26 de julho de 2011

Diários de Cumuruxatiba - maio/junho de 2011 - estamos quase em dia!!!

O caminhão da mudança chegou no novo lar
Como vimos nos “diários de março-abril”, muitas conversas existiram antes da decisão sobre esta mudança. Porém, apesar destas conversações, algumas dúvidas permaneceram: algumas naturais, isto é, apenas serão respondidas no decorrer dos novos acontecimentos no novo cenário; outras porque opiniões e estratégias preferidas são mesmo diferentes entre uns e outros; ainda existe o fato de que a posição específica destes uns e outros faz com que a visão dos acontecimentos seja, de certo modo, particularizada, isto é, os que estão no cotidiano prático veem questões impossíveis de serem percebidas pelos que, não estando neste cotidiano, labutam em outros campos do mesmo trabalho.
Como, em nosso caso, existe um número importante de pessoas que apoiam voluntariamente o trabalho, é preciso ter sempre em mente que as variadas perspectivas sobre o desenvolvimento do trabalho devem se complementar, compartilhadas, para que se organize uma unidade harmônica. Para que isto aconteça é necessário que exista uma grande abertura nos espíritos e também grande confiança entre os indivíduos do grupo. Além disto, é necessário muita conversa, sempre dentro deste espírito de cumplicidade. Assim, com naturalidade, poderão ser compartilhadas as visões, as compreensões e as posições de pessoas em suas particulares situações e particulares habilidades e experiências – o  que lhes permite ver, sentir e pensar sobre particulares questões e acontecimentos diários.
Este caminho é percorrido com algumas dificuldades, pois demanda bastante trabalho. Um trabalho que apenas pode ser realizado por cada caminhante. Os obstáculos são variados e surgem, muitas vezes, quando menos se espera. Embora alguns destes obstáculos já fossem esperados, mesmo assim, exigem vitalidade e persistência para serem superados. Além disso, e talvez o mais importante, cada obstáculo tem peso diferente para cada membro da tripulação de nosso barco. É preciso esperar até que aquele membro compreenda a sua questão, perceba sua sensibilidade pessoal em relação àquele ponto. Esperar e aceitar sua decisão, pois tanto ele pode ultrapassar o tal obstáculo quanto decidir manter-se parado naquele ponto; pode, até mesmo, reagir e colocar-se contra a direção do caminho. Nenhum dos outros tripulantes pode julgar e condenar aquele; devem mesmo abrir espaço dentro de si mesmos para confirmar a direção apontada por sua própria bússola.
Pois bem, a mudança chegou! Novo espaço, novas ideias; na verdade, novas estratégias, pois a alma de nosso trabalho segue firme e forte: “O Projeto de Gente chama atenção para a imensa responsabilidade dos adultos, que devem oferecer campo adequado para que suas crianças tenham a mais ampla possibilidade de conhecer e respeitar a si próprias. Esta possibilidade permite o reconhecimento do amor-próprio que alimenta a própria individuação e a construção de uma serena auto-estima, bases completamente necessárias para o exercício do respeito ao outro e do direito de ser singular e incluído socialmente”. Incluído socialmente, vale dizer, em uma sociedade pautada, deste modo, para a justiça e inclusão. Naturais justiça e inclusão.
Seguimos percebendo que, como disse James Hillman, de modo simples e claro: ”...para se entender a vida humana (não podemos) omitir algo essencial: a particularidade que você sente que é você.” 
O que disse Ingmar Bergman continua valendo para nós: “Nós somos sentimentalmente analfabetos. E esse é um fato lamentável que não diz respeito apenas a você e a mim, mas sim praticamente a todo mundo. Nós não aprendemos nada sobre a alma. Somos terrivelmente incompetentes tanto sobre nós próprios como sobre os outros. Ninguém tem a idéia de que precisamos aprender algo a respeito de nós mesmos e de nossos sentimentos. A respeito de nossos medos, de nossa solidão, de nossos ódios. Nesse ponto estamos perdidos, incapazes... Como é que vamos compreender os outros se nada sabemos a respeito de nós mesmos?” 
Tudo que está entre aspas foi escrito – ou “colado” do Hillman e Bergman –, pela primeira tripulação desta barcarola, em 2003.
Mas, vamos voltar à mudança. Descarregado o caminhão, impera uma certa bagunça: caixas para todo lado, objetos perdidos, coisas sobre coisas, onde está isto?, e aquilo? Confusão, confusão e medo,... muito medo. Será que as coisas vão entrar nos eixos? Dúvidas.
E aí vale muito o ensinamento do Nego e do Mujinha, nossos amigos pescadores. Certo dia, em 2007, eles me explicaram que velejar nas canoas de Cumuruxatiba – duas velas e dois mastros separados – era bastante difícil e trabalhoso, mas compensado pelo fato de sempre ser possível arrumar as velas de modo a seguir, mesmo que mais lentamente e com mais esforço, na direção desejada. Isto é, exceto na calmaria total, sempre é possível ter a meta na ponta da agulha, sempre é possível manter o norte – ou o seu ponto cardeal ansiado – em frente. Nada de ficar reclamando do vento que, não sendo o seu preferido, deve estar tocando outro barco com mais facilidade.
Pois bem, com tudo isto em mente e circulando por nossas veias, fomos tentando acertar o rumo. Como o grupo de meninos e meninas vai se organizar? Como vai se fazer a agenda do dia a dia? Não vai haver nenhuma? Como encaixar o desejo de uns brincarem com a atividade eventualmente concentrada de outros? Quem “ganha”?
