26 de setembro de 2008

AGOSTO 2008

28 de maio de 2007, chegada à Cumuruxatiba; 28 de agosto de 2007, 1º dia de atividade do Projeto de Gente. Durante estes três meses o Projeto foi apresentado a dezenas de pessoas na vila; apresentado e acolhido por gente da terra, pescadores, professores e professoras, diretores e diretoras das escolas, comerciantes, pais e mães de crianças.

No 1º dia tínhamos 29 crianças inscritas. Hoje, setembro de 2008, são mais de 50. Um crescimento de, pelo menos, 42% no nº de crianças participando das atividades do Projeto de Gente. Sem dúvida, um bom índice.

Mas, o que ele significa? Que as crianças gostam do ambiente do Projeto? Muito provavelmente, pois se não seríamos abandonados. Crianças não fazem o que não desejam, a não ser que sejam obrigadas por algum motivo. E, muitas vezes, são obrigadas a fazer o que não desejam em horas que não desejam; obrigadas, principalmente, pelo poder que os adultos constroem; poder que poderia ser vivido como autoridade – não abusiva, não ameaçadora, não chantagista – que cria uma rede de proteção capaz de fazer com que os pequenos se sintam seguros para reconhecer e desenvolver suas próprias e pessoais autoridades.

E porque os adultos não vivem simplesmente esta autoridade? Porque a transformam em autoritarismo e poder? Muito provavelmente porque, desde muito pequenos, desde simples projetos de gente, percebem que o exercício da autoridade - da mais profunda autoridade, aquela que nos impele, pura e simplesmente, a ser quem cada um é -, uma autoridade a qual poderíamos chamar de interna, não assegura o respeito à existência.

A autoridade interna, por si, não garante mesmo o respeito do outro; principalmente quando somos muito, muito pequenos e as possibilidades dos maiores se nos afiguram como verdadeiros super poderes, quando, de fato, são apenas possibilidades adultas. Entretanto, tais possibilidades, muitas vezes, são usadas como instrumentos de opressão que é, então, confundido, como sendo poder real e infalível (confundido – e confundindo -, diga-se, tanto pelo pequeno quanto pelo maior). Apenas em uma comunidade onde a manifestação da autoridade pessoal seja percebida e reconhecida, desde sempre e naturalmente, como um direito ordinário e legítimo, esse respeito será alcançado e trará a sensação de existência assegurada e viável.

No Projeto de Gente as crianças não são obrigadas a fazer o que não desejam na hora que não desejam; elas se comprometem a fazer o que desejam na hora que combinam ser a boa hora. Daí se estabelece a obrigação, o compromisso. Sua autoridade interna tem voz, tem voto, tem autoridade externa, manifesta.

Um dos pilares do Projeto é, justamente, este exercício de liberdade e o comprometimento com as combinações e regras estabelecidas em comum acordo, democraticamente.

Entretanto, muitas vezes, as regras são descumpridas, as combinações são esquecidas e uma velha ordem, onde um implica com outro, uma turma “vaia” aquele que teve uma atitude diferente, outro mostra poder geralmente sobre um menor ou mais fraco ou mais tímido, onde o mais tímido ou mais fraco ou menor usa esta circunstância para conseguir a simpatia de um forte ou de um adulto que pune o “poderoso”, a velha ordem, dizíamos, “naturalmente” predomina.

A sociedade está arcaicamente organizada deste modo e esta parece ser a “correta” organização, aquela que devemos aceitar como a realidade na qual vivemos e vamos seguir vivendo: o mundo da competitividade, do 1º lugar, do vestibular, do mais forte, do “é preciso, afinal, ter um lugar na turma”, do opressor e do oprimido. Neste mundo pouca dúvida resta sobre onde é melhor se colocar, nele estamos viciados. Fazemos o que, no fundo, não concordamos por conta de uma atitude reativa, defensiva, assustada com a possibilidade de não ter sua existência viabilizada.

Daí o freqüente questionamento: “Muito bem! Concordo com a maior parte do que você está dizendo; mas, como é que vai ser quando o menino ou a menina tiverem que se confrontar com o mundo real? Como é que ele vai se sentir na fila do emprego, na luta dentro do mercado de trabalho?”

Bom, a resposta pode ser: “Este menino ou menina pode escolher não lutar dentro do mercado, não entrar na fila deste emprego, pode não se confrontar com o mundo, ele ou ela podem criar um novo mundo, sem luta, sem fila de emprego, podem criar seu trabalho. Uma ordem na qual cada um irá, justo, encontrar seu lugar e se aliar com os outros formando a imensa rede vital onde cabemos todos nós, cada um manifestando sua autoridade interna.”

