23 de setembro de 2010

abril/maio de 2010

Diários de Cumuruxatiba
abril/maio 2010

Como abril foi um mês de muito trabalho, não conseguimos escrever o diário. Melhor assim, pois, abril e maio revelaram-se meses bastante parecidos em sua dinâmica.

Vamos propor uma metáfora que, talvez, facilite a compreensão deste movimento: um dia, conhecemos um menino que veio ver como era o Projeto de Gente. Menino de 12 anos, pele negra, olhos de jabuticaba – lugar comum mas real –, gentil. Como tínhamos poucas crianças naquela segunda-feira, nós o convidamos para participar. O menino mostrou-se, de fato, gentil, colaborativo, solidário. Morava na Areia Preta – um bairro mais distante do Centro de Cumuruxatiba –, o que nos deixou contentes, pois, pela distância, é difícil alcançar os meninos e meninas deste bairro.

Durante a semana ele veio, sempre sabendo que sua permanência dependeria do número de participantes – um limite espacial. O grupo de inscritos do Projeto está, neste momento, completo (42 pessoas).

Mais ou menos a partir da 3ª semana seu comportamento, gentil e participativo, foi, a pouco e pouco, modificando-se. 4ª semana: definitivamente à vontade, o menino mostrava outras facetas – provocador, “zoador”, desrespeitando as combinações (todas feitas em rodas de conversações).

Dissemos “à vontade”, é verdade, porém, talvez seja melhor não dizer “à vontade”, pois este menino não está exercendo sua vontade original. Está, de fato, apenas repetindo uma atitude organizada ao longo de anos e anos de massacre à sua verdadeira vontade. Sua vontade original, sua fonte vital original está escondida, esquecida. Ele não é mais consciente protagonista na construção de sua história, pois não é mais ativo, é reativo. Como disse Rousseau: “O homem nasce livre e por todo lado está acorrentado”. E, concordando com este pensador, acrescentou Wilhelm Reich: “... o homem nasce livre, mas é como escravo que ele passa a vida”, um escravo esquecido de sua liberdade, tão bem escravizado que não sabe mais como é ser livre. Tão bem escravizados que aceitamos como regras de liberdade (e felicidade) as correntes que nos prendem a uma mesma e repetitiva maneira de (re)agir.

Ao longo da vida, de fato bem no seu início (ainda intra-útero, apontam muitas observações), já aprendemos a nos contrair, amolecer, enrijecer, e a manter estas atitudes até perder a forma original, até esquecê-la. Nos contraímos, amolecemos, enrijecemos pois nos vemos frente a diversas circunstâncias ameaçadoras. Depois, assustados, confusos, mantemos estas estruturas emocionais mesmo quando não mais ameaçados. Cuidadosamente camuflamos (disse Reich) o ponto onde a atenção deveria se focalizar, desviamos esta atenção, perdemos contato com nossa sensibilidade mais profunda, pois lá está o medo que um dia foi tocado, a sensível ferida que também nos identifica como aquela pessoa.
Assim somos a maioria. Talvez seja correto dizer, todos; todos em todo o mundo.

Por isto, por ser constituído por pessoas comuns, a comunidade do Projeto de Gente é também presa destas tão humanas armadilhas. Já fomos mais gentis, generosos, participativos, criativos. Um grupo de meninos e meninas seguiu o exemplo do menino de pele negra e olhos de jabuticaba. Não seguiu este menino que, embora exista, aqui foi ilustrativo.

Mas, o que aconteceu? Perdemos o controle da situação, como sugeriu uma pessoa adulta que participava do trabalho? Participava, pois, em um dia particularmente difícil, trabalhoso, ela alcançou seu limite e desligou-se do Projeto.

Enfim, nós perdemos o controle ou nunca o quisemos? Se, por outro lado, o “controle” foi tomado por uma maioria, então, democraticamente, apenas cabe aceitar. Democraticamente a maioria tem o direito de organizar a comunidade. A democracia, muitas vezes, revela-se um lugar de maioria feliz e minoria infeliz.

O Projeto de Gente tem outra – e sutil – proposta: democracia sem vencedores nem vencidos; democracia onde prevalecem as combinações e não a simples escolha de uma opção; democracia onde, mais do que no voto, as decisões são debatidas e deliberada uma combinação. Combinação, como o nome diz, pode ser o resultado da junção entre várias possibilidades. Claro que o voto, em algumas circunstâncias, é a saída mais limpa; entretanto, neste momento, todos estão acordados sobre a necessidade desta ferramenta. O voto não é a democracia, é uma ferramenta; democracia é o debate aberto, franco e, principalmente, solidário. Infelizmente, no tal “mundo real”, aparentemente, o jogo democrático tornou-se um confronto entre inimigos; e frequentemente jogo sujo, desleal, corrupto. Assim, franqueza e solidariedade, no jogo político, são qualidades quase incompatíveis.

Entretanto, na situação que estávamos vivendo, não havia uma conquista democrática de um grupo convencendo aos outros sobre a beleza e justeza de sua proposta. Havia um grupo, minoritário, forçando uma situação.

