5 de setembro de 2007

Agosto de 2007

Agosto. Apenas três meses se passaram e nos sentimos, por conta da generosa acolhida, moradores de Cumuru, quase velhos moradores. Neste mês, como já previsto, Daniel precisou ir ao Rio de Janeiro; Marcio, desejando ficar, reuniu forças e retornou.

Do sul, então, soprou um vento frio – quase triste – trazendo chuva por uma semana inteira; depois, dias e dias de vento leste: forte, pesado, mais frio, mais chuva, mar batido, pescadores em casa, sentados na varanda do Mauro, conversando. Para o pessoal do Projeto de Gente, tempo de introspecção, reflexão e contato com uma multidão de sentimentos.

O resultado do balanço foi... ensolarado e encorajador. Ficou claro, para nós, que havíamos sido aceitos pela população da vila: fomos convidados a participar do esforço dos rapazes e moças que fazem o cursinho pré-vestibular organizado pela ACAIC (Associação de Cultura Afro-Indígena de Cumuruxatiba); alguns professores nos procuraram para discutir questões das escolas; para participar de atividades – aulas e eventos – escolares; gente da terra e do mar perguntando, interessados, pelo trabalho; pessoas de fora que adotaram e foram adotados pelos daqui também; o pessoal do NEMA (Núcleo de Estudos do Meio Ambiente); enfim, muita gente “dando força”, buscando maneiras e soluções para as questões que precisavam, minimamente, ser resolvidas para que pudéssemos iniciar o trabalho. Foi assim que se formou uma equipe disposta a doar energia, tempo, saberes e habilidades ao Projeto de Gente. Esta equipe, com todas as dificuldades do movimento voluntariado, foi se consolidando e uma grade de atividades possíveis ganhou forma:

Sérgio – mineiro, professor de Educação Física, vai oferecer atividades corporais;
Gilli – israelense, artista plástica, trabalhos com argila, pintura, artesanato com materiais naturais da região;
Shal – baiano, estudante, vai formar a roda de capoeira;
Hygino, o Ginoca – baiano, estudante, habilidoso com a madeira;
Ângela – mineira, poeta e petequeira, vai organizar o jogo de peteca e atividades diversas;
Luiz Fernando – gaúcho, designer, está preparando um trabalho com as cores;
Juan – argentino, artesão em prata, pedra, etc, vai construir um forno para assar pães, bolos, pizzas, etc;
Dana – argentina, artista plástica, trabalho com desenho, tintas, pinturas;
Gerson, o Mujinha – baiano, pescador, vai montar o time de futebol;
Mônica – paulista, arquiteta, vai contar, criar histórias e fará leituras;
Ana Paula – paulista, professora, atividades variadas;
Aldo – paulista, artesão, fabrica, e fabricará com as crianças,... brinquedos;
Dolores – angolana, cozinheira, dona do restaurante Mama África, vai ensinar a alquimia da cozinha e
Alexandre – mineiro, médico-educador, também com atividades variadas.

Obs: Neste quadro já estão incluídas as pessoas que se ofereceram para trabalhar durante o fim de semana de inscrições.

Resolvemos oferecer opções para as crianças, observar se haveria realmente interesse e, principalmente, ouvir suas idéias, desejos e interesses. Já adiantando, no fim de semana de inscrições crianças pediram crochet, fazer roupa de índio, culinária, eletricidade (surpresa!!!), dança e teatro.

Com este grupo reunido, um plano foi discutido e aprovado, pelos daqui e também pelo Grupo-Rio do Projeto de Gente: divulgação do Projeto através de cartazes espalhados pela cidade – método tradicional da comunidade local e garantia da organização democrática do Projeto. Nestes cartazes fizemos um convite para duas manhãs de apresentação e inscrição de interessados – sábado (25) e domingo (26) –, dois dias para que houvesse alternativa aos que trabalham no sábado.

E o fim de semana de 25 e 26 chegou, antecedido por dias de trabalho e emoções variadas: antecipações de fracasso, de sucesso, medos de várias cores, desejo, insegurança, ansiedade, alegria, risos – às vezes bem nervosos – e crença, muita crença, o coração batendo “juventude e fé”. Foi também durante a semana que recebemos uma mensagem eletrônica do Jorge e da Fátima, donos da Papelaria Nossa Senhora de Fátima, no Rio de Janeiro, fazendo questão (palavras deles) de doar os primeiros materiais para o uso das crianças do Projeto: quadro-negro, giz, apagador, cadernos, etc, etc e etc.

Sábado de manhã, 9 horas – a hora marcada nos cartazes – e... ninguém; 9:30 e... ninguém! 9:45! E, de repente, baianamente:

“Crianças (...),
roupas simples, pés no chão.
Algo novo (estava) nascendo,
discreto, pequeno e leve,
do tamanho que podemos,
torrente de vida em breve...”,


como bem disse o João, nosso – bem dito – poeta (fiquem tranqüilos que vocês conhecerão toda a poesia do engenheiro João Bastos)”.

