11 de julho de 2008

Junho de 2008

Chegou o inverno. Chegou a chuva. Chegou a Trezena de Santo Antônio. Chegaram São João e o João Bastos, este lá das bandas do Rio de Janeiro.

O inverno, a chuva, a trezena e São João eram esperados e não eram, exatamente, novidades. Até ao contrário, pois todos sabemos o que deve acontecer e como é que fica a vila: vento frio no fim do dia, muita poça d’água e lama descendo dos morros, mas, mesmo assim, barraquinhas, bingo, quentão, quadrilha e forró – tudo mais ou menos cheio de gente se menos ou mais chuva.

O João, do Rio, também era esperado com ansiedade e alguma expectativa: será que vai gostar do que vai encontrar? Daqui há pouco vamos ouvir a resposta desta pergunta porque ele mesmo vai responder de própria voz... ou punho.

Com o João, não o santo, chegou também o dia da Festa do Forno do Projeto de Gente. E a Festa do Forno era pura novidade: será que o forno vai esquentar? Afinal choveu muito nos últimos três dias e o forno é descoberto. Na madrugada anterior à festa caiu um pé d’água daqueles de acordar gente de sono pesado. As massas vão crescer? A quantidade de pão e pizzas e biscoitos vai ser suficiente? Os sucos de graviola, maracujá e acerola serão suficientes? E se o forno esquentar demais? Será que vai queimar tudo? Vai tudo virar carvãozinho? A porta do forno, preparada pelo Antônio, vai dar conta do recado? E o teatro de mamulengos? Será que os meninos e meninas vão saber, como juraram de pés juntos, improvisar as falas da história mais ou menos costurada? Será que vai dar o famoso “branco” nos poetas e declamadores? Os atores da peça “Quem ama, cuida” vão lembrar as falas e as marcações? O diretor vai ter um treco?

Pois foi uma beleza! O forno esquentou, crianças e adultos botaram a mão na massa e os os pães cresceram, os biscoitos e pizzas não queimaram e, além disso, estavam realmente deliciosos, o suco não foi suficiente não, mas ninguém ligou, os poetas e declamadores soltaram a voz, os mamulengos fizeram todo mundo rir, os atores foram “o” espetáculo... e o diretor sobreviveu!

Pois foi nesse mesmo dia, como dissemos que o João chegou a Cumuru. Pegou o fim da festa, mas os atores da peça fizeram questão de oferecer uma nova sessão.

O João, com sua tranqüilidade e amabilidade, foi logo se inserindo na pequena comunidade do Projeto de Gente. Nos dias seguintes conversou com muitas crianças, conheceu um pouco de suas vidas, fez anotações, jogou o jogo das palavras cruzadas (aprendeu a grande palavra “minimicoleão” que rendeu muitos pontos ao Dilermano), participou das Rodas – vale o parêntese: as Rodas destes últimos dias têm sido confusas, dispersas; as crianças estão bem agitadas; talvez um dos motivos tenha sido um certo assunto espinhoso: o desaparecimento de um ou dois pacotes de biscoitos do lanche. Procuramos não sair atrás de quem foi quem não foi, se este ou aquele, e sim buscamos trabalhar mais as questões que surgem a partir desta situação, principalmente o tema da confiança e da desconfiança, da geração dos mecanismos de controle (portas trancadas, punições, etc). Falamos também sobre o fato de que a pessoa que pegou os biscoitos não estava bem, não estava legal, pois os biscoitos eram de todos, portanto, eram dela mesma; e, se não estava bem, precisava mesmo é de apoio para se sentir melhor. Apesar disto muitas crianças tentam logo se defender dizendo que não foram elas –“ eu estava no Rio do Peixe, não vim neste dia”, “eu estava com febre, nem fui à escola” –, outras, acostumadas ao sistema que apenas investiga, pune os culpados e dão por resolvido o problema, tentam descobrir quem foi, armam histórias, desconfiam. Ficamos com a forte sensação de que este é mais um dos pontos a se ter paciência,... conversar,... conversar e, mais uma vez,... conversar.

