10 de dezembro de 2007

Outubro de 2007

Há 19 anos, durante uma reunião de pais e mestres em uma escola do Rio de Janeiro, um pai colocou as mãos em concha e perguntou onde estava a fronteira entre cuidar e, fechando lentamente as mãos, oprimir, obrigar.

Quando este pai usou a palavra “fronteira” estava, talvez sem consciência, tocando em um dos pontos básicos do que se convencionou chamar: educação. Um tema conhecido também por outra denominação: limite.

Limite. Uma palavra que, aparentemente, não se desgasta com o uso. Um conceito do qual muito se fala, muito se ouve – “É preciso que se tenham certos limites!”, “Sem limite a liberdade vira libertinagem!”, “Viu no que deu? Os pais nunca deram limites a este menino!”.

Quase sempre – e os exemplos, de certo modo, mostram – limite traz a idéia de cerceamento, restrição, repressão. Entretanto, também quase todos concordam, em teoria, que limites podem – mesmo devem – ser ultrapassados.

Durante a fase inicial da vida, este último aspecto parece ser empanado pelo anterior – é a fase do “adestramento”, da criança bem educada. Porém, em outra fase, na sociedade competitiva em que vivemos, os ousados, os que desafiam os limites, são os mais admirados. E aí parece haver uma inversão quanto à expectativa em relação ao comportamento frente ao limite: de aceitação para superação.

Pelo menos um motivo pode ser vislumbrado para que assim seja. No início, talvez se organize uma estrutura defensiva reativa ao famoso, e muito compreensível, “medo de crescer”. E crescer, fica aqui entendido, mais que tudo, como o medo de se reconhecer como indivíduo único e capaz de manifestar tal singularidade com todos os riscos que este ato acarreta. Medo porque, afinal, se manifesto exatamente o que sinto-penso muitos podem não gostar e se afastar de mim. E o que fazer se uma destas pessoas for muito, muito importante – vital mesmo – para mim? Talvez, neste caso, seja melhor “respeitar” um certo limite. Como não sabemos qual limite exatamente – teríamos que experimentar, ousar – damos, então, uma margem de segurança e, sobre esta margem, outra para dar mais segurança... e outra... e outra... A defesa está construída e, freqüentemente, tão bem construída que o que quer que a tenha motivado fica completamente esquecido, soterrado sob toneladas de “margens de segurança”. E o esquecido é, justamente, o que não podemos jamais esquecer: o ser que, de fato, somos.

Numa segunda fase, muitos aprofundam este esquecimento através de uma atitude ousada, porém refletindo o que se espera de cada um – não quem é realmente cada um. Desta forma tenta-se garantir “proteção”, “acolhimento”, aceitação. Entretanto, o preço é ser quem não somos – o mesmo, e alto, preço pago na primeira situação.

Um mote inspira o Projeto de Gente: descoberta, desenvolvimento e integração.

Integrar-se é construir fronteiras. Fronteiras que exigem auto-conhecimento, livre manifestação e reconhecimento da manifestação do outro. Portanto, uma mesa de negociações deve ser organizada, bela e natural, entre dois livres manifestantes.

Bela, se livres e respeitados; catastrófica, se dissimulados por intenções ocultas (vale dizer, defensivas) e interesseiras (não a partir do “entre esses”: o interesse), mesmo que, nesta altura, completamente despercebidas pelos negociadores.

Entretanto, a livre manifestação não implica em perda do direito à intimidade – muito ao contrário –; isto é, não temos que subir em um banco na praça pública e nos expor. No mundo que construímos isto seria um descuido. Há que saber fazê-lo; aliás, a superexposição é, mais que tudo, uma defesa, aparentemente contraditória, contra o medo de ser: atrás das luzes esconde-se o verdadeiro ser. Pessoas públicas nos mostram isto com clareza quando a dor escondida eclode das profundezas das luzes, freqüentemente nas páginas sensacionalistas ou policiais dos jornais e revistas.

Talvez tenhamos que trabalhar para construir uma alternativa onde, desde cedo, não precisemos temer não existir se formos quem de fato somos.

Mas, vamos voltar à reunião de 19 anos atrás e lembrar algumas perguntas que surgiram naquela ocasião: será que o mesmo cuidado serve para toda e qualquer criança? Será que o cuidado necessário para uma significa opressão para outra? O cuidar para um pode ser um “sufoco” para outro? Descuido para este? As leis do bem cuidar, então, não podem ser generalizadas? Como criar um bom campo de cuidados se as crianças são tantas, tão variadas, e os educadores poucos? Será necessário um educador para cada criança? Um certo educador para uma certa criança?

Bem, talvez o educador tenha que estar certo de que cada criança é uma, nenhuma certa ou errada e ele é um, nem sempre certo,... todos sensíveis.

Quando uma criança incomoda, molesta especialmente, um educador, ele deve, quem sabe: (1) respirar fundo três vezes; (2) observar em que ponto sensível dela, a criança, ele está tocando e (3) observar em que ponto sensível dele ela está tocando.

Muito bonito tudo isto – alguém vai dizer –, mas, quero ver fazer o tal 1, 2, 3 numa tarde de sol baiano (ou de chuva torrencial que obriga a todos ficar dentro de casa) com 17, 18, 20 crianças de idades diversas, desejos diversos, energias diversas enchendo o espaço, ultrapassando o espaço! Respirar fundo 3 vezes? Como, se estou é sem fôlego?! Observar? Como, se mal compreendo o que está se passando?

