14 de julho de 2011

Do Projeto de Gente a Vila Escola...

Diários de Cumuruxatiba
março/abril de 2011
(do Projeto de Gente à Vila-Escola Projeto de Gente)


Resolvemos usar este espaço para fazer uma retrospectiva das circunstâncias que nos conduziram á Vila-Escola Projeto de Gente. Os diários de maio e junho vão contar como foi o nosso 1º semestre. 
Então, vamos lá! 
Depois de 3 anos de atividades – e principalmente durante o transcorrer do 1º semestre de 2010 – ficou claro para os participantes do dia a dia do Projeto de Gente que a dinâmica do trabalho precisava ser aprimorada. 
Sentíamos que, sem uma reformulação, seria preciso muito tempo para trabalhar certas circunstâncias. Entre todas estas circunstâncias, a principal, era – é – a imensa falta de costume das crianças e jovens acreditarem que suas vozes serão, realmente, ouvidas e consideradas, pois, via de regra, os lugares que frequentam não proporcionam tal possibilidade. Esta falta de costume as leva a um tipo de silêncio – às vezes, muitas vezes, barulhento. A dinâmica é, mais ou menos, esta: a princípio não falam porque não sabem como se expressar livremente; a seguir, algumas fazem brincadeiras, meio nervosas, outras riem; e, assim, esquecem o que não souberam comunicar, isto é, esquecem o que sentem, o que pensam. Incômodo barulho, trágico silêncio. 
Este processo é amplo, geral e irrestrito, acontece em relação ao filme que vêm, à música que ouvem, ao sistema em que vivem, à escola em que estudam, à família que as rodeiam. E, ao final, não mais refletem, não mais sentem, apenas reagem a um sistema que, assim, os controlam. 
Reagem, basicamente, de duas maneiras: uns brigam, mesmo sem consciência clara, com o sistema. São rebeldes assustados, desnorteados, que atingem a todos com seus golpes – inclusive e em primeiro lugar, eles mesmos. Atingem também aqueles a quem amam. Outros, pacíficos, aceitam as regras impostas (impostas, pois não fizeram, em nenhum momento, parte do “conselho de adultos” que as organizaram), acatam-nas, e assim escondem-se, assustados, desnorteados, atrás do cumprimento do que lhes é exigido, esperado. Em ambas as situações não há livre expressão. Estão, como dissemos, apenas reativos à imposição, não são, de fato, protagonistas de suas vidas. Deste modo, rebeldes e submissos se encontram dentro da mesma circunstância: esquecidos de si mesmos. 
Pois bem, um dia, no Projeto de Gente, percebemos algo muito importante. Observando a dinâmica do que estava, naquele exato momento, acontecendo, vimos que a moçada estava se comportando como num grande recreio de escola. Quem estiver lendo este texto talvez possa se lembrar da expectativa que percorria a turma instantes antes do sinal tocar anunciando o recreio. A maioria de nós já estávamos ligados nas brincadeiras, na correria, no lanche; enfim, na liberdade, no contra-ponto da sala de aula. 
Neste dia, nos demos conta de que levaríamos um tempo enorme para que as nossas crianças percebessem que, ali, não era um recreio; que, ali, existia um lugar que não era para eles; que, ali, existe um lugar que é deles; que, ali, não precisavam extravasar suas energias reprimidas por regras e mais regras impostas; que, ali, podiam simplesmente viver o ritmo de cada um e de todos; que, ali, eles podem ser simplesmente ativos, manifestar o que querem, o que pensam, o que sentem e, juntos, encontrar a melhor maneira de vivenciar o que querem, o que sentem, o que pensam, o que desejam. 
Amigos, a atitude reativa é como uma defesa, uma armadura que colocamos para nos “proteger” de algo que sentimos como ameaça. Esta armadura, pouco a pouco, nos pesa, limita nossos movimentos. Assim, o que nos “protegia” agora nos machuca. Porém, enquanto a ameaça persiste – ou imaginamos persistir –, é difícil tirá-la. Daí o longo tempo de trabalho para se perceber – tão acostumados estamos – que podemos jogá-la fora. Às vezes percebemos seu peso, entretanto, muito rapidamente, novamente assustados, desarmados, sentimos como se “ruim com ela, pior sem ela”. “ Como se”, vale dizer, uma ilusão, não uma verdade, pois, à medida que crescemos, que vingamos, podemos nos proteger de maneiras menos tensas, menos pesadas, mais equilibradas, mais saudáveis. É deste modo que abrimos mão da verdade em prol da ilusão. 
