21 de dezembro de 2010

Setembro/ 2010


Setembro foi marcado pelo debate sobre a Escola Projeto de Gente. Adultos, meninos e meninas foram envolvidos pelo tema e seus variados aspectos: “será que todos que quiserem vão poder participar?”, “quem está nesta escola vai precisar ir na outra?”, “quem vier na escola do Projeto vai ter diploma que vale?”, “oba! não tem prova?”, “sei não, acho que meu pai vai ficar com medo de me colocar em outra escola!”, “vai ser uma escola paga?”, “e se eu mudar de cidade, p'ra que ano que vou?”, “a gente aprende o mesmo que na outra escola?”, “e se me perguntarem em que ano que 'tou, o que que eu falo?”, “quem vai dar aula?”, “tem aula?”, “se não tem prova, como é que faz?”, “tem presença?”, “é preciso explicar muito bem este negócio de liberdade, se não vão pensar que é bagunça!”, “onde é que vamos conseguir dinheiro para levantar a escola?”

Foi também em setembro que fomos, Ana e eu, a São Paulo. Tínhamos como metas entrar em contato com o pessoal das Escolas Democráticas, principalmente a Helena Singer; conhecer a Politeia – escola organizada pelo grupo da Helena –; procurar conhecer com detalhes as estruturas administrativa e financeira da escola; conversar sobre as questões específicas de Cumuruxatiba, etc e etc.

A viagem foi bastante proveitosa. Além da Politeia, conhecemos também a Teia Multicultural – uma escola que está se organizando democraticamente, orientada pelo pessoal da Helena e oferece Ensino Infantil e Fundamental I. A Politeia trabalha com uma moçada mais velhinha – um equivalente ao Fundamental II.

Helena Singer comentou, em São Paulo, que cooperativas têm se mostrado a estratégia mais eficiente na organização de experiências sócio-democráticas no Brasil. Isto se deve, provavelmente, à facilitação na formação de redes entre cooperativas afins; ao fato de que os gestores serão também pessoas que estarão próximas e interessadas no dia a dia da escola; além disto, os que não participam do cotidiano têm também os mesmos ideais e objetivos.

Como, por definição, uma cooperativa é formada pelo encontro de pessoas que desejam contribuir, umas com as outras, com bens e serviços, na construção de uma atividade de proveito comum e sem objetivo de lucro, em uma pequena comunidade esta é, sem dúvida, a melhor forma de associação, pois favorece a união de potências – recursos – pessoais para um fim comum. Uma cooperativa é, portanto, uma estrutura perfeitamente adequada a uma escola democrática.

Entretanto, nos parece que, a princípio, seria muito custoso criar uma cooperativa, pois já temos a Associação Projeto de Gente que, embora precisando de ajustes, já está criada.

Em Sampa tivemos a oportunidade de conhecer o projeto Escola Bairro. Percorremos com a Helena e a Lilian as várias modalidades de atividades que são desenvolvidas na Vila Madalena: oficinas de grafiti com intervenções nas praças e muros do bairro, informática, áudio- visuais, jornal, etc e etc.

Seguindo a inspiração do Birro Escola e a a ideia de cooperação, de cooperativa – operar junto, trabalhar junto –, podemos imaginar a escola, em Cumuruxatiba, ultrapassando seus limites físicos a alcançando o conhecimento que está por toda parte. O conhecimento que está na padaria, na cozinha do restaurante, na oficina de bicicleta, no posto de saúde, na pousada, no mercadinho, no bote do pescador, na roça, na aldeia pataxó, na biblioteca da vila, nas outras escolas, no cinema na praça. Podemos imaginar uma bela rede de relações entre os mestres destes conhecimentos – pessoas comuns com as quais nos encontramos a todo momento – e os estudantes da escola. Também podemos imaginar que, na medida que os responsáveis estarão escolhendo esta escola por causa de sua forma de pensar e atuar, vamos ter a chance de construir uma rede mais forte entre a escola e estas famílias. Esta rede pode criar um suporte mais vivo e ativo para os meninos e meninas da escola. Daí a sugestão de nome para esta escola: Vila-Escola Projeto de Gente.

Voltamos muito animados, depois de um estratégica paradinha no Rio para discutir com o pessoal de lá os resultados da viagem.

Tanto no Rio de Janeiro (na tal estratégica paradinha) quanto em Cumuruxatiba (principalmente durante um de nossos jantares mensais – casa de Andreia e Rico), expusemos estes aspectos, conversamos a respeito e concluímos que este era mesmo um bom caminho a seguir – ocamiho da Escola.

Pois bem, demos início ao movimento em direção à efetiva criação da escola; nesta altura já tratada como: a Vila Escola Projeto de Gente.

Este movimento incluía: (1) reunião com os pais e mães dos pequeninos – acontecida em 21 de setembro –; (2) reunião com as direções e coordenações pedagógicas das 3 escolas de Vila – realizada em 23 de setembro   –; (3) ida ao Prado para reunião com o pessoal da Secretaria Municipal de Educação – 04 de outubro.

