23 de setembro de 2010

Julho/2009

Diários de Cumuruxatiba

Julho de 2009



Julho traz a sensação de conclusão de um ciclo. O Projeto de Gente está há dias de completar seu 2º ano de existência em Cumuruxatiba. É difícil escapar do impulso de realizar uma retrospectiva, um inventário de perdas e ganhos.



Desde quando o Projeto de Gente tem vida e existência? Resposta: Desde quando alguém teve uma ideia inicial? Desde quando um grupo de pessoas se reuniu para pensar, sentir o Projeto? Desde quando alguém veio para Cumuruxatiba apresentar os conceitos do trabalho? Desde quando a 1ª criança entrou na casa do Morro do Cantagalo? Como se vê, nenhuma afirmação e assim vamos seguindo em frente.



Jung disse que o ser humano, quando se defronta com algo, usa seu aparato sensorial: vê, toca, cheira, sente o gosto, percebe que algo existe; depois, pensa, reflete sobre o que viu, tocou, cheirou e pergunta-se: “o que é este algo?”, “para que ele me serve?”; finalmente, tem um sentimento sobre este algo: “gosto disto?”, “não gosto?”; de posse destes elementos o ser humano age: acolhe, rejeita, ou realiza qualquer outro movimento. Jung também disse que a intuição também faz parte desta equação. Muitas vezes sem tocar, ver, ouvir, etc, misteriosamente, uma pessoa “sente”, intui sobre algo, reflete sobre ele, tem um sentimento e age.



Os trabalhadores do Projeto de Gente, no primeiro momento, não tinham nada para tocar, ver ou cheirar; tinham uma espécie de intuição, uma crença. Porém, acreditaram no que intuíram, creram, apesar de não terem uma casa nem uma metodologia experimentada. Não tinham, enfim, existência aparente. Entretanto, já viviam algo; viviam e buscaram – buscam – existir. De fato, exigem o direito de existir, exigem que sua legitimidade seja reconhecida. Como qualquer menino e menina, que agora dele participam, exige o direito de existir tal como é. Desejam viver sua existência em consonância com suas crenças, querem viver como acreditam, existir como acreditam, querem ser e existir sem esquizoidia.



Tentamos construir este lugar – o Projeto de Gente – em contato estreito (dentro mesmo, fazendo parte) com um outro lugar: uma estrutura social, também chamada de “realidade”. Esta estrutura, por sua vez, é constituída, majoritariamente, por pessoas que não existem como realmente (ironia!) desejam, não vivem como realmente desejam, não fazem em seu cotidiano o que realmente desejam, não são quem realmente são. Compõem, portanto, uma esquizoide e ilusória sociedade. Ilusória, porém legitimada, o que lhe dá contorno de realidade. Tão poderoso é este contorno, tão bem guardada é esta fronteira que qualquer um, esteja onde estiver, é observado de acordo com suas leis e por elas julgado e condenado.



Um exemplo do encontro – choque – entre duas estruturas como as que descrevemos pode ser visto no contato dos brancos europeus e os negros do sul da África. Os europeus, segundo diz Hannah Arendt, mais, muito mais, do que a cor da pele se sentiram chocados ao perceberem, com maior ou menor consciência, como aquele povo se comportava como se fizessem parte da natureza. Para eles, europeus, era realmente “como se”, isto é, uma ilusão. Pare eles, os verdadeiros seres humanos estavam acima, no comando, dominando a natureza. Não se deram conta, pois não poderiam, de que a verdadeira ilusão havia sido construída por eles, os civilizados brancos. Na verdade,é seguro que, em algum ponto – um oculto ponto – perceberam, tanto que, assustados com aquele comportamento, consideraram aqueles negros estranhos à espécie humana, julgaram-nos como subversivos e os condenaram a serem “coisas” que podiam ser usadas de acordo com o mesmo critério que os autorizava a usar a madeira de uma árvore como um mero recurso a ser explorado em prol dos seres, estes sim, superiores. “Superiores” porque separados da natureza, porque “Senhores” da natureza. Seres fragmentados que separaram-se exatamente para, pretensa e ilusoriamente, colocarem-se acima, pois sentiam-se ameaçados, assustados com o apelo da vida dentro de cada um. Separaram-se da Natureza e fragmentaram-se também a si mesmos, um por um, cada um, organizando-se, deste modo, desvinculados da existência plena. Forjaram-se seres sem autonomia, pois não eram mais quem de fato eram, não atendiam mais seu próprio “grito vocacional”, não atendiam mais à sua própria legalidade, criaram, então, padrões, a serem seguidos, padrões externos, visíveis, chamados materiais – parte da unidade vital, agora confundida com a totalidade. Reconhecendo apenas padrões, separam-se: um povo do outro, uma crença da outra, cada um de cada um. Separam-se e constroem altos muros, vigiam brutalmente suas fronteiras.



Tudo que, no parágrafo acima, foi escrito no passado deve ser lido também no presente



Mas, vamos voltar ao inventário: dois anos depois de chegar a Cumuruxatiba o Projeto de Gente é visível, tem existência, pessoas veem sua sede, conhecem as crianças que o frequentam, têm ideias a respeito, têm sentimentos sobre seus conceitos – muitas vezes mesmo sem entendê-los muito bem. Com maior ou menor consciência se perguntam sobre o que o Projeto de Gente traz para seus filhos e filhas. Perguntam-se: por causa do Projeto eles vão ter menos dificuldade na escola?, vão passar de ano mais facilmente?, vão aprender uma nova língua?, vão ter sua entrada no mercado de trabalho facilidada?, vão ter mais disciplina para cumprir suas obrigações?, vão ter ajuda para fazer seus “para casa”?, não vão precisar mais de “banca” (aulas particulares)? Perguntam o que a tal realidade lhes impõe.



Mas, o que o Projeto de Gente pretende? Ser aceito pelos resultados que o paradigma dominante afirma? Ser reconhecido como um lugar onde os meninos e meninas vão e se tornam os melhores alunos em suas escolas? Os mais comportados? Os que obtêm melhores performances nos vestibulares? Certamente que sim, este é um propósito do Projeto de Gente, porém, se - e só se - estes forem os caminhos que realmente alguns meninos e meninas desejam seguir.



O Projeto de Gente existe e trabalha para que os meninos e meninas percebam que podem, mais que podem, têm o direito de seguir um caminho que junte o ser e o existir de cada um deles; que cada um pode, mais que pode, tem o direito de manifestar-se de acordo com o misterioso ser que vibra – e emana estas vibrações – em sua intimidade; que podem, têm o direito de se ver como parte do mundo natural; que podem, assim, recuperar sua autonomia. Para isto é preciso que não precisem seguir tantos “tenho que...”, “tenho que, senão...”.



Há poucos dias, um educador do Projeto, conversando com algumas crianças concluiu, junto com elas, que estavam agindo, em uma certa situação, exatamente como não desejavam. “A gente quer mesmo que as coisas sejam assim?... Não, claro que não!... E assim?... Claro que não!... Então, porque será que a gente acaba fazendo como não deseja?...” Vários lembraram que todo mundo sabe que fumar faz mal à saúde, que não se deve poluir a água porque ela vai acabar mesmo, que não se deve desmatar ou fazer queimadas de qualquer jeito. Ficaram ali, meio em silêncio, sem ter uma resposta clara sobre o porque agimos tantas vezes como não desejamos.



Uma parte da resposta talvez seja: agimos assim porque não queremos arriscar nossa pretensa superioridade, nossa pretensa segurança. Abrimos mão de nossa autonomia porque ela nos coloca em diálogo íntimo, profundamente íntimo, com a Natureza. E, neste diálogo, descobrimos que não somos superiores, descobrimos que seguimos leis que desconhecemos. Descobrimos que nossa autonomia, isto é, nossa “capacidade de especificar e manifestar nossa própria legalidade, aquilo que nos é próprio” deve, necessariamente, incluir a plena interdependência entre todos os seres que, juntos e igualmente importantes, compõem a natureza. Então, apavorados, não queremos ser íntimos da Natureza, queremos ditar as leis. Assim, só nos resta um caminho: ser sempre e cada vez mais, compulsivamente, superiores, acima, no topo do que não tem topo.



Aí esta, portanto, a crença que os trabalhadores do Projeto de Gente não podem perder de vista: oferecer campo, livre, no qual os meninos e meninas possam observar a si e ao mundo – o que criam e o que está à sua volta –, onde possam perceber sua legalidade, e a forma mais harmônica de vincularem-se, autônomos, ao mundo. No Projeto de Gente eles podem olhar para si mesmos e mostrar o que veem sem receio de não serem aceitos. Para isto usamos o jogo de queimada, o dos 5 cortes, a oficina de argila, de artes e a de informática, também durante a conversa enquanto se joga gamão ou xadrez, na hora do lanche ou num papo debaixo da árvore.



A maioria dos projetos relacionados à criança e ao adolescente têm objetivos visíveis e facilmente apreendidos. Ótimo, embora possamos fazer alguns comentários sobre como, muitas vezes, uma ilusão está sendo criada ao se esperar que dali saia um futuro campeão com sucesso, fama e dinheiro garantidos – embora, nem sempre felizes. O Projeto de Gente, por sua vez, tem também um objetivo – principal e central – que não apenas é invisível, é também, muitas vezes, indesejável por um grande número de pessoas: ser uma usina de autonomia, de liberdade. Liberdade que não implica em fazer simplesmente o que se quer, mas sim fazer o que se quer junto, ao outro, com o outro, às claras. As ferramentas que usamos – oficinas, projetos de saber variados – são importantes por si mesmas, porém são ferramentas cuja função primordial é, como já dito e redito, propiciar contato da criança consigo mesmo e com o mundo que ela ajuda a construir; ferramentas que geram senso crítico e harmonia; percepção de alternativas mais próximas de sua própria legalidade, de seu direito de ser e existir na rede da vida.



O Projeto de Gente precisa de mais gente, de mais paciência, de mais força e mais coragem para não se exigir estar no lugar do qual ainda está longe. Encontrar força para mostrar – muito também para os adultos que dele participam – que um velho vício, tão velho que nem é mais percebido como vício e sim como uma atitude normal (o normal confundido com o mais comum, a ilusão com fôro de verdade porque tantas vezes repetida), que este vício, repetimos, pode ser desconstruído, lentamente desconstruído, que o que o motivou pode ser percebido de outra maneira e que, então, uma outra estrutura pode ser erguida. Não mais uma estrutura destoante e distante do núcleo, da fonte de cada um que a constitui, de cada pessoa tão única, tão semelhante a todos os outros; e sim, uma estrutura que não esconde a sensibilidade, o medo de cada um é (medo que, escondido, apenas aumente e exige mais e mais defesas).



A cada dia nós, trabalhadores do Projeto, somos confrontados com nossos próprios fantasmas, nossos medos, incluindo o de não sermos aceitos pelo que é considerado real e legítimo.



Até o mês que vem!

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