26 de dezembro de 2008

OUTUBRO DE 2008

Outubro chegou trazendo o aroma dos cajus que, por tradição, as crianças comem ainda verdes... e com sal. Do mesmo modo comem as mangas. É difícil acreditar que vão sobrar frutas para amadurecer nas árvores.

Aliás, os cajueiros e mangueiras foram palco de uma polêmica – que, de fato, acontece desde o ano passado. A maioria das crianças de Cumuruxatiba têm uma imensa habilidade para subir nas árvores, “está no sangue”, é cultural, podemos dizer.

Entretanto, podem cair – “acidentes acontecem” – e alguém levantou o perigo disto acontecer no Projeto de Gente; que, neste caso, pode ser responsabilizado. Naturalmente que já há algum tempo discutimos a questão.

E agora? Duas verdades: as crianças sobem nas árvores muito bem, gostam, sabem o que fazem, e é muito bonito vê-las usando suas habilidades. Seria, até mesmo, uma violência obrigá-las a não se empoleirarem nas árvores. Porém, por outro lado, podem cair e o Projeto é mesmo responsável por elas.

Dias e dias de conversa para que todos compreendam que precisávamos proteger as crianças e o próprio trabalho; que é legítimo o desejo de subir nas árvores; que têm a habilidade necessária para isso; e que algum adulto – fora do Projeto -, esquecido que um dia foi criança, pode não aceitar que este tipo de acidente acontecesse exatamente ali – embora eventualmente pudesse aceitar (mesmo brigando com a criança) se acontecesse na sua própria casa, no terreno baldio ou no quintal, invadido, do vizinho.

Assim, algumas regras foram combinadas e providências tomadas: foi estabelecido que nos galhos mais baixos seria possível subir, nos galhos secos e finos não pode; varas para colher as frutas sem necessidade de subir na árvore foram arranjadas.

Ao lado deste movimento tão natural – o subir nas árvores – outro foi sugerido por algumas meninas. Elas propuseram, em Roda, a realização de um desfile: o concurso Miss Projeto de Gente. A proposta foi imediatamente aceita com entusiasmo e, inclusive, a adesão de alguns meninos – para surpresa das meninas. Foi criado um grupo organizador que estabeleceu que: além da Miss e, agora, do Mr. Projeto de Gente, haveria a Miss e Mr. Simpatia; não haveria desfile de biquíni ou sunga para não haver injustiça ou vantagens já que alguns são tímidos o suficiente para não desfilar se fosse necessário usar estes trajes; foi escolhido um Mestre de Cerimônia; dois juízes – adultos -; uma corda demarcaria a passarela; e familiares seriam convidados.

Foi assim que, numa bela tarde ensolarada, á sombra da grande mangueira, realizou-se o evento. Notem que toda a organização foi coordenada pelos meninos e meninas, os adultos participaram mais efetivamente apenas da construção da passarela e, convidados, do corpo de jurados.

Sucesso, inclusive com a tradicional presença da mãe da Miss Projeto de Gente: a Neuziane; a Miss Simpatia foi a Juliene; o Mr. Projeto de Gente escolhido foi o Ioane e o Mr. Simpatia, o Douglas Costa. Tudo foi vivido com muita alegria, graça, liberdade e seriedade – uma menina chamou um educador nos bastidores para mostrar as mãos tremendo e úmidas. Também foi um bom momento para conversar sobre temas relacionados ao corpo, à sexualidade, à banalização do uso tanto de um quanto de outro; timidez; beleza padronizada e escravocrata; etc. e etc.
Outro grupo também organizou, produziu e apresentou uma “Puxada de Rede”. A Puxada é uma, já tradicional, performance cultural em Cumuruxatiba. Trata-se da adaptação de um trecho do “Mar Morto”, de Jorge Amado: um grupo de pescadores e suas companheiras apresentam cenas da realidade de suas vidas – a pesca, os conflitos conjugais, a bebida, o cotidiano das mulheres esperando seus maridos, a morte no mar.

Foi interessante acompanhar o trabalho dos que tomaram a frente dos ensaios, suas alegrias e reclamações; como lidaram com o descompromisso de um ou outro, o trabalho para arrumar roupas e instrumentos: rede, arpões, machado, os atabaques e berimbaus que pontuam os cantos do candomblé presentes em toda a encenação – aliás, a voz do cantor soou cheia de lamento e vigor nos momentos de maior dor ou alegria.

No dia da apresentação um dos componentes não pode participar e foi muito bonito perceber a solidariedade de todos com a menina que se dispôs a fazer uma substituição. Do mesmo modo houve uma linda colaboração com os atores que, nervosos, esqueciam, aqui e ali, suas falas: vozinhas eram ouvidas sussurrando a voz esquecida.

O palco foi sobre a terra do quintal, o mar levantava poeira e o céu era a copa das mangueiras, mas aqueles meninos e meninas nos levaram para a beira-mar, para dentro das biroscas, para o interior das canoas, para dentro da dor da saudade, para debaixo do céu azul e da luz dourada do sol.

Conforme comentamos no “Diário de setembro”, demos andamento à idéia da Milena e do Luiz da Pousada Rio do Peixe: preparamos cerca de 170 cartões feitos de papel reciclado e desenhados pelas crianças. Durante as conversas surgiu também a possibilidade de realizarmos um bingo em novembro com recursos revertidos para o Projeto. Estamos combinando como será.

Neste outubro aprofundamos a questão da relação entre o número de crianças e o de adultos. Muitas crianças e poucos adultos. Em praticamente todas as rodas era comentado que alguma coisa não estava bem, que havia certo descuido, que os adultos estavam mais exercendo um papel de “policiamento” do que atuando nas oficinas ou estando em contato mais contínuo com as crianças individualmente. Isto é, muitas crianças, muito movimento, muito encontro de energias, muita necessidade de estar atento aos inevitáveis conflitos,... mas poucos educadores para cumprir esta função e as demais que marcam a essência do Projeto.

Questão delicada, pois a melhor solução é, justo, a mais difícil: conseguir mais educadores para adequar a tal relação criança/adulto, profissionalizar o trabalho. Claro que é a solução também ansiada e procurada. A alternativa , compulsória, indesejada, é diminuir o grupo de crianças.

Assim fechamos outubro: refletindo sobre este problema e aproveitando os biscoitos que a Ângela doou.

Um comentário:

Marcelo Moraes disse...

Pessoal,
Nos últimos tempos tenho lembrado do projeto, e hoje tive vontade de entrar em contato com os seus diários.
Não estou conseguindo deixar de comentar que achei “engraçado” como vcs. resolveram a questão de preservar o projeto na responsabilidade de possíveis quedas de criança das arvores. É porque as regras estabelecidas: As varas e os galhos que podem ou não ser trepados, eu daqui acho que vcs. sacaram isso, olhando como as próprias crianças já colhiam as frutas.
Abs, MM