Este é um típico momento que consideramos de grande importância no Projeto de Gente. Ao invés de apenas nos aborrecer, procuramos viver a situação de outra maneira; isto é, aí está a boa hora de aprender algo novo, a hora em que estamos mobilizados, tocados em nossos interesses e sensibilidades, o bom momento para mostrar que existem outros ângulos a se observar e outras vias de resolução, hora de romper velhos e cristalizados padrões e organizar novas possibilidades, de realmente vivenciar o “problema” e transformá-lo em uma questão a ser encarada, aprofundada e resolvida do modo que, de fato, acharmos mais adequado. Uma solução que emerge da sensibilidade e com a responsabilidade de cada um, uma solução que pode demorar mais do que apanhar e punir o culpado – mesmo com o óbvio direito à defesa –, uma solução que pode trazer outras delicadas – e muitas vezes incômodas – questões, mas, certamente, uma solução mais profunda e conseqüente.

De tudo isto o João participou – de 09 a 18 – ativamente, conversou, opinou, sugeriu, votou. Aliás, foi tirado que não teríamos biscoito no lanche seguinte à descoberta do desaparecimento. Os motivos foram: (1) chamar a atenção para a importância do fato de modo contundente e (2) deixar claro que o dinheiro é pouco e se coisas desaparecem vão faltar mesmo lá adiante. No dia seguinte, o Paulinho, o mestre de xadrez, mostrou-se preocupado com a possibilidade de as crianças sentirem como se tivesse havido uma punição coletiva. Mais conversa...

Este aqui parece ser um bom momento para o João dar seu depoimento. Com a palavra nosso amigo:

Visita ao Projeto de Gente (Cumuruxatiba)
09 a 18 de junho de 2008
09/06, segunda-feira: às cinco da tarde, tendo iniciado minha viagem no Rio de Janeiro às 8 e meia da noite da véspera, sou acolhido em Cumuruxatiba pelo carinho do Mujinha e do Alexandre. Subimos a falésia, até a casinha do Projeto de Gente, onde a festa de inauguração do forno está terminando, já ao cair da tarde.
Em atenção a mim, Ioane e Sol reapresentam o esquete teatral que haviam encenado pouco antes, um texto que deve ter sido difícil de decorar.
Em torno do palco, crianças, pais, colaboradores do Projeto. A tarde morrendo, o clarão do forno se destacando em meio ao crepúsculo, a última rodada de pães e pizzas, assados sob a orientação do Juan, tudo configurou uma ótima recepção!

10/06, terça-feira: Depois de passar a manhã tomando conhecimento da vila (caminhada na praia deserta, visita ao pátio da igreja, embandeirado para a trezena de Santo Antonio, conhecimento de novos e antigos moradores), estava eu, à uma da tarde, na casinha do Projeto, junto com o Alexandre. Antes da abertura da casa, a conversa com os “madrugadores”, que subiam em árvores, faziam malabarismo, me ilustraram com lições sobre a vegetação nativa: pés de araçá, manga, aroeira, mangaba e beri-beri.
Depois chegou Paulinho, o mestre de xadrez. Nesse dia, logo que a casa se abriu, foi organizado um mutirão para arrumar a casa, cuja rotina tinha sido afetada pela comemoração da véspera.
Quem já estavam no Projeto foram escolhendo suas atividades: Dejnan, Gladstone, Ana Paula e Paulinho iniciaram uma partida de xadrez, Jonas, Ioane e Flávio optaram por desenho, Ana Paula, Dilermano, Jonas e João escolheram palavras cruzadas, outros foram para o banco imobiliário. Crianças que chegaram depois foram se incorporando aos diversos grupos.
Alexandre era o responsável nesse dia pelas anotações de retirada de material.
Na roda desse dia discutiu-se a mudança de horário do lanche, a festa da véspera, a dificuldade de manter silêncio e disciplina na roda. Não sei se alguém percebeu, mas eu estava muito emocionado ao contemplar, pela primeira vez, o grupo reunido para discutir questões do Projeto.
Após o lanche e arrumação da casa, termina meu primeiro dia inteiro no Projeto de Gente.