Como resultado da reunião na Secretaria foi enviado um ofício, em 19 de outubro, solicitando ao Conselho Municipal de Educação a apreciação de nossa proposta.

Neste meio tempo escrevemos a Proposta Político-Pedagógica da Vila Escola que foi anexada ao ofício. Também neste período preparamos o regimento interno da escola. A reunião do Conselho foi adiada duas vezes (de 22 para 24 de outubro e, finalmente, para 11 de novembro). Ainda não temos o resultado desta reunião, embora, e certamente um bom sinal, tenhamos recebido uma mensagem eletrônica de uma das conselheiras avisando do adiamento da reunião e elogiando a proposta.

Como já é nossa tradição – boa tradição – trabalhamos com a certeza de que sempre devemos ter nossos planos visíveis e transparentes. Justo por conta disto, inclusive, logo quisemos um contato com as escolas da vila para, exatamente, não criar a impressão de que estávamos propondo a criação de uma estrutura inimiga. Apenas queremos oferecer uma alternativa - alternativa no mais puro sentido do termo.

Seguindo a mesma linha de conduta, pensamos em apresentar à comunidade a proposta desta escola tão diferente em relação ao que a Vila tem como possibilidade para os meninos e meninas. Vale lembrar que foi assim que agimos em 2007: durante 3 meses, realizamos encontros frequentes, muito frequentes, com as escolas, os pescadores, moradores em geral, etc. E, apenas depois de sentir  receptividade dos moradores, abrimos as portas do Projeto de Gente.

Para nós isto é muito importante na medida que acreditamos que será, mais do que qualquer outro fator, a reunião – muita união – de pessoas interessadas na proposta da Vila Escola que nos levará aos demais recursos necessários: profissionais, voluntários e recursos financeiros. E, quando dizemos interessadas, estamos nos referindo a pessoas que têm filhos e filhas em idade escolar, pessoas que, mesmo sem filhos nesta situação, apoiam a proposta por acreditar em suas metas.

Não nos iludimos quanto a complexidade da proposta que, como já dissemos, é inovadora em nossa comunidade – e mesmo em outros centros, embora e felizmente, não única. Porém, acreditamos que justamente apresentando – clareando, clareando – o trabalho podemos criar campo propício ao seu  gradual entendimento. Desta maneira também, revelando nossos conceitos, filosofia, possibilidades e limitações, estaremos evitando que as pessoas criem ilusões a respeito e contribuindo também para evitar o “ouvir falar que...”.

Falar sobre a Vila Escola pode, inclusive, abrir chances de concretização para circunstâncias que, neste momento, não são possíveis: a turma de crianças acima de 7 anos, por exemplo e especialmente para os maiores de 10. Pais e mães de meninos e meninas com mais de 7 que se interessem poderão criar a mobilização necessária para alcançarmos estes recursos. Aliás, vale dizer, este já é um acontecimento real.

Não nos iludimos também ao afirmar que a proposta de uma escola libertária será, por muito tempo, delicada, duplamente delicada. Duplamente, pois, tanto do ponto de vista pedagógico quanto do filosófico, encontraremos muita resistência. Pedagogicamente, muitos se sentirão inseguros quanto aos resultados desta instituição tão diferente das que estão acostumados a perceber como “normais”; filosoficamente pois, para muitos, é difícil trabalhar em direção à autonomia de seus filhos e filhas, na medida em que isto pressupõe questionamentos, sensação de perda de controle, além de dedos colocados em feridas que estes adultos esconderam muito bem escondidas e não desejam expor (embora sigam sentindo a dor das feridas ocultas!).

Infelizmente, via de regra, as crianças são estimuladas a obterem autonomia para satisfazer as necessidades que a sociedade solicita. A conquista de uma autonomia que os impulsione em direção à felicidade mais profunda e verdadeira exige um longo trabalho e nós, adultos, que tencionamos nos oferecer como campo para que algumas crianças alcancem esta forma de autonomia precisamos estar seguros e dispostos a ele; precisamos não nos deixar abater por julgamentos feitos de acordo com as leis do sistema vigente e que, via de regra, não admite alternativas; precisamos, serenos e pacíficos, criar e mostrar nossas próprias avaliações. Avaliações que incluem “coeficientes” de alegria, de bem estar e de prazer no desenvolvimento de cada uma de nossas crianças, “coeficientes” de alegria, de bem estar e de prazer na aquisição de conhecimentos, “coeficientes” de solidariedade, “coeficientes” que revelem pessoas menos competitivas e mais colaborativas na organização social do ser humano, “coeficientes” de compreensão e respeito às limitações pessoais e dos amigos, “coeficientes” de compreensão e aceitação das diversas formas de se ver e sentir a vida.

Até a próxima!

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