14 de março de 2012

Ser educador... na Vila-Escola

Uma ótima reflexão elaborada pelo Alexandre que gostaríamos de compartilhar com vocês.

Nestes últimos dias, dias de reinício de atividades da Vila-Escola, conversando, aqui e ali, com educadores, me percebi, mais do que sempre, pensando em alguns temas – dois principalmente: (1) o que é ser educador; (2) o campo de acolhimento das meninas e meninos, o campo de mater-paternagem, o campo organizacional.
Lembrei, então, do texto que lemos no domingo durante o almoço-encontro de alguns dos educadores. O texto, um pouquinho adaptado, é de Isak Dinensen, dinamarquesa que viveu muitos anos na África colonizada.
Vamos a ele: “... Nunca a vi (a professora) zangada. Professores e pedagogos lhe teriam invejado esta grande qualidade inspiradora que emanava. Em suas mãos a ação de educar não era uma compulsão ou uma obrigação penosa, mas uma espécie de grande e nobre conspiração da qual seus pupilos tinham o privilégio de participar. A casinha era, para eles, uma verdadeira escola de magia branca e os estudantes, que caminhavam e corriam por ali, assemelhavam-se a jovens feiticeiras e feiticeiros que aprendiam com a convicção embutida de que, ao fim do curso, seriam senhores de um grande poder”.

Por partes: “... qualidade inspiradora que emanava (do adulto)...” – de  fato, creio que esta é uma, se não “a”, qualidade que precisa estar presente no pano de fundo de todo educador, de toda pessoa que se relaciona com uma criança. Digo “pano de fundo”, no sentido de que não pode faltar neste cenário; precisa estar sempre lá, presente, onipresente, mesmo que, muitas vezes, não chame atenção dos atores que participam da ação propriamente dita. Inspirar, não cobrar, uma criança. Conversar sobre algum assunto sem impor uma determinada conclusão. Apresentar sem afirmar qualidades, deixar experimentar, perceber o gosto, a definição da criança. Perceber o ritmo desta criança, daquela outra. Inspirar possibilidades, expirar bem-estar.

“... a ação de educar não era compulsiva ou uma obrigação penosa...”; quanto a “obrigação” nem, creio, ser necessário estender muito. Talvez valha a pena lembrar que obrigação tende mesmo a ser penosa em quase qualquer circunstância. Por que “quase qualquer” e não apenas “qualquer”? Porque para alcançar uma meta desejada muitas vezes atravessamos caminhos pouco agradáveis ou confortáveis. Contudo, a meta ansiada serve como inspiração e fonte de energia e mesmo de coragem para seguir em frente. Além disto, sabemos que, ao fim e ao cabo, deste trabalho mais penoso encontramos o prazer do desejo alcançado. Já quanto a “compulsão” vale um cuidado. Um educador deve realmente se despir de toda forma de compulsão, de assenhoramento sobre o que é melhor para alguém. Muitas vezes temos a compulsão de dar respostas rápidas demais, dizer, por exemplo, “não, não, não” rápido demais. Somos, nós adultos, os reis e rainhas das atitudes viciadas, compulsivas portanto. Fomos treinados assim, desconectados de nós mesmos.Educados, podemos dizer, no sentido avesso a nós mesmos, educados justo para não manifestar nossa mais profunda sensibilidade. Fomos treinados, via de regra, a não ser quem somos verdadeiramente, treinados a tomar atitudes padronizadas, da moda, compulsivas, sem reflexão ou sequer contato sobre se tais atitudes nos agradavam de fato. Já ouvi uma mãe dizer, quando chamada atenção sobre estar reclamando que um filho não estava fazendo algo que ela – quando criança – detestava fazer, que estava “cumprindo o papel de mãe”, assim, sem nenhum senso minimamente crítico, como esquecida do mal estar que, um dia, já havia sentido. Esta mulher – poderia ser um homem, claro – estava viciada, esquecida de si mesma, enquadrada numa sistemática de vida (vida?) que, provavelmente, lhe fornecia algum tipo de segurança. Este é um trabalho importante que cada educador precisa aceitar: romper com seus vícios. E vícios não surgem à toa, surgem com boas e sensíveis motivações; de fato, hipersensíveis motivações. O vício é uma maneira de evitar o contato com uma sensibilidade dolorosa, ameaçadora para aquela pessoa. Uma dor que é daquela pessoa, não é de outra: cada um se vicia por motivos diferentes, pessoais. O que é duro de suportar para um pode não ser para outro – daí nunca menosprezar a dor do outro é sempre um ótimo caminho. O dito popular – “bebe pra esquecer” – é bem esclarecedor do que estamos dizendo. A pessoa se vicia – no álcool, neste caso – para esquecer o que lhe dói. Assim, também fica claro que, ao tentar evitar uma dor, esta pessoa cria um sofrimento – uma dor alternativa que tira o foco da dor real. A Vila-Escola é, portanto, uma escola para cada adulto que ali está. Somos, a cada instante, confrontados com nós mesmos, com nossas compulsões, nossos ranços.