Claro que o 1, 2, 3 é uma maneira brincalhona... e chata... de falar sobre uma dinâmica que pode, e deve, ser realizada com simples naturalidade desde que sejamos corajosos e generosos. Generosos para ver nos olhos, nos gestos e atitudes da criança, sem invasividade, sem desrespeito, o que eles nos revelam (não o que, preconceituosos, pensamos que lá existe). Corajosos para nos ver, espelhados, nos olhos, gestos e atitudes da criança.

Se quisermos ser um campo para o desenvolvimento destes meninos e meninas temos que estar seguros de que um campo não interfere na semente. Simplesmente se oferece, oferece o que tem, oferece quem é. O campo não transforma a semente de manga em semente de caju. Não tem, felizmente, este poder! Apenas a acolhe e oferece seus constituintes, aceita o outro e a si mesmo tal como cada um é.

Se desejarmos servir de campo para que estas crianças se organizem como de fato são, temos que nos reconhecer como de fato somos. Se desejarmos oferecer campo para que elas possam reconhecer sua autoridade mais legítima, pessoal e singular temos que, continuamente, buscar contato com nossa própria autoridade interna. Não a autoridade a que estamos (mal)acostumados – aquela que apenas ordena, faz cumprir as leis e pune os que não as seguem – e sim aquela que autoriza, alimenta nossa autonomia, dá legitimidade à nossa conduta, aos nossos desejos. A autoridade de quem conhece, sabe a simples lei que rege a existência humana: apenas serei feliz se for quem sou.

Entretanto, os seres humanos são exatamente os únicos que conhecemos que conseguem “dobrar” seu fluxo vital natural de tal forma que construímos, justo, o que não desejamos. Fazemos isto movidos por interesses secundários, realizando estranhas escolhas que nos levam a trilhar caminhos que, ao final, se mostram mais difíceis e trabalhosos do que aqueles dos quais fugimos, assustados – o medo de ser –, quanto a nossa capacidade de viajar por eles.

Em outubro de 2007, nós, do Projeto de Gente, aprendemos um pouco mais sobre esta construção. O mês começou em clima de festa, aniversários, visitas de pessoas muito queridas ligadas ao pessoal do Projeto – Letícia, mulher do Daniel; Cristina, Letícia e Lucas, da família do Alexandre, vieram trazendo alegria e participação –, Sabine e Felix, jovens alemães da ONG – The Travelling School of Life, também estiveram conosco e, embora o objetivo de seu trabalho não seja, no momento, a prioridade do Projeto de Gente (você pode conhecer o TSOLIFE pela internet: www.tsolife.org) foi muito gratificante a troca de experiências e a inclusão do Projeto em uma rede de contato de pessoas interessadas em pensar e construir educação de um modo democrático e progressista.

Entretanto, ao longo do mês, fomos notando uma diminuição no número de crianças participantes; esvaziamento da Roda; aumento na freqüência e profundidade de conflitos; alguns incômodos em relação a certas atitudes – freqüência irregular, um entra e sai das dependências do Projeto (quando nos dávamos conta uma criança tinha simplesmente ido embora), combinações não respeitadas. Além disto, como já referido nos último diário, a equipe se ressentiu da diminuição do número de trabalhadores no dia a dia.

Os educadores foram trazendo elementos segundo suas percepções pessoais e que se complementavam com as de outros: este observando com mais objetividade o movimento das crianças, aquele atento a uma dinâmica mais psicológica, outro a uma questão social. Algumas crianças também começaram a se referir ao fato de que a Roda tinha menos gente; que alguns vinham apenas para o lanche e não para conversar; que fulano e beltrano estavam vindo pouco ao Projeto e que haviam outras crianças interessadas em se inscrever. A partir destas observações as Rodas ganharam consistência: mais respeito ao horário – passamos a nos reunir na hora combinada, não importando quantos estivessem presentes e não mais buscando as crianças e lembrando sobre o horário –; maior aprofundamento na qualidade das discussões – por exemplo, combinações sobre os critérios para se determinar que uma criança estava, de fato, ligada ao Projeto dado que a regra vigente não obrigava uma determinada freqüência de comparecimento (foi discutido que a qualidade da presença era mais importante que a quantidade de dias que a pessoa vem). Outra discussão foi sobre a entrada de novas crianças interessadas e a dificuldade de atenção e cuidado que o Projeto poderia oferecer com a pequena equipe de trabalho (resolveu-se que uma boa conversa deve acontecer com as crianças que estão comparecendo irregularmente para que se tenha uma melhor idéia sobre suas motivações). Mais uma questão: qual a real importância da Roda, dado que, muitas vezes, os temas não interessavam a todos. Foi decidido que a Roda não é obrigatória, na verdade reafirmado, mas a participação deve ser efetiva, isto é, quem está, está – “A Roda é o coração do Projeto porque é aqui que todo mundo escuta melhor o que cada um sente e pensa.” Chegou a ser incluída na proposta que apenas lancha quem participa da Roda!

Dois pontos estão exigindo muita atenção: (1) a questão financeira do Projeto. A cada dia fica mais clara a necessidade de pessoal dedicado e compromissado em todos os sentidos e isto inclui, naturalmente, remuneração. (2) O verão. Em Cumuru, o verão é um momento único e extraordinário. A maioria dos habitantes se envolve em alguma atividade ligada ao turismo como uma maneira de aumentar seus rendimentos. Como os trabalhadores do Projeto são, basicamente, moradores voluntários temos que lidar com este problema que acarretará numa diminuição ainda mais clara de adultos no Projeto. O que fazer? Fechar durante o verão? Contudo, este é um tempo em que as crianças poderiam, mais que nunca, participar. Outra hipótese: abrir apenas 2 ou 3 vezes na semana.

Decisão do momento: vamos conversar a respeito!

Até novembro!

Nenhum comentário: