23 de setembro de 2010

Agosto de 2009

Diários de Cumuruxatiba
Agosto de 2009

Resolvemos comemorar o 2º ano de trabalho com a realização dos II Jogos do Projeto De Gente. Como ainda acontece, quando se pergunta quem quer participar da organização, todos querem; porém, na hora dos encontros tem sempre uma outra atividade atraente acontecendo – um jogo, uma conversa. Os encontros, portanto, acabam acontecendo com um número menor de pessoas, o que gera questões lá na frente: “Eu não sabia que ia ser assim!”... “É, mas isto aí foi decidido pelo grupo que estava na reunião e todo mundo já tinha concordado que quem estivesse decidia!”... “Ah! Mas eu não 'tava!”... “Och! Cê não entendeu nada então, num devia estar prestando atenção na hora que decidimos assim!”...

E assim, reveladas suas fragilidades, se constrói a democracia! Uma coisa fica clara: mais que o momento do voto, o que deve realmente configurar o espaço democrático é o momento da troca de ideias, o momento do debate, da conversa. Aí sim, garantida a livre manifestação e a escuta atenta, é que se constrói uma sociedade solidária, respeitosa e democrática.

Quanto tempo para que a moçada perceba que suas vozes serão escutadas aqui neste lugar? Que serão ouvidos e levados em conta, cada um, seja grande ou pequeno? Que a gente grande perceba que não tem poderes absolutos, e sim responsabilidades próprias de sua posição? Que, na maioria das vezes, não sabemos o que é melhor para o pequeno, a não ser que ele tenha a chance de manifestar o que lhe é melhor? Que o adulto tem voz e voto equivalentes a cada menina e menino? Equivalente, dissemos, não igual: a criança não é tratada como um adultinho, mas é uma pessoa com sua própria e legítima compreensão do que acontece à sua volta. Uma compreensão que vai se juntar à dos outros para compor o mosaico vital daquele grupo, daquele corpo social e que, por isto, merece toda atenção.

Este mês percebemos um menor fluxo de crianças. É como se houvesse passado a novidade, aquele lugar que tem tintas, lápis de cor, argila e de onde podemos sair e chegar à hora que quiser, já é conhecido. O apelo do mundo, dos modismos, das atitudes que “garantem” o lugar num grupo faz seu trabalho também. Principalmente os meninos sentem este apelo; é como se o Projeto fosse identificado como coisa de criança, um lugar para se brincar.

Naturalmente existem aqueles que vão compreendendo que existe alguma coisa diferente ali. Existem até mesmo os que se afastaram, mas retornaram sem se dar conta, de modo claro, de suas motivações. Ainda outro dia um educador, conversando com um menino (14 anos), percebeu que um certo acontecimento de meses atrás influenciou em sua decisão de frequentar novamente o Projeto de Gente. Há meses este rapaz estava lendo um livro da pequena biblioteca. Num certo capítulo ele encontrou uma situação que o emocionou muito. Esta situação pode ser, embora não integralmente, conversada com o educador. Porém, como frequentemente acontece com quem se depara com temas sutis e sensíveis – frequentemente assustadores –, ele se afastou (a famosa resistência nos movimentos terapêuticos). Alguns meses se passaram e ele, aos poucos, foi retomando contato com o Projeto: avisava que vinha, não vinha... Avisava que vinha, não vinha... Avisava... Uma brincadeira começou a acontecer entre o educador e o menino. “Eu vou lá amanhã!”... “Eu sei que você vai. Só não sei se é amanhã!” Um dia, veio e está vindo, ainda um tanto irregularmente, mas vindo

A equipe de trabalho é pequena. Apenas a oficina de informática – da Cristina – e a de arte – da Eliana – estão efetivamente organizadas. A Ângela também vem uma vez na semana para dar um apoio. O Shal conseguiu um trabalho na escola e o tempo ficou curto para ele em relação ao Projeto. Nos defrontamos com a velha e conhecidíssima questão sobre voluntariado: apenas a vontade e o entusiasmo não sustentam um colaborador no trabalho. Ele precisa “ganhar” a vida e então o emprego se impõe.

No momento em que estamos, do tamanho que somos, na casa em que estamos alojados, seria ótimo se o Projeto de Gente tivesse mais um funcionário em tempo integral. Duas pessoas poderiam criar uma rede de atenção e cuidado cotidiano. Um exemplo disto: em um dia – 3ª feira - da oficina de arte oferecida pela Eliana, a Jaqueline – uma amiga do Projeto – trouxe 4 crianças para passar o dia com a gente. Pois bem, ela ficou durante a tarde e se envolveu nas atividades com outras crianças que não estavam na oficina. Bastou este movimento da Jaqueline para que o outro educador tivesse uma disponibilidade visivelmente maior para cuidar de situações que surgiram. Em um dia comum ele certamente, não teria este tempo e possibilidade.

Além disto, dois trabalhadores poderiam manter mais vivos e ativos os conceitos do trabalho que carecem de atenção a pequenos detalhes que os meninos e meninas revelam, por exemplo, em um jogo de bola ou gamão. Trocas também mais efetivas poderiam ser realizadas entre estes dois observadores do cotidiano. Embora as oficina de arte e informática sejam frequentadas por um bom número de pessoas, existem as que não se interessam por estes temas ou tenham presença ocasional. Nestes casos a atenção possível da Cristina e da Eliana ficam, naturalmente, limitadas.

Outra situação que deixou estas questões bem à vista: o único educador em tempo integral precisou viajar – ou melhor, desejou e seu desejo foi acolhido por todos: gente grande e pequena. Porém, durante a semana desta viagem foi deliberado que seria melhor não abrir as portas do Projeto. Ora, este trabalho não pode depender, nem um dia sequer, de uma única pessoa. Entretanto, também ficou claro que, neste momento, não temos uma equipe em número (não em qualidade) suficiente para cuidar das crianças numa circunstância como esta.

Aí está um de nossos propósitos mais urgentes: ampliar a equipe. Como sempre dizemos, primeiro precisamos de gente; depois, de gente; aí então, mais gente; e, só depois,... gente...

Um grande abraço, gente!

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