11/06, quarta-feira: pela manhã, trabalhamos, Alexandre e eu, no computador, organizando o cadastro de simpatizantes e apoiadores do Projeto em Cumuru, e enviando a todos o informe de maio.
Cheguei à casinha do Projeto somente às duas da tarde, e já encontrei um grupo de crianças ocupadas em cortar legumes e preparar o lanche, na oficina de culinária da Dolores: todos de avental e gorros improvisados, pequenos mestres-cuca.
Algumas crianças que brincavam no quintal enriqueceram meu vocabulário com palavras e expressões da terra: rétar, no sentido de arretar, perseguir; pocar, que que dizer quebrar; enrabar, que, ao contrário do sentido malicioso que tem em outras regiões, em Cumuru quer dizer ir atrás, ir na cola: eu corria e o cachorro tentava me alcançar, me enrabando. Quando eu falei que jogar palavras cruzadas era gostoso, todos estranharam: gostoso? gostoso é coisa de comer...
No lanche, os alunos serviram o produto da oficina, como o Alexandre já contou no Diário.
A roda desse dia foi diferente: fomos assistir a um áudio-visual preparado sobre o Projeto, no aparelho instalado na casa do Alexandre, e conversamos sobre isso.

12/06, quinta-feira: dia em que as crianças não têm atividade no Projeto. Aproveitamos para discutir a construção da democracia na “roda”. Uma saudável divergência, o Alexandre enfatizando a necessidade de deixar as crianças à vontade para participarem ou não das rodas, enquanto minha posição era de que as crianças deveriam, pelo menos no início, estar obrigatoriamente nas rodas e exercitar a participação democrática. Uma discussão que vai longe...
No final da tarde, reunião no ateliê da Renata, com a presença de Dolores, Ângela, Renata, Paulinho, Alexandre e eu. Discutiram-se as tarefas a serem cumpridas no Rio e em Cumuru: blog de divulgação, campanha de ampliação dos apoiadores, contato mais estreito da coordenação do Projeto com os pais e responsáveis.

13/06, sexta-feira: dia de Santo Antônio, alvorada com banda tocando marchinhas alegres. A vila de Cumuru fica muito alegre nos dias da trezena do santo padroeiro. As crianças mais velhas saíam alguns dias mais cedo do Projeto, para participar do ensaio da quadrilha na escola. Assisti na sexta à noite ao início da missa, com os pescadores entrando na igreja em procissão, carregando uma imagem de sua santa protetora.
A cada momento, andando com Alexandre pelas ruas, aparece uma criança ligada ao Projeto. E lá vem a pergunta: “Alexandre, segunda-feira vai ter projeto?”, como para se assegurar de que o Projeto veio mesmo para ficar.
Durante o dia de sexta-feira, sentamo-nos por várias horas em frente ao computador, discutindo a montagem de um blog e a catalogação de fotos e documentos do projeto.

16/06, segunda-feira: durante a tarde, entrevistei várias crianças do Projeto, atualizando as fichas do cadastro com nome e profissão dos pais, data de nascimento, ano escolar. Também procuramos investigar certos aspectos mais sutis, como, por exemplo, perguntar sobre os “gostares” e “não-gostares” das crianças, expectativas quanto ao futuro e avaliação sobre a vida em Cumuru. Pude colher algumas histórias interessantes, bem como perceber algumas peculiaridades de cada um, que são ingredientes importantes, mas às vezes tristes, para compor a história de suas vidas: separação de casais, perda de um dos pais, questões de violência doméstica, laços de amizade que vão além dos vínculos familiares.
Com a ajuda das crianças, Renata e Ângela pintaram tabuleiros de xadrez sobre as toscas tábuas da mesinha. Outro grupo de crianças trabalhou com Alexandre fixando prateleiras e mudando de lugar alguns dos móveis. O acervo de móveis é pequeno, mas já é um progresso em relação ao que tínhamos há uns meses atrás: hoje existem estantes de tábuas, mesas de madeira tosca apoiadas em cavaletes, banquinhos de plástico. Fiquei pensando que uma boa contribuição para o projeto seriam algumas mesas de plástico, que nos dias de sol poderiam ser arrumadas no quintal, e ao final do dia empilhadas numa das salas da casinha.
É interessante a forma como as crianças se apropriam do espaço do quintal: as árvores parecem personagens importantes, pequenos planetas que desempenham papel importante na vida do Projeto. Lá em cima elas podem ficar conversando, escolher se ocupam os galhos mais baixos ou mais altos, fazer os malabarismos que quiserem.
Também o forno é uma figura importante: há sempre dois ou três sentados ali em cima, como se estivessem pilotando um pequeno barco. Seria curioso pesquisar as fantasias que as crianças têm quando se apropriam desses espaços.
17/06, terça-feira: prosseguiu a tarefa de entrevistar e fotografar as crianças. Nesse dia as crianças estavam bastante inquietas na “roda”, mas foram discutidas questões importantes, como já apresentado pelo Alexandre. Nas conversas que tive com eles sobre o futuro, muitos são atraídos por profissões ligadas ao mar e ao meio ambiente: alguns querem ser biólogos, outros querem mergulhar. Quanto aos pontos que gostariam de mudar em Cumuru, mais de um falou que gostaria de acabar com as brigas.
18/06, quarta-feira: pela manhã, tive oportunidade de visitar a aldeia indígena Caí. Quem nos apresentou a aldeia foram D. Léa e seu filho Romualdo. Numa visita rápida, acho que pude apenas tangenciar a complexidade da questão indígena no Sul da Bahia. Pelo que entendi, os pataxós estavam integrados na sociedade, mas havia um passivo histórico a saldar. O trabalho nas aldeias tenta recuperar os valores e as tradições indígenas, além de lutar pela demarcação das terras das reservas. Esse ponto, particularmente, é um ponto de elevado conflito potencial com a população não-indígena da região.
À tarde, não pude permanecer na casinha até o final no Projeto, pois meu ônibus para Itamaraju partia às 16 horas. Não foi possível assim experimentar os crepes preparados pelas crianças na oficina de culinária. Tirei as últimas fotos do grupo e me despedi de todos, pois precisava buscar minha bagagem na pousada.
No ponto de ônibus, tive a alegria de encontrar o Alexandre e três das crianças do projeto: Maciele, Raíssa e Flávia.
E assim terminou minha primeira visita a Cumuruxatiba. Saí de lá com a sensação de que o Projeto criou raízes nos corações e nas mentes da população local, e que, a despeito da carência de recursos, o Projeto está consolidado.
João Bastos de Mattos
Capivari, 09 de julho de 2008