Naquele momento, reafirmamos a disposição para viver este tempo, longo que fosse. Contudo, desejamos trabalhar na possibilidade de diminuí-lo. Percebemos também que muitos adultos teriam dificuldade em aceitar este tempo, pois, adultos, estamos, por demais, envolvidos pelas leis que recebemos de nossos pais, que a receberam de seus pais, que a receberam de seus pais... Leis que, muitas vezes, sentimos como naturais mas que, em realidade, são contra a natureza. 
Mas, vamos voltar ao recreio. Ao fazer a analogia com o recreio da escola lembramo-nos do curso de formação em Escolas Democráticas que havia feito em São Paulo durante o ano de 2005 por um dos educadores do Projeto. Foi como se, repentinamente, tomássemos consciência do porque este curso entrara em nosso rumo. 
Percebemos como, para muitos dos meninos e meninas que frequentavam o Projeto, uma escola democrática seria imensamente importante. Por exemplo, meninos e meninas que estavam em séries que não mais correspondiam às suas idades sendo, assim, cotidianamente, humilhados, desqualificados. Meninos e meninas cujo brilho nos olhos, cujas lindas habilidades e pujantes inteligências apagavam-se, gradativa e rapidamente, sufocados pela estrutura do sistema tradicional. 
Parecia, de fato, chegada a hora de por em prática as ideias e conceitos aprendidos na formação em Pedagogia Libertária – as Escolas Democráticas. Uma escola democrática, com a cara do Projeto de Gente, poderia, com naturalidade, criar um campo melhor organizado e organizador para o entendimento e para a vivência dos ideais que buscamos apresentar. 
Na verdade, a maioria já sabe, quando viemos para Cumuruxatiba tínhamos a intenção de criar uma escola. Mudamos de ideia ao conhecer as tantas belas pessoas que trabalham nas escolas da vila e perceber que seria muito complicado, até mesmo arrogante, chegar com uma nova escola. Preferimos, portanto, primeiro mostrar o que era o Projeto. 
Começamos, então, a conversar sobre esta possibilidade com os companheiros de jornada. Era julho/agosto de 2010. Assim decidimos por uma visita a São Paulo para conversar, olho no olho, com nossos amigos do movimento de escolas democráticas. Levantamos recursos extras para a viagem, Eliana e Begara nos emprestaram a casa e, fomos – Ana e Alexandre – a Sampa. Setembro de 2010. 
Os resultados desta viagem foram apresentados na casa da Andreia e do Ricardo, durante um dos jantares mensais em prol do Projeto. Naquela ocasião, ficou muito claro que o plano de se criar uma escola era bom e viável. Aliás, vale lembrar, antes de voltar a Cumuruxatiba, Ana e Alexandre passaram pelo Rio para conversar com os companheiros de lá. Também entre eles houve consenso: a escola era um bom caminho. 
A partir deste momento entramos em contato com a Secretária Municipal de Educação para conhecer os trâmites burocráticos. No 1º encontro foram Ana, Ricardo e Alexandre. Problemas no Conselho Municipal de Educação impediram a imediata entrada de nosso ofício na pauta da primeira reunião. Depois, outros problemas de saúde entre integrantes do Conselho impediram a realização das reuniões. Em fevereiro de 2011, Ana e Alexandre voltaram ao Prado. Por coincidência, já no ponto do ônibus, a Alcione – diretora da Escola Algeziro Moura – nos viu e entregou um ofício do Conselho que, não entendemos porque exatamente, havia sido dirigido à Algeziro. O ofício apenas comunicava o recebimento da solicitação de criação da escola.
De todo modo, a ida ao Prado foi mantida. Foi nesta visita que soubemos dos detalhes expostos acima. Repetimos a visita há poucos dias, pois não recebemos outro comunicado. Também fomos até Teixeira para o contato com a DIREC 9, orgão responsável pelo Ensino Fundamental. Lá conhecemos o Bougleux que nos deu as primeiras orientações sobre o procedimento burocrático de formalização da Vila-Escola.
Nestas andanças concluímos que seria interessante começar com o Ensino Infantil (3 a 5 anos) e Fundamental I (1ª à 4ª série). Esta conclusão baseava-se em praticidade funcional e economia financeira: a estrutura do Ensino Infantil já estava organizada após a experiência da turma dos pequeninos de 2010 no Projeto de Gente e não necessitaríamos de nenhum profissional a mais no quadro; para o Fundamental I precisaríamos de apenas um professor. Como a Ana tem todo o interesse, como mãe e profissional, em estar neste lugar aceitou as condições de nosso momento, em colocar-se no cargo oficial de professora do Fund. I. Este interesse evidencia a profunda aliança e comprometimento da Ana com a futura Vila-Escola Projeto de Gente.
Por outro lado, à medida que conversávamos com os meninos e meninas do Projeto de Gente, também ficava claro para a maioria que a criação da escola seria um passo adiante. Inclusive, uma circunstância nos pareceu particularmente interessante: muitas crianças, desejando participar da Vila-Escola, convenceram seus pais e mães, ou melhor, se fizeram ouvir, ao se comprometerem a frequentar a escola a que estão acostumados – a escola da vila – e, ao mesmo tempo, a Vila-Escola. Vieram nos procurar para perguntar se isto seria possível. Não custou nada para, nós da Vila-Escola, percebermos a pertinência deste plano, pois não tínhamos nenhuma dúvida de que não seria fácil para a maioria adulta – pais que sempre frequentaram as escolas da vila – simplesmente aceitar os conceitos libertários e democráticos da escola a ser implantada e sua diferente proposta pedagógica. Pareceu a todos do Projeto que esta era uma bela maneira de se iniciar o processo de construção da Vila-Escola, pois todos estaríamos compartilhando o movimento, respeitando as variadas dúvidas e inseguranças (“vai dar diploma no final?”, “ e se meu filho não quiser nunca estudar?”, “este sistema dá certo mesmo?”). Mais adequado aos ideais da Vila-Escola impossível.
Organizamos seis encontros em novembro de 2010, em dias e horários variados, para divulgar como funcionaria a Vila-Escola. Um dos pais interessados que sua filha frequentasse a Vila-Escola preparou um áudio-visual. Colamos cartazes nos vários e tradicionais pontos da vila (padarias, supermercados, etc).
Avançamos pelo verão e, em fevereiro de 2011, tínhamos a turma da Educação Infantil – 8 pessoinhas – e 9 meninos e meninas para o Fundamental I. Destes 9, 7 estão frequentando a escola da vila pela manhã e a Vila-Escola à tarde. Vale dizer que, para a Vila-Escola a divisão em séries não é fundamental. Nos referimos a Fundamental I por questões estratégicas relacionadas, como já vimos, aos recursos financeiros, pois o Fundamental II exige professores de matérias específicas. Contudo, pela reformulação da LDB, mesmo no Fund. II, pode-se usar projetos – e não cadeiras seriadas – como ferramentas na aquisição do conhecimento curricular tradicional. Esta possibilidade permite que os grupos de estudantes se organizem por interesses e afinidades, sem preocupação sobre qual série cada um está no sistema tradicional.
Iniciamos as atividades da Vila-Escola seguros de que, seguindo firme com nossos princípios, estamos prontos para correr os riscos que, de resto, são inerentes a qualquer empreendimento.
Percebemos claramente que não deveríamos nos paralisar frente aos medos e inseguranças; percebemos que era a hora de dar mais um passo em direção às metas do Projeto de Gente. Percebemos e partilhamos cada etapa deste processo com todos os companheiros.
Assim, resumindo e concluindo: (1) todos os elementos da trajetória de organização da Vila-Escola foram expostos ao longo destes meses; (2) que não houve aumento considerável nas despesas mensais: R$20,00 a mais quanto ao novo aluguel (de fato, uma taxa de manutenção por 10 meses, o que também nos dá R$600,00 de economia nos meses de dezembro e janeiro), R$30,00 de taxa de água (vamos pedir isenção ao grupo que organiza esta situação), e uma quantia referente à conta de luz (aliás, sobre a conta de luz, Cecília escreveu há poucos dias: “voltei de Cumuru pensando em deixar a energia por minha conta mesmo. Já arco com isto naturalmente, está em débito automático na minha conta. Fica como minha contribuição mensal do 'grupo de amigos' (comam os almoços, jantares e lanches por mim! Rsrsrs”); (3) a equipe segue sendo a mesma – Ana, Isabel e Alexandre –; (4) existe, hoje, mais facilidade de termos voluntários que preferem trabalhar de um modo mais organizado com os meninos e meninas; (5) temos maiores possibilidades de patrocínio com uma escola do que com um projeto nos moldes do Projeto de Gente; (6) o processo burocrático de legalização pode ser concluído – e aliás, de praxe, é assim que acontece – com a escola em funcionamento, como nos informou o inspetor Bougleux, da DIREC 9 (“Alexandre, no Brasil ninguém fecha uma escola, precisamos de mais e mais delas”, me disse o Bougleux). Esta foi, inclusive, a vivência pela qual a Ana, dona de escola por 13 anos no Rio de Janeiro, já passou; (7) os meninos e meninas encontraram uma maneira objetiva e prática para vivenciarmos o trabalho de aceitação e implantação de novas ideias e novas práticas; (8) alguns pais e mães se mostraram muito receptivos à Vila-Escola tal como ela se propõe e esta é, já reconhecidamente, uma das condições mais importantes para o sucesso das Escolas Democráticas.
De modo que, somando estes pontos, estamos confiantes na possibilidade de que, juntando forças, habilidades e conhecimentos, possamos ultrapassar as dificuldades que ainda encontraremos durante a jornada.

Nenhum comentário: