10 de dezembro de 2007

Novembro de 2007

Embora hoje esteja chovendo, muito, e o vento leste traga um pouco de frio, o verão chegou a Cumuruxatiba,... junto, e por causa de, um feriadão. E verão, aqui, representa uma profunda transformação no ritmo de vida das pessoas e, portanto, alteração na dinâmica da própria vila: todos, quase todos, aumentam a produção em suas atividades mais comuns – pescadores pescam mais, ceramistas queimam mais, pousadeiros hospedam mais, comerciantes vendem mais, artesãos criam mais, cozinheiros e cozinheiras cozinham mais -. Além disto, muitos acumulam atividades – pescadores tornam-se caseiros em casas de veranistas, estudantes trabalham em pousadas, artesãos fazem papel de garçons em restaurantes...

Já mencionamos este fenômeno no último Diário; porém, no mês de novembro, sua influência foi sentida profundamente no Projeto de Gente. Nossa equipe, voluntários que desejavam e podiam vir 3-4 vezes na semana ao Projeto, passaram a estar com as crianças 1-2 vezes, por conta da necessidade de trabalharem em atividades geradoras de recursos financeiros que lhes assegurasse, inclusive, o próximo ano. Com muita freqüência apenas uma pessoa estava disponível para cuidar de 15-17 crianças.

Isto contribuiu para o esgarçamento do cuidado; isto é, este cuidado tornou-se mais superficial. Exatamente neste momento, por conta da confiança conquistada ao longo dos 3 meses de trabalho, situações pessoais de algumas crianças foram ficando mais claras e mesmo trazidas à tona por elas mesmas.

A equação desequilibrou: diminuição do número de pessoas que pudessem dar campo ao aumento de manifestações importantes e delicadas das crianças.

Como quase sempre acontece, este movimento não foi imediatamente percebido. Na verdade, os sintomas deste desequilíbrio é que foram, aos poucos, chamando a atenção: um certo nervosismo no ar, desatenção a regras já combinadas, irritações, confusão entre liberdade e poder fazer qualquer coisa, etc.

O educador, freqüentemente, não podia estar perto de uma situação na qual ele podia atuar como um mediador cuidadoso e elucidativo e, não podendo, esta circunstância significava, então, um afrouxamento na prática da possibilidade de se encontrar uma re-novada forma de, por exemplo, resolver um conflito, de re-organizar uma estrutura de consciência velha e pouco construtiva. De um “lembrar, cuidar” tranqüilo, terno quanto ao cumprimento de uma combinação, passava-se a uma “chamada de atenção”, eventualmente áspera, cansada. O educador passava a exercer, facilmente, uma função policial que, naturalmente, era sentida como repressora da liberdade. A reação se organizava: ou a criança se afastava quieta, mais triste que zangada, magoada – atitude introspectiva - ou contestava, mais zangada que triste, magoada – atitude extrovertida. Ambas esquecidas de que liberdade inclui o outro.

De modo que, o Projeto vive um delicado – belo, trabalhoso e esperado – momento. Por um lado, algumas crianças se sentem confiantes, vale dizer, livres, para manifestar suas preocupações, inquietações, dúvidas. “(Tendo como base) o amor recebido e o amor é o chão da liberdade...”, como ensina Hélio Pellegrino, estas crianças conseguiram ultrapassar velhas barreiras, diminuir defesas e revelaram um pedacinho de seus escondidos corações, deixaram que lêssemos, pegando no livro, uma linha de suas sensibilidades mais profundas. Porém, e por outro lado, a diminuição no número de educadores dificultou a vivência destas possibilidades.

Resultado: das crianças podíamos ouvir o questionamento: “Ôch (baianês!), cadê a liberdade?”, “A gente não pode fazer o que quer?”, “Que chato! Toda hora Roda extraordinária para combinar regras!”, “Toda hora escabreando (escabrear: dar bronca)!”. De alguns educadores: “Chega! Assim não dá!”, “Vocês não respeitam as combinações!”, Também não vou respeitar: vou p’ra casa!”, “Não ganho nada p’ra estar aqui!”. Reatividade de ambas as partes.

De alguns educadores uma pergunta aparecia, com maior ou menor clareza: “Eles (as crianças) estão maduros para a liberdade?”. “As crianças” está escrito entre parêntesis porque, de certa forma, as crianças repetiam, ao seu jeito, a mesma pergunta colocando “os adultos” dentro do parêntesis.

Ora, a liberdade é condição pré-existente à maturidade. Liberdade é – deveria ser – condição natural, sem adjetivos – nem bela nem perfeita, nem pouca nem muita -, apenas deveria existir e ponto. Muita liberdade é, veremos, outra coisa, não liberdade.

Porém, parece que os adultos – a sociedade – se dão o direito de decidir se e quando suas crianças estão ou não maduras para viver a liberdade. Confundem núcleo e citoplasma, essência e circunstância. Freq6entemente, inclusive, atrelam a liberdade a uma simples questão financeira: “Enquanto comer às minhas custas, viver debaixo do meu teto (esquecidos que foram eles que convidaram seus filhos a esta situação) estão sob as minhas leis!”

A maturidade acontece, construída e renovada, na prática da livre vivência com o outro, no encontro de liberdades. Maturidade acontece quando se percebe que sem o outro não há liberdade. Acontece quando se percebe que quando apenas se faz o que se quer colaboramos, ao final, para o afastamento (agressivo ou melancólico) do outro. Liberdade sem o outro é solidão! Maturidade acontece quando livres manifestações podem ocorrer e eventuais – naturais – conflitos são vividos sem violência organizando uma vivência conjunta, uma construtiva convivência.

Mas, porque a confusão acontece? Quem sabe uma possível raiz esteja no medo de ser – ele mesmo, adulto – livre. Outra possibilidade: o medo de viver o medo do que a liberdade pode significar na vida de suas crianças na sociedade em que vivemos, que organizamos (uma sociedade que tantas vezes criticamos mas seguimos mantendo, assustados com a reação dela a uma atitude transformadora de nossa parte). Talvez a comunhão dos dois temores.

Negando viver, simplesmente viver, o medo de ser livre, o medo da liberdade, o medo de era quem somos, negando o fluxo que dita nossa condição essencial, o fluxo que pede, depois exige, a liberdade de ser quem cada um é, vamos, paulatinamente, construindo uma ditatorial e destrutiva forma de vida. Destruindo a nós mesmos, colaboramos na destruição do outro – de todo outro (basta olhar para nosso já bastante destruído planeta), justo porque a liberdade de ser inclui a liberdade do outro.

Talvez possamos aprender algo conhecendo a história de Dédalo e Ícaro: Dédalo, o mítico arquiteto grego, após desviar-se de si mesmo – matou, por inveja, seu mestre – foi acolhido em Creta. Aí ele constrói o Labirinto – símbolo do mergulho em seu inconsciente –, um lugar onde somente ele encontrava o caminho de volta. Adquiriu, assim, sabedoria, auto-conhecimento. Por ter ajudado a mulher e a filha do Rei de Creta a viverem legítimos desejos, embora indesejados pelo rei, foi aprisionado, junto com seu filho Ícaro, no Labirinto. Naturalmente. Dédalo encontrou o caminho de saída e fabricou dois pares de asas as quais prendeu, com cera, aos ombros para que ele e seu filho pudessem fugir da Ilha de Creta. Recomendou, muitas vezes recomendou, a Ícaro que não voasse nem muito alto, pois o sol derreteria a cera, nem baixo demais porque a umidade do mar tornaria as penas muito pesadas. Apesar de tudo, dos conselhos paternos, Ícaro não aceitou seu lugar, “seu centro, entre as ondas do mar e o sol” e voou, desconectado de si mesmo, alto demais. Ao chegar perto do sol a cera derreteu-se e as penas se soltaram. Ícaro caiu no mar e afogou-se. Seu pai nada pôde fazer, a não ser viver a dor e a tristeza da perda.

“Se (...) as asas são o símbolo (...) da liberdade é preciso ter em mente que assas não se colocam apenas, mas se adquirem ao preço de longa e não raro perigosa educação (...)”. O erro de Ícaro foi ultrapassar um limite, descuidar-se de si mesmo, não aceitar-se. A história do menino grego, naturalmente, não fala de um limite físico já que o ser humano não tem asas. Ela nos fala de uma escolha, uma escolha que depende de conhecimento, auto-conhecimento. O auto-conhecimento que Dédalo possuía, mas não podia transferir para seu filho pura e simplesmente; havia de existir a práxis do menino. (Vale dizer que as aspas referem-se às palavras do Prof. Junito Brandão, e, Mitologia Grega)

Aí está a motivação de um educador – de um adulto – que cuida de uma criança: trabalhar para que ela possa conhecer a si mesma, conhecer a real possibilidade – o verdadeiro poder – da liberdade, aquela que inclui ele próprio e o outro em harmônica convivência. Ícaro, o mar, o sol.

Em novembro de 2007, todos nós do Projeto de Gente, vivemos, dia a dia, a simples e trabalhosa máxima: a vida se organiza para se desorganizar e re-organizar-se... para desorganizar-se e...

Um importante, delicado e triste, momento aconteceu quando duas crianças reagiram agressivamente ao conflito de se sentirem divididos entre o campo amoroso do Projeto e outro, caseiro, nada amoroso – violento mesmo – ou ambíguo, mas que lhes deu suporte para estarem vivos até hoje. Reagiram agredindo as combinações – como disse uma criança: “Parece que eles não querem mais estar no Projeto!” -, agredindo outras crianças, adultos e a própria casa – rabiscaram as paredes reiteradamente, jogaram pedras, um dia. Na Roda, uma criança propôs que fossem, então, desligados. Um adulto ponderou que esta decisão era tão séria que seria bom que se conversasse maiscom eles para saber o que estava realmente acontecendo, porque eles não estavam, mais como no início das atividades do trabalho. Esta proposta foi vencedora por estreita margem. Entretanto, 3 dias depois os dois meninos – 7,8 anos – voltaram a agir com redobrada agressividade e, naquele dia, a Roda decidiu pelo desligamento. Ficou claro, para a maioria das crianças, que era impossível a convivência mesmo que – alguns compreenderam – o desligamento não ajudasse realmente a resolver a questão que motivava a reação dos meninos. Um dos educadores tem mantido contato, fora do Projeto, com os dois. Naturalmente que o retorno não está impedido e isto também ficou claro para todos.

Também em novembro o Projeto de Gente recebeu uma generosa oferta: um grupo de música – a FÁBRICA DA ARTE – ofereceu um show em prol de nosso trabalho. Este espetáculo acontecerá dia 09 de janeiro de 2008 e tem 3 propósitos principais: 1) divulgação do Projeto de Gente; 2) ampliar a possibilidade de encontrarmos patrocínio – necessidade prioritária para o pagamento de salários para a equipe – e 3) arrecadar recursos financeiros imediatos para necessidades imediatas – conserto da caixa d’água, confecção de mesas, etc.

Foi decidido que nosso trabalho será apresentado ao público através de todos os participantes do dia a dia do Projeto. A idéia é realizar uma primeira parte com uma Roda de Capoeira que se transforma numa roda de samba, de hip-hop e, finalmente, forró. Depois, um esquete de teatro que mostrará os conceitos principais que norteiam o trabalho. Um clip de fotos e música e, então a Fábrica da Arte se apresentará. As crianças estão produzindo objetos – cerâmicas, pinturas, desenhos, para serem vendidos. Além disto, conseguimos a doação de 200 botons, 100 camisetas que também reverterão em recursos financeiros. Neste dia o Projeto de Gente receberá o que for vendido no bar da Barraca Zona Livre, local do apresentação.

Uma decisão importante foi o encerramento das atividades cotidianas e integrais do Projeto por conta da, já dita, diminuição de pessoal da equipe e a necessidade de ensaios para o dia 09, além de inúmeros outros detalhes a serem articulados para a organização e produção do espetáculo.

Deste modo, dezembro chega com muito aprendizado e muitas perspectivas.

Beijos.

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