E o Projeto tem o direito de impor sua proposta? Certamente não de impor, mas pode apresentá-la claramente como uma opção. Discuti-la, debatê-la. Além disto, os que ouvem têm a chance de melhorar esta proposta com sua sugestões. Assim, uma vez ouvida, debatida, compreendida, uma pessoa pode perceber se deseja ou não participar do movimento.

Nestes dois últimos meses, foi, sistematicamente, dito a este grupo de meninos e meninas que eles não estavam deixando o Projeto de Gente ser o Projeto de Gente. Ora, podem dizer, mas isto é muito poder para um grupo de meninos e meninas. E é mesmo! E é para ser mesmo! A auto-regulação apenas acontece com as pessoas percebendo seu real poder. O projeto mantem-se fiel ao fato de que as crianças vão se conhecer à medida que observam o mundo que criam junto ao outro.

Porém, um quase paradoxo se formou: o Projeto de Gente é um lugar onde as pessoas podem ser quem são; mas, como um lugar que pretende apoiar as pessoas a serem quem são não pode ser, ele mesmo, o que é?

Não foi surpresa quando, defrontados, com as consequências de seus atos, os tais meninos e meninas concordaram que, de fato, o Projeto não estava sendo o Projeto. Concordaram por um simples motivo, inquestionável: eles sabiam que estavam desrespeitando os combinados; sabiam que, se não concordavam com algum, também não estavam fazendo questão de comparecerem às rodas de debates sobre os rumos do trabalho. Deste modo, os outros não sabiam porque aqueles estavam desrespeitando as combinações nem se teriam outras a sugerir.

Dois grupos se estabeleceram: (1) um exigindo que o Projeto fosse o Projeto – um lugar onde as combinações são debatidas, deliberadas e respeitadas; onde uma combinação pode ser alterada – na roda – assim que se percebe que uma outra é melhor. (2) Outro, comparecendo ao Projeto, porém desrespeitando as combinações.

Como não há a ferramenta da exclusão – a velha e ruim expulsão –, para alguns, um impasse se formou. “Vamos deixar os caras colocarem fogo no Projeto?”, perguntavam uns. “Por que não expulsamos quem descumpre certas combinações?”, diziam outros. “Mas, será que expulsar resolve?”, “Será que estes caras que estão botando fogo não estão precisando de uma ajuda, será que estão fazendo isto só para chamar atenção?”, outros elaboravam.

Algumas circunstâncias ficavam claras: a flutuação em relação ao comparecimento na roda dificultava a legitimação das decisões. Em uma certa roda, 10 crianças decidiam algo e deixavam outro algo semi debatido. Na roda seguinte novamente 10 crianças estavam presentes, porém, da 10 do outro dia apenas duas eram as mesmas. O semi debate não havia valido muito. Seria necessário tornar a roda obrigatória? Mas, uma democracia que começa com compulsoriedade parece estranha.

Na verdade, o que fica, mais que tudo, claro é que as meninas e meninos não estão nem um pouco acostumados a participar das decisões nos ambientes em que eles são maioria e – deveriam ser – principais protagonistas; vale dizer, não são protagonistas em seus próprios palcos.

Com todos estes acontecimentos e conclusões, decidiu-se que: (1) os meninos e meninas comprometem-se a comparecer, pelo menos, dois dias – dos quatro de trabalho – ao Projeto. O que se fará com quem não cumprir este combinado, ainda não se sabe. (2) Os combinados precisam ficar mais claros para todos, isto é, precisam ser melhor divulgados. Além disto, as rodas precisam ser mais estimuladas e estimulantes.

Nos últimos dias uma ideia, já mencionada, voltou a ganhar força. O Projeto seria como um país onde existem moradores (pessoas que frequentam com assiduidade), moradores que viajam muito (naturalmente os que não são tão assíduos) e visitantes – aqueles que não estão inscritos (por limite de vagas) no Projeto mas, quando possível, passam o dia conosco. Os moradores fixos seriam os principais responsáveis pelos caminhos do país, pois, por viverem nele, melhor sabem de seus problemas e possíveis soluções. Naturalmente que estas soluções não seriam simplesmente impostas aos outros moradores, mas aqueles se responsabilizariam em levar para estes tanto os problemas quanto as sugestões de soluções.

Esta proposta pareceu bem interessante do ponto de vista organizacional. Porém, a maioria dos meninos que “botam fogo” são, justamente, os mais assíduos. (Interessante isto, não?) Os que descumprem as combinações seriam, portanto, os responsáveis principais por elas. A raposa tomando conta do galinheiro? Nada disto! A crença na sensibilidade e na inclusão dos caras!

Isto ainda não está decidido, mas... vamos a ver!

Em final de maio começamos uma Oficina de flauta com o Mestre Dema. Contudo, uma sequência impressionante de dias de chuvas muito intensas que impediram o trânsito pela estrada de acesso a Cumuruxatiba, dificultaram este início de trabalho.

A vinda de Dema deve-se aos recursos obtidos por um grande amigo do Projeto de Gente, o Herbert Moosmann. Ele, austro-cumuruxatibense, tem um grupo de amigos há muitos anos trabalhando com eventos culturais e decidiram apoiar o nosso trabalho. Muito obrigado, Herbert e amigos!

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