“... uma grande e nobre conspiração...”; de fato, é nisto que estamos metidos. Estamos conspirando contra um sistema organizado e cristalizado; um sistema que não deseja de modo algum qualquer tipo de alternativa; um sistema reativo, reacionário, que fará todo o possível para anular qualquer açãoque se apresente frente a seus dogmas, mesmo que esta ação seja apresentada apenas como proposta a quem desejar escolher outra hipótese. Os dogmas deste sistema, principalmente, ensinam que devemos separ a forma do conteúdo, que privilegiar a forma ao conteúdo, separar o corpo dos sentimentos e desejos mais legítimos – aliás, isto é feito tão precocemente que uma grande parte dos seres humanos – a maioria – sequer entram em contato com seus desejos mais legítimos, sua centralidade única e intransferível. Enfim, um sistema que racha a unicidade do ser, que o separa de sua centralidade pessoal e intransferível. Por isto, é importante tomar cuidado para não agir apenas trocando os sinais e, assim, impor nossos desejos que, neste caso, se transformarão também em dogmas compulsivos e ditatoriais.

“... escola de magia branca... onde se ganha a convicção de que somos senhores de um grande poder...”. Um poder que, longe de impositivo, é acolhedor, é solidário, é colaborativo. Um poder que apenas é a possibilidade que cada um tem a oferecer ao mundo, à vida. Uma escola que ensina a conjugar o verbo poder: eu posso, você pode, ele pode, nós podemos...Uma escola onde se vive a magia do “sou quem sou” e, por ter o direito de manifestar-me assim, sendo quem sou, acolho e me associo a quem é você, este outro que comunga comigo da vida maior, da vida abundante que vemos quando nos deparamos com a diversidade dos peixes, com as mangueiras, os coqueiros e pitangueiras de Cumuruxatiba. Uma vida na qual a materialidade se manifesta, essencial, no gosto da fruta, onde não há conflito entre o visível e o invisível, entre corpo e alma (consciência, psique, espírito, ou o nome que você sinta melhor), onde não há competição, onde existe o prazer de jogar o jogo livre da vida, onde não há pirâmide de poder, onde não há vencido ou vencedores, onde apenas existe entrelaçamento de possibilidades – o poder que devemos reconhecer e manifestar, o poder da espécie humana, o poder de cada ser humano.

No início desta mensagem falei sobre dois temas. O segundo, que, se fosse colocar em ordem de importância, deveria ser o primeiro, porém, com menos frequência do que supomos existem ordens de importância, poistudo está interligado. Posto isto, o segundo – que não é segundo nem primeiro – diz respeito ao campo de acolhimento das crianças, isto é, nós, os adultos, os educadores. O campo onde as crianças irão conhecer a si mesmas, ao outro, onde irão se organizar consigo mesmas e também junto ao outro.