Mas, como medir o desenvolvimento deste processo no Projeto de Gente? Talvez lembrando o momento em que um garoto machucou uma menina e correu para fora das dependências do Projeto; foi perseguido por 3 outros meninos que o alcançaram; o agressor, crente que ia apanhar dos 3, pediu que não o batessem; os 3 disseram: “não viemos aqui para bater em você, viemos para conversar por que você fez aquilo; sentaram na beira da calçada, conversaram e, no dia seguinte, o menino pediu desculpas à menina. Ou, uma outra situação, em que o “juiz” de um jogo vibrou ao saber que os dois times haviam resolvido disputar novamente o jogo onde ele errara – e apenas percebeu isto mais tarde - numa decisão que deu a vitória para um dos times. Lembrar da decisão dos times e da alegria do “juiz” – juiz está entre aspas porque ele, de fato, era um observador do jogo; os juízes (sem aspas) eram os próprios jogadores; esta foi uma combinação realizada antes dos jogos e valendo para todas as partidas daquelas competições. Vale lembrar também a roda que se fez (fora do Projeto) em torno de um garoto que estava roubando pequenos objetos e pequenas quantias de dinheiro dos seus amigos; roda que teve a finalidade, não de excluir o menino, mas sim de conversar com ele sobre o porque ele estava agindo assim. Também lembrar o rapaz, machista e machão “por natureza”, que chorou ao falar, numa conversa com um dos educadores do Projeto, sobre uma situação vivida com sua namorada. Lembrar também da menina que exigiu que, em sua casa, se discutisse porque apenas a mãe e as meninas lavavam os pratos, talheres e panelas depois das refeições; discussão feita; votação feita; hoje todos lavam os pratos. Outra: perceber este e aquela se dando conta de que, ali, eles têm direito a voz e voto, a construir o espaço, que sua opinião pode imperar – sem opressão - sobre a de qualquer um, incluindo a posição dos adultos.

Quantas situações serão necessárias, em certo período de tempo, para medir o desenvolvimento deste processo numa pessoa de 7, 8, 9,10 ou 14 anos com 7,8, 9, 10 ou 14 anos de árduo, diário, treinamento no sentido de dever obediência a regras que ele não criou, de “ter que” cumprir performances para não “perder” o ano, de criar estruturas de sobrevivência junto a um pai cujo filho, ao lhe ser perguntado se apanhava respondeu com “naturalidade”: “Lógico!”
Quantos recuos após avanços serão considerados toleráveis na nossa caminhada? Recuos, diga-se de passagem, de crianças, mas também dos adultos tampouco acostumados a não exercer o tal do poder que lhes oferece a tal da – falsa – sensação de proteção e de possibilidade de sobrevivência neste mundo – triste mundo onde se busca sobrevida e não vida.

Em um ano de trabalho – cerca de nove meses de atividade – temos a certeza de que mais situações como as descritas precisam ser vividas, e que os recuos ainda foram insuficientes para configurar impossibilidade.

Constatamos que precisamos de mais gente, de mais adultos, seguros na crença dos conceitos do Projeto de Gente, trabalhando neste sentido; trabalhando e recebendo a remuneração que lhes permitam estar completamente envolvidos pelo trabalho. Constatamos que precisamos fortalecer a roda de combinações; que é necessário que as crianças flutuem menos no comparecimento à roda, de modo a torná-la sempre mais e mais legítima e, com suas decisões, mais e mais presente e ativa. Para isto precisamos também trabalhar na própria flutuação da presença das crianças no Projeto. Uma flutuação que acontece por inúmeros motivos. O maior deles tem a ver com o fato de muitas crianças precisarem fazer dever de casa ou ir à banca – que é como se chama a aula de reforço; outro, talvez tão importante quanto o primeiro, está ligado ao trabalho que muitos precisam fazer depois da escola: vender o peixe que o pai pescou, cuidar dos irmãos menores, etc. Também freqüentemente as crianças são castigadas por algo que fizeram e a punição é não ir ao projeto de Gente – um triste índice de aceitação do nosso trabalho. Este é também um indicador de um campo de trabalho a ser ainda mais desenvolvido pelo Projeto: o contato com as famílias das crianças. Um contato que pode fazer diminuir tais punições, aumentar a participação efetiva das famílias e também elevar o grau de confiança dos pais e mães no sentido de permitir a presença menos flutuante das suas crianças – as mães, principalmente, manifestam a preocupação de que a ida diária de seus filhos ao Projeto prejudique o rendimento escolar (sempre respondemos que as crianças podem contar com os educadores do Projeto para ajudá-los nos deveres e estudos).

Assim, completamos um ano de atividade carregados de metas a serem conquistadas... e alguns gols marcados (talvez até mesmo, sem falsa modéstia, um ou dois gols de placa!). Entretanto, a partida está apenas com 2-3 minutos do 1º tempo,... e, se der empate no tempo regulamentar, vai ter prorrogação e até mesmo, se preciso, decisão nos pênaltis!

Vamos jogar... e nos divertir que nosso jogo é cheio de beleza, raça e graça!

Até o mês que vem!

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