23 de setembro de 2010

setembro de 2009

Diários de Cumuruxatiba
Setembro de 2009

Outro dia, em uma conversa, alguém se referiu a Cumuruxatiba como um grotão - “Aqui neste grotão acontecem coisas que não acontecem em outros lugares...”. Esta pessoa estava se referindo ao nosso distanciamento quilométrico dos grandes centros onde, aparentemente, acontecem as coisas que verdadeiramente movimentam o país. O grotão, portanto, parece ser um lugar onde o que quer que aconteça não é relevante para o país.

Cumuruxatiba: um pequeno distrito de um município de um estado brasileiro, um grotão dentro do país. Entretanto, aqui acontecem, por exemplo, eleições; existem instituições (posto de saúde e escola, outros exemplos) regidas pela constituição do Brasil; e, também aqui, vivem pessoas – crianças, jovens, adultos, idosos – que adoecem, vão às escolas, submetem-se às provas do IDEC, do ENEM, dos vestibulares, trabalham, casam, têm filhos e filhas, são filhos e filhas, sentem medos, carecem de alimentos e água pura; enfim, gente, pura e simplesmente gente. Gente pura e simples, gente impura e muito complicada, gente honesta, gente desonesta. Cumuruxatiba: um lugar como outro qualquer, único e igual a todos no país e no mundo; um corpo social, como qualquer outro, formado por corpos individuais, isto é, por pessoas singulares e iguais a todas as outras.

Otávio Velho levanta a hipótese, sociológica, de que “por trás da teoria dos grotões (…) oculta-se (…) o receio da autonomia de movimentos e pessoas”. (Carta Capital, 27/12/06, pg.27). E continua: “autonomia que ameaça os pequenos mundos dos condomínios...” e que, por isto, “resistem ferozmente contra as ações afirmativas que permitam uma reparação em favor de grupos (…) desfavorecidos”.

O grupo desfavorecido com o qual trabalhamos são os meninos e meninas. E porque seria este grupo desfavorecido? Será que os adultos estão realmente atentos ao que devem oferecer para que cada criança receba o que de fato ela precisa para ser quem ela é, espontânea e feliz? Será que estão cuidando da alma de cada criança para que ela, como diz Thomas Moore, de fato prospere? Será que, no final das contas, ao oferecer o que tradicionalmente oferecem às crianças, procuram mesmo é se sentirem apaziguados? Porém, apaziguados no sentido de que, assim, elas – as crianças – provavelmente não irão confrontar cada adulto com sua própria fuga de si mesma?

O Projeto de Gente tenta trabalhar estas questões ao buscar, em cada um de nós, a consciência de que cada menino e menina tem sua vocação pessoal e intransferível. Que têm o direito de manifestá-la e, mesmo não a conhecendo completamente, nós adultos, podemos, pelo menos, estar atentos para diminuir os obstáculos à sua manifestação e desenvolvimento. E, claro, aproveitar o mesmo campo para seguir em nossa contínua busca de reencontro com nossa própria vocação vital – isto significa nos ombrear às crianças.

Os trabalhadores do Projeto de Gente não devem se esquecer de que "as crianças tentam viver duas vidas de uma só vez, aquela com a qual nasceram e a do ambiente e das pessoas que as cercam", como escreveu James Hilmann. Pessoas e ambientes por um longo tempo tão importantes para as crianças que significam, para elas, a possibilidade de vida ou de morte – embora, pessoas e ambientes nem sempre atentos ao que elas, crianças, precisam para se sentirem plenamente vivas. Infelizmente, com mais ou menos consciência, com mais ou menos carinho, a maioria destas pessoas e ambientes organizam, não um natural campo de possibilidades (um poder ser) no qual as crianças possam descobrir a si mesmas e, assim, descobrir os caminhos de sua felicidade. Organizam sim um lugar com placas de direções tão estritas, com penalidades tão rigorosas aos que ousarem escolher outros rumos que, sufocantemente, quase determinam a rota a ser seguida.

O Projeto de Gente pretende ser um espaço onde cada criança possa se observar enquanto observa o mundo que cria, o próprio Projeto de Gente – sem medos ou ameaças. Este é o foco do trabalho: que o processo de individuação aconteça naturalmente durante as pequenas vivência cotidianas. Esta é a meta: que o Projeto seja um planeta, um país alternativo onde isto possa acontecer. Um país que não quer mudar qualquer vizinho, que deseja apenas exercer sua autonomia, isto é, o direito de desenvolver sua própria e efetiva legitimidade.

A maior parte do que falei até aqui é intangível aos que apenas se aproximam da casa do Projeto de Gente. Invisível aos que não se aprofundam nos fundamentos de nosso trabalho. Entretanto, não devemos abrir mão destes aspectos mesmo sabendo que eles, muitas vezes, provocam reações mais ou menos conscientes. Ao contrário, com delicadeza e persistência precisamos ter tais aspectos sempre em mente e presentes em todas as atividades do dia a dia. Ao mesmo tempo, precisamos encontrar estratégias para alcançar recursos que vão possibilitar a formação de uma equipe coesa e trabalhando em tempo integral. Profissionais que, junto com os voluntários, estarão oferecendo suas habilidades pessoais e buscando alcançar as metas próprias ao Projeto.

Neste mês de setembro percebemos uma tendência de mudança na composição do grupo de meninos e meninas frequentadores do Projeto de Gente. Primeiro, uma diminuição no número de participantes; segundo, uma diminuição na idade média dos novos meninos e meninas que apareceram perguntando sobre a possibilidade de participar.

Alguns fatores foram também observados para explicar tais tendências. (1) Crianças com mal desempenho nas escolas e que – fim de ano, provas finais à vista – eram, então, proibidas de frequentar o Projeto. Procuramos alguns pais e mães lembrando que estas crianças poderiam estudar no próprio Projeto. Alguns passaram a levar trabalhos e estudo, porém, dependendo da condição econômica, alguns preferem colocar seus filhos nas “bancas”, aulas de reforço que, por conta do grotão em que vivemos, são os próprios professores das escolas. (2) Percebemos que, há dois anos atrás, os meninos e meninas que primeiro nos procuraram tinham, em média, 9, 10, 11 e 12 anos. Segundo o depoimento de um destes meninos, hoje com 13 anos, “agora a gente tem muitos outros interesses!”. Disse isto com um belo e discreto sorriso e um olhar meio de viés. De fato, o formato atual do trabalho privilegia a moçada de idade menor. As oficinas e atividades mais comuns – artes, jogos,etc – tendem a ser mais atraentes para os, vamos chamar assim, pequenos. Os maiores que seguem frequentando a sede do Projeto são exatamente aqueles que, com mais ou menos consciência, percebem as particularidades do Projeto de Gente. É também possível observar um certo ir e vir destes meninos e meninas adolescentes. É como se colocassem o vir ao Projeto junto aos tais outros interesses. (3) A bem vinda organização de outras atividades para a moçada: o teatro do Juan, o vôlei do Jeff, o futsal do Lúcio, a escola de vela do Aldo, Giorgio e Rogério. Além disso, o Curumimbatuque e a dança afro continuam em plena atividade. Claro que nem todos participam de tudo, mas, como nas cidades grandes, a agenda fica cheia, os interesses se organizam e o cansaço bate; além dos pais e mães, novamente, pressionarem para que as crianças tenham tempo para estudar as coisas da escola. Vale dizer que nada do item 3 é problema, pois existem crianças suficientes para até mesmo outros projetos.

Fiéis a um dos princípios básicos do trabalho não forçamos nada, apenas nos mantemos como campo receptivo. Achamos que é necessário aceitar este movimento, aproveitá-lo e, ao mesmo tempo, pensar em estratégias que possam envolver mais e mais os mais "velhinhos" e acolher a "2ª geração" do Projeto...

Diretamente de um grotão deste imenso Brasil, um grande abraço e até outubro!

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