E agora, depois deste belo relato do João, notícias! Foram pintados os tabuleiros de xadrez na mesa baixa. Assim, temos agora o tabuleiro doado pela Lúcia – com lindas peças de madeira –, o que o Paulinho trouxe – com peças de pedra sabão (um empréstimo muito valioso dado o carinho que o Paulinho tem com estas peças) e os dois novos e coloridos tabuleiros da mesa. Temos ainda um jogo de peças também de pedra sabão – Dolores nos presenteou. Valeu, Lúcia, Paulinho e Dolores!

Outra grande notícia: o Begara, o novo médico do Posto de Saúde, nos doou... uma caixa d’água novinha em folha – ou melhor, em fibra. Uma caixa de 500 litros (por ele seria de 1000) com toda a parafernália de canos, bóias, registros e flange (seja lá o que for isto!) necessários para sua instalação. Os homens e mulheres já estão convocados para o mutirão de colocação da caixa em seus novos esteios – doados pelo Ricardo e Ângela Darc. Obrigado, Begara! Valeu, Ângela e Ricardo!

Paulinho fez uma viagem de uma semana e, mais uma vez, deixou clara a necessidade de aumentar o quadro de educadores. Uma ou mesmo duas pessoas são insuficientes para implementar o que se pretende no Projeto de Gente.

Sexta-feira (27) tivemos a 1ª sessão de cinema no Projeto propiciada pelo Ricardo, Andrea e, claro, o Theo. O nome do Cine será escolhido logo logo. O filme foi o Shrek e aprendemos que não podemos começar tarde a sessão, pois muitas crianças precisam realmente sair às 16:30/17:00h – são muitas as crianças que pegam seus irmãos menores na escola e/ou ajudam na arrumação e preparo da janta. De todo modo foi festa com direito a pipoca e o escurinho do cinema – só faltou o drops de aniz. Muito obrigado, Theo, Andrea e Ricardo!

Na Oficina de Culinária da Dolores tivemos, num dia, arroz com legumes em copinhos decorados com folhas de manjericão, noutro, panquecas com açúcar e canela e, na última do mês, sanduíche de manteiga com ervas e ovos mexidos. Já nem tem mais graça agradecer à Dolores – que, na sua linda simplicidade e com seu belo sotaque, sempre está a dizer que não precisa, não precisa.

Assim nos despedimos deste mês extraordinariamente frio nesta Bahia ordinariamente calorosa. Até o mês que vem!

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