Dizem que “o tempo é o senhor da questão”. Pois bem, não concordamos inteiramente, pois este ditado pode nos levar a um estado ilusório, pode nos manter sem movimento, esperando a tal ação do tempo. Ora (ou devia ser “hora” – já que estamos falando de tempo!), o tempo do relógio não existe em si, foi inventado por nós. O que quer que aconteça acontece na comunhão de ações. Ações de seres animados de variadas formas – desde a alardeada consciência dos humanos até a consciência da mais pequenina partícula conhecida dentro de um átomo (e alguém vai dizer neste momento: átomo não tem consciência!).
Vale lembrar que, no mínimo, devemos levantar uma questão: quem é mais sábio? A mangueira, o coqueiro, a pitangueira que sabem o que querem e aceitam as condições à sua volta para trazer seu fruto ou o ser humano mergulhado em velhas dúvidas – quem sou?, oncotô?, proncovô? – e sempre culpando o outro (foi Eva!... foi a serpente!... já disseram a mítica avó e o mítico avô!... talvez eles não tenham ensinado o melhor caminho; porém, certamente, apontaram para onde não ir! Ensinaram a negar sua sensibilidade própria, negar suas ações, ensinaram a mentir. E, pior que tudo, mentir para si mesmos, pois, uma hipótese, é a de que Deus representasse algo maior, mais abrangente, deles mesmos. Assim, mentiram para si mesmos. Infelizmente parece que tomamos isto como lição e, deste modo, organizamos nossa sociedade e nosso contato com a natureza – afastada de nós que nos afastamos de nossa própria.)? (nossa, o ponto de interrogação ficou longe! Olha só, como devemos estar atentos!... hehehe)
Pois bem, desde março vamos navegando nestas águas. Neste momento, junho, ainda temos muito mais questões para resolver do que resolvidas. Porém, algo avançou.
Muitos Projetos de Saber foram criados, a saber: (1) produção de livros – histórias e ilustrações coletivas e individuais –; (2) uma revista digital sobre o espaço sideral; (3) observação de pássaros – com atenção quanto a maneira de registrar as espécies –; (4) leitura de livros – um em voz alta (a “Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson, que gerou o início de criação de uma peça de teatro a ser apresentada em agosto –; (5) oficina de origami – vai ser repetida periodicamente –; (5) uma equipe reativou o blog; (6) estudo sobre dinossauros – que evoluiu para os livros e para início de estudo do sistema métrico; (7) seguiu a aula de flauta com o Mestre Dema – agora ele vem de 15 em 15 dias; porém, chega na terça-feira, às 15hs e fica até a quarta-feira, 17hs; (8) projetos pessoais são possíveis: o tempo de estudo de violão do André, e as necessidades dos meninos e meninas quanto a outra escola (provas ou trabalhos), são bons exemplos.
O grupo foi se formando. Aos poucos foram percebendo, no dia a dia, o que havia sido conversado nos meses anteriores.
Agora temos um caderno de presença: cada um chega na sua hora, marca e assina; um sinal de compromisso, não de obrigação. As rodas estão organizadas: sempre na segunda-feira e, se necessário, alguma extraordinária. Assembleias também regularizadas. Os Projetos de Saber estão também organizados levando-se em consideração as possibilidades dos estudantes e dos orientadores. Nas rodas foram tomando forma combinações variadas: por ex, não se pode brincar de correria e gritos quando um grupo – ou uma pessoa – precisa se concentrar (nosso espaço físico é muito bacana, mas exige este cuidado). Procuramos, nestas rodas, chegar ao consenso para não haver um grupo vencedor; conversamos bastante – o que não é muito fácil para a maioria, desacostumados a ter a voz ouvida.
Como dissemos acima, a maioria de nossas crianças estão frequentando a Escola Municipal e a Vila-Escola ao mesmo tempo. Isto foi um achado de um dos meninos – o Peterson. Ele perguntou se isto seria possível, pois sentia que seu pai precisava ganhar confiança neste sistema novo. Foi uma verdadeira luz que se acendeu para todos nós. Claro que os pais e mães precisavam deste tempo. Na Vila de Cumuruxatiba, quem quer que tenha frequentado a escola, o fez nas escolas Municipais. De todo modo esta é a referência! Precisamos mesmo deste tempo – todos precisamos! Assim, acolhemos as necessidades atuais de nossas crianças. Se, por acaso, é a necessidade de estudar para uma prova na Escola Municipal, muito bem, nenhum problema. Na verdade usamos esta necessidade para trazer, de modo diferente, um novo conhecimento. Aliás, muitos estudos – sobre o cangaço, por ex – foram iniciados a partir desta situação. Em tempo, não mencionamos o cangaço lá em cima, pois este foi um estudo focal; isto é, não se transformou em um Projeto de Saber.
Estamos com dois turnos: pela manhã, 08 crianças de 3 a 5 anos. Este turno está vivendo circunstâncias que vamos avaliar para perceber a melhor direção a tomar (falaremos disto no próximo “diário”); à tarde, 09 pessoas: Theo, Cauê, Keven, Ane Kethleen, Vitor Emanuel, Keu, André, Peterson – moçada de 4 a 17 anos. A Fabiana, mãe de um bebe – a Shaiana – de poucos dias, não tem conseguido, naturalmente, comparecer. Além deles, devem iniciar, em agosto: Luíza, Daniel e Alan. No dia de flauta, a tripulação aumenta, pois abrimos este espaço para as crianças da Vila. Aí temos velhos frequentadores do Projeto: Abimael, Cleiton, Nina, Douglas, Vitória, Iago, João, Alan. Novidades: Rosseline e Damares. Da Vila-Escola estão: André, Keu, Cauê, Ane e Emanuel.
Juliana e Leonardo, da Pousada Aquarela, estão com a Vila-Escola! Uma aquisição maravilhosa para todos, pois, além de conhecimentos variados, trouxeram um energia amorosa, cuidadosa e carregada de entusiasmos. Obrigado, amigos! 

Até julho!

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