Um lugar de bem estar, autoconhecimento, saúde.

Voltando ao Rio de Janeiro, escrevi um pouquinho sobre isto e convidei alguns amigos para conversar a respeito. Deste encontro resultou uma proposta de trabalho: o Projeto de Gente, “um campo de atendimento e real atenção, respeito e cuidado a crianças e jovens”. Um lugar onde os corações e as mentes de todos os adultos estarão, permanentemente, abertos para ouvir os sinais que expressam um mistério que está inscrito em cada um de nós,... “a particularidade que você sente que é você”, como ensinou J. Hillman, pois nascemos já sendo quem somos, antes mesmo de poder ser quem somos.

Belo mistério que qualquer um pode, com coragem, perceber em si mesmo. Qualquer um, com um pouco de atenção, pode perceber uma linha – infelizmente muitas vezes bem escondida, frequentemente negada até ser esquecida –, uma linha que conduz a uma fonte individual, intransferível e profundamente legítima. Fonte arquetípica, pura: EU SOU..., sou quem sou!

Pois bem, naquele 2002, passamos a nos reunir, uma ou duas vezes na semana, para conversar sobre o assunto. Éramos trabalhadores de variadas formações e habilidades – professora, professor, arquiteto, engenheiros, artistas, advogado, cozinheiro, padeiro, médico, desenhista, etc e etc...

Em 2005, conhecemos uma filosofia de trabalho conhecida como “Escolas Democráticas” ou “Pedagogia Libertária”. Descobrimos, ali, uma grande afinidade de princípios. O pessoal do Projeto de Gente também considerava que uma estrutura – libertária, democrática – seria a mais adequada para ajudar na caminhada em direção à meta pretendida – o EU SOU... Percebemos isso por um simples motivo: democracia se faz através da livre manifestação de cada pessoa envolvida em um processo.

Conhecíamos, ainda incipientemente, nosso mote: “Liberdade total!, solidariedade total!” (Malatesta) – uma boa bússola para uma comunidade criativa, saudável e feliz.

Por conta do curso, começamos a imaginar uma escola: a Escola Projeto de Gente. Porém, não tínhamos recursos para iniciar o trabalho efetivo – não tínhamos recursos nem para o Projeto, quanto mais para a escola!

No início de 2007, um amigo nos ofereceu, inesperadamente, uma casa para começar. Uma casinha no sul da Bahia, a 1000 km do Rio de Janeiro! Outro inesperado: 1000 km de onde imaginávamos. Porém, visitamos a Vila de Cumuruxatiba em fevereiro deste ano e, em maio, mudei-me.

 
A casinha do Cantagalo
Começamos, na Vila, um trabalho local de divulgação de nossas ideias. Uma fase que durou cerca de três meses e resultou na formação de um pequeno time de pessoas disposta a oferecer trabalho, conhecimentos, habilidades e amor.

encontros, encontros...

Em agosto de 2007, o trabalho iniciou-se. Era o Projeto de Gente, finalmente, ao vivo e a cores, nosso desejado espaço que sempre será um “campo para que as crianças tenham a mais ampla possibilidade de conhecer e respeitar a si próprias e àqueles que as cercam”.

baiana sombra...

oficinas pé no chão...









mais pés no chão...








canhotos e destros... harmonia...



o canto do coração de cada um...






um cantinho sempre bonito...






as primeiras rodas (a gente não esquece!)...






primeiras oficinas...


lentamente os espaços são preenchidos... reutilização e reciclagem...

Uma observação é necessária: ao chegar em Cumuruxatiba, encontramos as três escolas municipais funcionando através do trabalho de algumas pessoas muito dedicadas. Sentimos, então, que trazer uma proposta pedagógica alternativa seria, naquele momento, uma arrogância, algo como: “Ôxe, mais um que chega apontando uns caminho que a gente não conhece! Calma, meu rei!”. Por isso, começamos com o Projeto de Gente, não a Escola Projeto de Gente. Percebemos que deveríamos, primeiro, limpar nosso terreno, roçar a horta, mostrar a semente, falar do fruto, conversar, conversar, conversar, semear e apenas então oferecer. Por isso, meses de bate-papo sobre o Projeto de Gente: na minha casa, na casa de quem convidasse – e convidaram! –, na praia, na rua, as escolas, onde fosse possível.