Foram chegando, algumas com o pai ou a mãe, poucas com pai e mãe, muitas com seus amigos, uma ou duas com uma certidão de nascimento amarrotada e bem firme na mão, aquela arrumadinha, banho recente, esta e esta outra com a roupa cor da terra, uma rindo, uma tímida, outra muito, muito tímida. A casinha do Projeto foi se enchendo com um som há muito esperado: gritinhos excitados, risos, um choro que o gelo no lugar dolorido e a mão no ombro fizeram calar suavemente, aos pouquinhos. Foram chegando, chegando: jogo de damas, dominó, massinha de modelar, desenho e artesanato com folha de coqueiro – que estamos na Bahia de Todos os Santos! Gilli, discreta e ativa, foi reunindo as crianças ao seu redor; melhor, não foi reunindo, foi agregando naturalmente um lindo grupo que dobrando uma, duas, três vezes a fita da folha do coqueiro e, com um gesto mágico final, faziam aparecer um peixinho verde e lindo que ia, então, nadar na atmosfera do Projeto de Gente. Em cima da pia – que a mesa que o Hygino está fazendo ainda não está pronta –, chá, biscoito e... coca-cola – que a manhã é de domingo. Também devagar fomos nos organizando para apresentar o trabalho a quem ainda não o conhecia. Música tranqüila no ar – enquanto teve energia elétrica, é verdade. No fim dos dois dias tínhamos muitos peixinhos nadando no ar, desenhos coloridos num cantinho, esculturas de massinha colorida sobre uma tábua e... a casa limpinha porque, sem que fosse previsto, a primeira Roda de Combinações se formou com o Eraston, a Andréia, o Sol, o Rafael, a Marina, a Jaqueline, a Mariana, a Jociele, o André, a Alexandra, a Ayala, o Gabriel, o Marlon, a Júlia, o Flávio, o Daniel, o Douglas, o Messias, o Joelson, a Valéria, o Mateus, a Dayse, a Agtha, a Neuziane, o David, o Igor, o Arildo, a Ana e a Aline, mais o Alexandre, a Gilli e ficou combinado que todos deviam deixar a casa limpa e bonita para o dia seguinte, para todos os dias seguintes.

Vinte e nove meninos e meninas se inscreveram; destes, 5 estudam à tarde, 3 participarão da carpintaria com o Hygino, 3a feira pela manhã. A idade variou dos 6 (poucos) aos 18 (uma menina); a média ficou em torno dos 10, 11 anos. Nem todos os 24 – que estudam à tarde - estarão todos os dias no Projeto de Gente, pois algumas têm outras atividades também à tarde (uns fazem o futebol do campo do Canta Galo, outros ajudam em casa pelo menos um dia, etc). Grupos se formarão ligados por interesses e afetos. Combinamos, com todos que possam, que venham na terça-feira – dia 28 – para definir como estes grupos estarão organizados. Na segunda-feira estaremos as fichas de inscrição – onde eles já colocaram os dias que não poderão estar conosco e, do que se tem, o que mais interessa a cada um – para ajudar no arranjo dos grupos.

No domingo recebemos a visita da Renata e de seu companheiro, o Glinger. Os dois trabalham com cerâmica e doaram uma bela quantidade de argila; além disso, estão pensando numa maneira de organizar oficinas paneleiras e poteiras – o que pode atrair também os adultos, pais e mães das crianças. Além destes dois, vieram o Aldo, a Ângela e a Dolores que também ofereceram seus talentos – construção de brinquedos, peteca e culinária, respectivamente.

A surpresa deste 3o Diário é que imaginávamos que o primeiro dia de atividade do Projeto de Gente seria, tudo correndo bem, na segunda ou terça, 27/28 de agosto. Porém, a sensação nítida e forte é que o Projeto de Gente nasceu em Cumuruxatiba, distrito do Prado, Bahia, nos dias 25 e 26 de agosto de 2007.

Mas, já que ainda não enviamos o Diário para o Rio de Janeiro, aí vai o que aconteceu no dia 28 de agosto, terça-feira: diferente dos dias do fim de semana, às 12:30h, quando chegamos na casinha já lá estavam 6 crianças conversando à sombra do cajueiro, a Dayse fazendo mágica na frente dos olhos arregalados do Messias. Porta aberta, ajuda daqui, dali, copos e canecos no lugar, suco e biscoitos também. Mais crianças chegando. Três trouxeram amiguinhos novos, além de uma mãe que trouxe o filho para se inscrever. Tivemos que lembrar a todos que mais crianças precisavam de mais gente grande para estar junto, pois o cuidado que o Projeto de Gente se propõe a oferecer pede que os educadores não tenham um grupo de meninos e meninas que os impeça de conhecer cada um em sua singularidade. Estas quatro crianças ficaram conosco neste dia porque ninguém teve coragem de pedir que voltassem para casa, anotamos seus nomes e, assim que for possível, serão chamadas.

Depois de algum tempo de brincadeiras, nos sentamos em roda e fizemos algumas dinâmicas para que todos soubessem o nome de cada um. Aproveitamos este momento para construir mais algumas combinações: sapatos fora da casa para não sujar tanto o chão, arrumar o que bagunçou, na Roda respeitar a fala do outro e esperar a sua vez.

Depois, lanche, bola para alguns – houve, pelo menos, dois meninos que descobriram que quando a bola entra pela janela e acerta um amigo eles também são responsáveis já que estavam no jogo com os outros – mesmo que não tenham chutado a bola –; já o que chutou também percebeu que não precisa achar que é “o” culpado, nem que vai ser castigado, porque errou o chute; e todos descobriram que não é preciso, então, dizer: “Foi ele, foi ele!” –, damas para outros, banco imobiliário, Gilli ajudou a montar um móbile com os peixinhos do fim de semana e outros que nasceram. Dayse e Messias pediram ajuda para fazer o “Para Casa”. Desta atividade surgiu a idéia de trazer um mapa-mundi para que a Luli e o Sol mostrem onde já viveram por este mundão afora.

Brinquedos nos seus lugares, desenhos nas paredes, uma boa varrida no chão... e fim do primeiro dia – oficial – do Projeto de Gente em Cumuruxatiba.

Noite de Lua Cheia, coração em paz e uma Boa Noite para todos!

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