25 de setembro de 2013

Na Vila-Escola ninguém manda em ninguém. Todos combinam o que é o melhor para todos. Isto dá muito trabalho. Às vezes a gente até cansa de tanta conversa que é preciso ter pra acertar as combinações. Mas, vale a pena porque, lá, não tem nem oprimido nem opressor.
É uma pena que na sociedade dos adultos tem muito disso aí: opressão.
Hoje, nesta apresentação, a gente resolveu contar – em forma de canto, de música e de teatro – duas pequenas estórias de opressão.
Uma tem a ver com o retirante que foge da seca do sertão e vai buscar trabalho na cidade grande. Quer dizer, ele deixa de ser quem ele é – um lavrador, um boiadeiro - para ser mais uma mão de obra qualquer, lá longe da terra dele.
A outra estória tem a ver com a escravidão dos negros africanos no Brasil e sua luta pela liberdade. Quer dizer, uma luta para eles serem quem eles eram, de verdade: um povo de gente livre. O pior é que esta é uma luta que ainda não acabou.

                                          Théo, Dinho e Ryan na concentração antes do espetáculo....


O meu nome é Severino, não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria.
Como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor destas sesmarias.
Como então dizer quem vos fala ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da Serra da Costela, limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino, filhos de tantas Marias, mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma Serra magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo se equilibra, no mesmo ventre crescido, sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta.
Somos muitos Severinos, iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar a terra muito extinta, a de querer arrancar um roçado da cinza.
Mas, para que Vossas Senhorias me conheçam melhor, e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra.
                          Lucimária, Nossa Rosinha, ajudada pela educadora Maíra, se prepara e Dudu observa...
                        Dinho, nordestino de primeira e Buca, nosso querido Severino....


Durante a apresentação deste trabalho, conversamos – e vamos conversar mais ainda –sobre a história da escravidão no Brasil, sobre a seca no Nordeste, sobre o problema do racismo, da má distribuição de renda, sobre o poema do João Cabral, olhamos para o mapa do Brasil, falamos de climas e de vegetação, e etc e etc...
É assim que a gente estuda, por exemplo, história, geografia, português, lá na Vila-Escola Projeto de Gente.
Muito obrigado!



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