23 de setembro de 2010

junho de 2010

DIÁRIOS DE CUMURUXATIBA
junho de 2010

Olá! Pois bem, o tal movimento dos moradores e viajantes se organizou. Também se organizou o grupo de moradores que organiza o Projeto de Gente: Jaqueline, Alexandra, Alexandre, Thiago, Ornan, Marina e Douglas. Alguns do grupo de “bagunceiros” estão aí.

Pois não é que a onda de bagunça refluiu! Alguns acontecimentos deste mês: a oficina de flauta se fortaleceu, a preparação de uma apresentação – flauta e teatro de sombras – para julho; a própria aula de flauta ganhou novos adeptos (incluindo dois carinhas do famoso “grupo”); a proposta do grupo de teatro avançou. Em um dia de muita chuva vimos um filme – Avatar – e combinamos que uma sessão acontecerá de 15 em 15 dias, seguida de um bate-papo, para quem quiser, naturalmente.

Pelo menos para um dos adultos do Projeto esta foi uma extraordinária experiência, pois ele estava na beira de desistir de, pelo menos, dois daqueles meninos. Ele se sentia dividido entre os que queriam uma dinâmica mais tranquila, calma e os bagunceiros que, de um jeito ou outro, também tinham direito à sua própria dinâmica. Claro que os combinados em roda é que decidiriam a parada e, neste caso, a maioria queria mais paz. De todo modo este adulto estava se acostumando com a possibilidade de considerar o caminho escolhido por aquele grupo como um direito e um fato cristalizado em suas vidas. Enfim, estava aceitando que as couraças organizadas por estas crianças eram já tão endurecidas quanto às de tantos adultos. Restava a questão sobre como trabalhar a situação de reincidência contumaz do desrespeito às combinações. Levar para a Roda e aceitar o que muitos já admitiam como única solução: a expulsão ou suspensão destes meninos?

Um acontecimento, aparentemente casual, foi uma marca importante numa mudança de atitude do grupo: alguns meninos estragaram um jogo – um tabuleiro de gamão – de estimação de um educador e que fora emprestado por este aos meninos e meninas. Quando isto veio á tona houve um clamor forte e alguns dos meninos responsáveis se sentiram muito constrangidos. Agora, poeira assentada, é possível perceber que realmente houve um divisor de águas neste momento. A auto-regulação enfim acontecia. Os meninos perceberam quais seriam as consequências de seus atos – e nem estamos falando de expulsão, embora isto tenha sido discutido. Estamos nos referindo à uma espécie de isolamento que, a partir daquele momento, este grupo passou a sentir. A partir daí alguns destes meninos mudaram de atitude e, de certa forma, passaram a liderar uma mudança. Na verdade, acreditamos que houve uma mudança de consciência mesmo que ainda sem a percepção do que motivava cada um dos componentes do grupo a agirem como agiam. De todo modo, entre alguns, questões começaram a ser levantadas: “O fulano faz isto porque esta com problemas em casa, sua mãe e o padrasto estão se separando e ele não sabe o que vai acontecer com ele”, “Sicrano precisa muito de ter atenção, lá na casa dele ninguém liga p'ra ele, o pai bebe p'ra caramba, a mãe desconta nele”.

Um grande amigo do Projeto tinha a opinião de que os educadores já estavam sendo considerados como pessoas bobas, achincalhados pelos meninos e meninas “da bagunça”. Mas, talvez, estivessem apenas sendo fiéis a um princípio. Para eles, serem eventualmente motivo de chacotas não era o mais importante; o complicado é que uma outra parcela de pessoas – as que não queriam aquela quantidade de bagunça – também estavam corretas em pedir que sua proposta tivesse valor, que fosse qualificada. Largar de mão os “bagunceiros” era difícil para os educadores. Mas, eles aparentemente não queriam compor uma combinação. Foi então que aconteceu o “golpe de sorte” que contamos aí em cima. Há quem diga que não foi “golpe de sorte” e sim o momento – um momento de sincronicidade, diria Mestre Jung – em que novas engrenagens se organizaram, o momento em que eventos aparentemente separados, distintos – apenas aparentemente – se juntaram, o momento da mágica auto-regulação. Afinal, os “bagunceiros” não queriam perder o Projeto e, na hora h, agiram neste sentido.

Lévi-Strauss mostrou que as sociedades humanas, embora diferentes entre si, obedecem, em sua organização, a um código ou sistema universal, isto é, há algo em comum – um fundamento universal – como pano de fundo em todas elas. Tal pano de fundo não é a geografia em que o humano está incluído – embora ela também tenha influência – , nem a natureza externa a ele ou a própria sociedade onde nasceu – embora também isto tenha influência. A cultura de uma sociedade – sua maneira de viver, ver o mundo – é organizada por seus sócios, isto é, por todos os que co-laboram na organização desta estrutura. Este é o pano de fundo: o ser humano e sua muito pessoal sensibilidade, sua forma reativa, sua forma ativa. Cada um oferece seu labor, sua cota e, ao mesmo tempo, recebe o labor e a cota do outro, parceiros nesta construção, todos responsáveis pelos caminhos, pelo destino desta sociedade.

Esta responsabilidade, pessoal e intransferível – e formadora da estrutura coletiva -, é nosso foco de interesse. “Cada vez que, num sistema, um estado surge como modificação de um estado prévio, temos um fenômeno histórico”, disseram Maturana e Varela. Qual nossa cota de responsabilidade na organização do caminho histórico da vida? Qual a qualidade de nossa contribuição pessoal? Qual a “parte que me cabe neste latifúndio”?

É preciso, primeiro, existir para, depois, reproduzir. Será que damos oportunidade a nossas crianças para que elas, primeiro, simplesmente existam ou será que nem percebemos sua existência e já a obrigamos a reproduzir atitudes e comportamentos organizados que, por sua vez, escondem nossa verdadeira e própria existência?

Certa vez uma pessoa disse que seu companheiro lhe fazia muito bem, mas, ao mesmo tempo, de algum modo a obrigava a olhar para a sua loucura – suas próprias palavras. Entre eles isto era percebido como o mais extraordinário acontecimento daquele encontro: por conta do misterioso e maravilhoso afeto que sentiam, um mostrava ao outro seus recantos mais esquecidos, mais sensíveis e que precisavam vir à tona. Mostravam, assim, a fonte de energia vital mais pura, mais primordial, mais legítima, a mais curativa fonte; porém, também a mais exigente, dolorosa e assustadora. Assustadora porque dela ninguém pode fugir sob pena de construir a negação de si mesmo, a ilusão, a desarmonia, a infelicidade. Uma bela possibilidade se apresentava para aquele casal, porém muito trabalhosa, difícil e exigente. Vale mesmo dizer que este casal não conseguiu avançar até onde, certamente, podiam.

Este é o trabalho do Projeto de Gente: ser um campo despreconceituado, sem falsos moralismos, livre o máximo possível para que todos possam se desenvolver de acordo com suas fontes originais. Contudo, vários aspectos conspiram contra e dificultam o trabalho. (1) Nós, adultos do Projeto, estamos livres? Resposta: claro que não! (2) O campo para onde nossos meninos e meninas retornam – casa, escola – tem quais tipos de qualidades? Em relação à primeira questão, além do “claro que não”, também podemos dizer que, pelo menos estamos tentando lidar com esta contradição, não negá-la. Quanto á segunda questão, as limitações são imensas. Quantas vezes, no dia a dia do trabalho, vimos um carinha saindo do Projeto com uma atitude, com um certo brilho e voltando no dia seguinte com esta luz apagada, já esquecida.

Dá para sentir o tamanhão do trabalho?

Até a próxima!

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