23 de maio de 2012

Adultos e crianças, crianças e adultos

Esta e próxima postagem são textos que foram produzidos pelo Alexandre, educador da Vila-Escola, a algum tempo atrás e que nos trazem algumas importantes reflexões sobre a relação criança-adulto. Esperamos que possam aproveitar, pelo menos a leitura.
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Rainer Maria Rilke escreveu para um amigo: “Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta. Quiçá carregue em si a possibilidade de criar e moldar, - como uma maneira de ser particularmente feliz e pura.”

Todo adulto deve falar assim para si mesmo e, talvez principalmente, falar o mesmo para toda e cada criança (claro que não exatamente nessas palavras, e sim na fala-ação das crianças).

Todo adulto deve se perguntar, todos os dias, qual a pergunta sobre si mesmo ele ainda não tem a resposta; qual a pergunta ele precisa ainda viver. E, ouvindo-a, nenhum adulto deve negá-la sob pena de jamais viver a resposta, construindo, deste modo, uma vida incompleta.

Todo adulto tem o direito de ter o tempo necessário para, “aos poucos, sem que perceba, num dia longínquo, conseguir viver a resposta”, e, assim, organizar uma vida mais plena.

Todo adulto deve falar assim para si mesmo e, talvez principalmente, falar o mesmo para toda e cada criança, pois todos nós nascemos, cada criança nasce, com uma, ou melhor, várias perguntas para as quais ela não terá resposta por um longo tempo. Perguntas cujas respostas estão já prontas, respondidas, em algum recanto de seu interior, uma vez que todos já somos nuclearmente quem somos desde que nascemos – nossa impressão digital não nasce em nosso irmão ou irmã –; porém ela, a criança, precisa aprender a formular as perguntas, as tão humanas perguntas: o que, realmente, desejo da vida?, onde sinto mais dor?, a que sou mais sensível?, do que necessito para, realmente, me sentir vivo? Perguntas do corpo e da alma, antigas, muito antigas perguntas: quem sou?, como organizo meu bem-estar?

Assim como nascemos objetivamente incompletos – faltam-nos dentes, enzimas no aparelho digestivo, capas de proteção dos neurônios, etc e etc -, também nascemos sutilmente incompletos – falta-nos consciência de quem somos.

Todo adulto deve oferecer campo, o mais fértil que puder, para que cada criança possa descobrir e viver suas perguntas; nenhum adulto deve, sequer tentar, respondê-las por elas. Ao contrário, deve ajudá-las a perceber que ninguém “deve (apenas) olhar para fora (para responder suas perguntas); que não há senão um caminho: procure entrar em si mesmo; (...) examine-se, estenda suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo (...) na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado (a ser, a realizar, isto que sinto que sou)?’. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa sua vida de acordo com esta necessidade”, volta a nos ensinar Rilke.

Alexandre Cavalcanti
Cumuruxatiba, maio/08

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