Antes, uma pequena reflexão: o que é mesmo educar? Frequentemente, quando se trata do termo “educar”, fala-se,e atua-se, no sentido de ensinar regras ou conhecimentos às crianças. Entretanto, via de regra, tais regras não foram acordadas com elas. Foram discutidas, deliberadas por outras pessoas, adultos muitas vezes com ótimas intenções. Assim deliberadas são impostas aos pequenos. Do mesmo modo, quando se trata de passar conhecimentos os adultos, cientistas, por um lado, estudam e consideram as possibilidades de apreensão da meninada, estudam o desenvolvimento de sua capacidade orgânica, cerebral, estabelecem idades mais ou menos adequadas para aprender este ou aquele tema; porém, não levam na mesma consideração seu desejo de estudar justo aquele ponto, justo naquele momento.Assim, o ponto de matemática é oferecido às 13 horas da segunda-feira e da quarta-feira, nas turmas de 4ª série – hora que o João, garoto inteligente e curioso, tem muito sono! E o João é repreendido ou, pior, desqualificado como preguiçoso e pouco inteligente. Joãozinho, muito provavelmente, ou vai aceitar este rótulo, esquecendo sua real vivacidade ou vai se desdobrar para não dormir, usar uma poderosa energia para se manter acordado e, assim, esquecer sua real vivacidade.

Também falamos em educação quanto às regras de convivência social. Regras estas também frequentemente padronizadoras de comportamentos – e que, portanto, muitas vezes, curvam, dobram o eixo natural de algumas pessoinhas que seguem tortas, cheia de dores, vida a fora. Como uma plantinha forçada a seguir uma determinada direção que agrada ao dono do jardim. A natureza da plantinha não será jamais conquistada – a roseira seguirá roseira, mesmo que sofrida –; entretanto, no caso dos humanos, os meninos e meninas podem esquecer muito profundamente o que, muitas vezes, sequer chegaram conhecer. Muitas vezes não chegaram a conhecer, porém as emanações – inspiradoras, mas, agora, ameaçadoras – desta fonte seguem presentes e poderosas. Quanto desconsideramos esta fonte primordial e pessoal mais nos sentimos mal, tristes, violentos, cruéis, acovardados, doentes, deprimidos, perversos. E assim construímos nossas sociedades, nossas cidades – grandes ou pequenas.
Para mim, educar é ajudar uma criança ser quem ela é. Educar é observar a criança sem preconceitos. Educar é procurar entender o mundo como aquela criança – não outra – o sente e entende. Educar não é dizer o que é melhor para a criança, é aprender o que é melhor para a criança. Educar é dar campo para a criança manifestar-se e organizar-se livremente. Educar é cuidar para que uma criança não se machuque ao viver suas experiências – experiências que vão lhe ensinar sobre ela mesma e sobre o mundo que a envolve. Educar é responder, na medida de seu conhecimento, o que a criança pergunta, procurar ampliar a resposta junto com ela, aprender ao mesmo tempo que ela, aprender com ela, aprender dela, conhecer mais de você através dela.Educar é mostrar sua própria e sensível humanidade. Educar é errar, reconhecer o erro, pedir desculpas, reorganizar, da melhor maneira possível, o mal feito. Educar é se revelar sem zonas obscuras, ambíguas, sombrias, para cada criança.
Amit Goswami, físico quântico, ensina que um cientista de mente fechada interfere no resultado de sua experiência, de sua observação. Um educador não pode ter nem a mente nem o coração fechados, não deve jamais ser cético em relação a alguém, a uma criança que seja. A criança, frente a esta hostilidade – mesmo que disfarçada, vestida numa roupagem de “boa educação” – vai desviar suas possibilidades, escondê-las, esquecê-las. Este é o poder do adulto.

Na formação de um grupo que pretende acompanhar e cuidar do desenvolvimento de meninos e meninas as ideias devem estar muito afinadas. Porém, mais do que as ideias, os ideais devem estar muito afinados, as intenções devem estar muito conscientes. Este trabalho, de afinamento, é o grande desafio para os adultos que estão na Vila-Escola. Aqui vamos nos confrontar com nós mesmos, cada um consigo e contar com o outro ao seu lado. Um outro tão sensível quanto ele mesmo, mas único em sua sensibilidade. Um outro que tem sugestões únicas por nascerem de sua fonte – que é única –, e que pode trazer a tona estas sugestões, não como as imposições com as quais, gentil ou violentamente, fomos “educados”, mas como um alimento a se juntar aos outros que compõem a mesa deste possível banquete.

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