2007 a 2011: ao longo destes 4 anos de atividades algumas constatações tornaram-se bem nítidas. Resumindo muito: (1) a imensa falta de costume das crianças serem ouvidas. Realmente ouvidas. Isto aparecia em uma postura ora tímida ou desinteressada, ora agressiva, ora esquiva, durante as rodas; (2) o descrédito delas quanto à possibilidade de serem ouvidas; (3) a falta de hábito de participar de decisões que dizem respeito a elas mesmas; (4) a dificuldade dos adultos ouvirem – e realmente considerarem – as crianças; (5) uma grande flutuabilidade na presença das crianças no cotidiano do trabalho por conta de diversas circunstâncias (as mais comuns: obrigações em casa – cozinhar, limpar, cuidar dos irmãos menores, vender o peixe pescado pelos pais, colher mandioca –, pais e mães que puniam seus filhos com a proibição de irem ao Projeto, etc). Esta flutuabilidade dificultava a dinâmica democrática que exige, acima de tudo, participação, presença, a livre manifestação de cada um, de quem desejar, e, claro, o foco primordial do trabalho – a observação do processo de individuação, isto é, a caminhada de cada um ao encontro de si mesmo – também ficava muito prejudicada.  Cinco tristes pontos.
mas, milagres existem!... nunca faltou o lanche!...
Neste período aprendi a conhecer a precoce defesa das crianças. Muitas vezes falamos da pureza das crianças, não é verdade? Entretanto, acho que deveríamos falar de sua pureza escondida, escondida pela necessidade de se defenderem de um ambiente pouco acolhedor de suas sensibilidades pessoais, severo, contaminado pela defesa de adultos que se recusam a retirar suas próprias máscaras e mostrar seus verdadeiros rostos – rostos sensíveis e assustados,... puros. Adultos que se esqueceram de sua fonte pura e original, que desobedecem a si mesmos, que não são quem verdadeiramente são, que têm medo de recuperar sua identidade, que preferem seguir infelizes e doentes, tentando o impossível: construir uma ilusória sensação de garantia.

Foi aí que apareceu uma pedagoga, com experiência com crianças pequenas. Até então, a gente aceitava moçadinha acima dos 7-8 anos. Depois de muita conversa, ida a São Paulo, foi proposta uma turma de pequenos – crianças de 3 a 6 anos.

Foi assim, amigos, que brotou a Vila-Escola Projeto de Gente. Nasceu com os pequeninos. Nasceu e apenas engatinha.

muito bem vindos!!!...

2012 a 2014: amigos, a Vila-Escola é um lugar onde a democracia é exercida cotidianamente. Um lugar onde acontece, com imensas dificuldades, o que uma turminha escreveu para a apresentação de um teatro para a comunidade: “Aqui, na Vila-Escola, ninguém manda em ninguém. Todos combinam o que é o melhor para todos. Isto dá muito trabalho. Às vezes a gente até cansa de tanta conversa que é preciso ter pra acertar as combinações. Mas, vale a pena porque, lá, não tem nem oprimido nem opressor. É uma pena que na sociedade dos adultos tem muito disso aí: opressão”.
A V-E é um lugar onde temos a oportunidade de acompanhar a jornada de cada um dos meninos e meninas em direção ao projeto de gente que cada um traz, misteriosamente presente, dentro de si e que merece – precisa – ser (re)conhecido, livremente desenvolvido e, deste modo, integrado à rede da vida.
Falamos Vila-Escola, mas não somos uma escola, somos uma experiência de educação comunitária, democrática e libertária. Não somos mas desejamos ser; e por um simples motivo: queremos estar mais tempo com as crianças que, por enquanto, vão à Vila-Escola no contra turno das escolas tradicionais. A formalização permitirá que as famílias escolham a Vila-Escola sem receio de impedirem, na sequência de estudos, uma rota de conhecimento para seus filhos e filhas.

Nos últimos anos um importante passo foi dado: a V-E aproximou-se da rede de pessoas e instituições voltadas para a busca de alternativas para a educação. Participamos de encontros de escolas democráticas, em Sampa; fomos convidados para a CONANE, em Brasília – um encontro nacional, onde apresentamos as nossas ideias, possibilidades e limitações. Em Cumuruxatiba foi realizado um destes encontros encontro. Uma honra e uma responsabilidade.
E assim o Projeto de Gente chegou aos sete anos de atividades. Sete anos completos.

teve “parabéns pra Vila-Escola”!...

Na última semana vivi emoções lindas que desejo também partilhar com todos que se animaram a chegar até aqui neste relato.

Na roda – pois, desde seu início, o Projeto de Gente tem, semanalmente, pelo menos dois encontros onde a livre manifestação e o voto são direitos de todos, sem distinção de idade ou função –, na boa e velha roda, dizia, resolvemos comemorar os sete anos com sete dias de festa.

Assim foi!

2ª feira: pic-nic na praia – brincadeiras no mar picado pelo vento sul, maré alta, alegria também e a mesa se fez, solidária, farta, linda! Bolos, pães feitos em casa, sucos, salgadinhos, pastinhas vegetarianas, cocadas e paçocas.

mar batido...

3ª feira: filme no telão na casa de amigos – “A História Sem Fim” – uma premonição?

4ª feira: contação de histórias e causos – apareceram lobisomens, boitatás, curupiras, seres encantadores contando histórias de seres encantados.

e aí, o lobisomem...


apareceu lá atrás!...

A 4ª feira seguiu com a Culinária Primitiva – uma linda amiga, angolana, maravilhosa chef, nos ofereceu um verdadeiro banquete feito na fogueira. Aliás, as crianças construíram – projeto delas – um pequeno fogão de argila que fez fogo mais alto que o dos adultos. Fogão com chaminé, proteção ao coqueiro e tudo mais!

o fogão feito pelos pequenos...
Dali, e do fogão dos adultos, saíram berinjelas cozidas, jilós – que os que gostam do amargo existem e precisam ser contemplados! –, inhames, cenouras com iogurte, tomates e pepinos temperados, duas abóboras-morangas deliciosas, docinhas, e um misterioso franguinho que não acabava nunca! Claro que a brincadeira rolou solta na Vila-Escola iluminada.

o fogão dos grandes...





abóbora, batatas, cenouras... em fogo baixo... e gostosura alta...
e tem hora que só quem sabe de verdade põe a mão...

5ª feira: sarau. No sarau: risadaria sem fim, poesia, música, viola, flautas

flautistas do agora...
contadores de histórias encantadas...
Teatro de fantoches – peça escrita pela moçadinha com sucesso total! Risos e muitos aplausos!

fantoches divertindo a gente!...

essas são boas pessoas!!...

bastidores!...


Teatro de sombras com figuras recortadas e gente em carne e osso! Sucesso total! Emocionante!
sem legenda...

bicicletas e colibris...
alguma pergunta?...




sem palavras!...






Teatro de veteranos – uma moçada que frequentou o Projeto há 4 anos remontou uma peça baseada em canções de Chico Buarque. Emoção plena! Tinha gente do início do Projeto, 2007. Imaginem ver, ali, um pessoal que tinha 10, 11 anos, agora com 14, 15, 17! Chega doer o coração de tanta alegria e emoção!


temos veteranos!...





cenas fortes!...

um grande amor está nascendo nas mesas do bar!...


E a festa seguia com queridos amigos cantando, tocando, fazendo a festa e a Vila-Escola!

pais, mães, amigos, fazem música... linda!...





presença importantíssima para nós!... mães e seus sorrisos!...

o Vozeria, com muita gente da Vila-Escola...

Ah!, ainda falta uma festa do pijama, seria 6ª feira, mas o santo forte do Projeto conseguiu adiar para uma data a ser marcada. Santo forte porque os educadores estavam completamente felizes, mas, povo véio, exaustos, nutridos e exaustos!

Agora, resta apenas agradecer, agradecer, agradecer! E reafirmar meu – sempre – renovado entusiasmo!

Grato! Mil vezes, grato!

Beijos, mil beijos,

Alexandre

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