3 de julho de 2017

Preparando um pouso em Brasília

Marina Cristal
Junho, 2017

“Acredita-se que a duração do dia, direção do vento e mudanças hormonais desempenham um papel importante no instinto migratório das aves de rapina, funcionando como um “gatilho” para que elas iniciem as migrações.”
Menq, W. (2015)*

Indo pra Brasília pra participar de dois encontros potentes sobre relações entre pessoas e processos de aprendizagem, ENA e CONANE, estava muito entusiasmada e ao mesmo tempo me via com um desconforto. Ainda que o convite para participar desses encontros tenha vindo para mim, sabia que ele vinha também – e muito! – para a Vila-Escola Projeto de Gente em mim. E neste ano eu não frequento mais seu espaço físico, não participo mais das trocas cotidianas, não sou responsável por Projetos de Saber nem sou tutora de um grupo de pessoas que estão por ali seguindo seus caminhos... Como poderia então estar nesses encontros como uma das pessoas representantes da VEPG? Talvez não “como”, mas “por que”? O que é que está ao mesmo tempo em mim e na VEPG que é bem-vindo nesses lugares?
Tentando resolver esse siricotico dentro de mim, fui olhando pras coisas, pras relações e praquilo que faz sentido pra mim. O convite para estar na Roda de Conversa “Educação de Crianças e Jovens no século XXI: Amorosidade e o Mundo Globalizado” da Conane 2017 talvez fosse a porta mais próxima a ser aberta e me mostrar um pouco daquilo que me estava sendo pedido – e que eu tinha condições de entregar. Fazer este movimento de reconhecimento me ajudava a apaziguar o desconforto.
Quando me olhava para o tema, ainda bem antes de sair de casa, sentia o coração entusiasmado; eu queria mesmo poder conversar sobre isso tudo que era sugerido: educação, jovens, crianças, amor, mundo, maneiras que criamos para estar no mundo! Muitas reflexões, dúvidas, intuições, memórias, dicas, emoções se revelavam e a partir desse amontoado de gostosuras ia conversando comigo – com o Alê também! – e sentia bem-estar. Me percebia muito viva e conectada com o campo que ia sendo iluminado. Lembrando desse processo me convenci de que aquilo que me levava a estar nessa roda poderia ser algo como um elo primal, latente e vivo, entre minha caminhada e a VEPG, uma de nossas intersecções, algo como uma base compartilhada.
Ufa! Estava apaziguado o siricotico!
Me tranquilizava ao acolher em mim essa percepção de que há coisas que nos conectam para além da proximidade física, embora ela faça muito falta de vez em quando. Também ao notar que há raízes primordiais que sustentam um certo tipo de olhar e viver, que suprem necessidades profundas de um modo de existir de alguém – ou de algumas pessoas –, e que por sua força e profundidade, sua preservação é extremamente necessária pra quem se sustenta ali. Fazia sentido para mim, pegando carona com Maturana, admitir que para que este radical seja conservado, tudo o que não é ele, pode vir a mudar completamente, então por isso se faz possível que em algum momento a distância física seja inevitável.
Talvez partilhar dessa base seja o que me possibilita me identificar como parte dessa comunidade de aprendizes da VEPG. Não sou, quem sabe, uma árvore típica do ecossistema da Vila-Escola Projeto de Gente, nem uma nascente de água ou mamífero esplendoroso, mas uma ave migratória, que participa das trocas também pela sua própria ausência, simples e natural.
O movimento de saída física se deu, não sei dizer se influenciado pela duração do dia, direção dos ventos ou mudanças hormonais, mas sei que sustentado pela minha vontade pessoal de encarnar a Honestidade e o Amor. E com as dores inevitáveis da natureza sigo engrossando o coro de tantas outras aves migratórias que pousaram e pousam pela VEPG, cantando que existe no mundo a distância amorosa, desvinculada da separação por inimizades, e que há muita potência no vazio.
Ninguém dá o que não tem. Eu sinto que não posso trazer verdade ao dizer para alguém que é possível viver da maneira que pede seu coração se eu não escutar o que diz o meu e seguir seus pedidos. Afinada com isso, sigo buscando manifestar em mim, no mundo, o meu Amor Próprio, aquele que só pode vir ao mundo por mim, pelo jeitinho que moléculas e memórias se organizaram neste ser que vive encarnado e pulsando, (re)descobrindo e (co)criando.


* Aves de rapina migratórias - Aves de Rapina Brasil . Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/arquivo/artigos/Aves_de_rapina_migratorias.pdf > Acesso em:27 de Junho de 2017

Semana ENA/CONANE no Planalto Central da América do Sul

Alexandre Cavalcanti
Vila-Escola Projeto de Gente

Cinco dias mergulhado em um mar de possibilidades, mar de afetos. Afetos abraçantes, abrasantes, envolventes, afetos doloridos, afetos mentais, emocionais, tristes afetos, alegres, sombrios, claros, misturados, complexos, instigantes... Afetos!
Nem tinha pousado minha mochila em algum recanto quando alguém, belo sorriso, câmera na mão, me perguntou se poderia me fazer 3 pequenas perguntas.
Sou sujeito lento, introspectivo, meio campista das antigas – mata a bola no peito, baixa no gramado, levanta a cabeça e dá o passe – e ali estava o belo ritmo dos tempos de agora: ágil, surpreendente – bola de primeira!
Primeira pergunta, primeiro afeto: “o que nos faz latino-americanos?”. O efeito? Me assusto, fico zonzo, me sinto menino, menininho, a pergunta me toca em um lugar que conheço desde criança e que, adulto, visito muitas vezes – sensível, muito sensível, lugar: “será que minha resposta será aceita?”. Procuro saídas, fugir (mas, fugir de mim mesmo?!), me assusto novamente, minha mente e meu coração disparam, “o que nos faz humanos?”, esta pode ser a porta de saída do labirinto (ufa!), mas sei que a resposta está incompleta e trazer à tona o completo me assusta (novamente!). Busco parresía dentro de mim – parresía, palavra grega, aprendi há pouco, que significa coragem, mas não qualquer coragem, é a coragem necessária para dizer a verdade que se teme, a coragem para trazer à tona a sua verdade, a verdade de cada um. A verdade que, dita, pode ameaçar, assustar, provocar insegurança, medo: medo de não ser aceito no coletivo, de não pertencer ao coletivo, de não existir no coletivo, de ter a existência negada, medo de ser destruído.
Trazer à tona, disse tantas vezes, e me lembro que educar vem do latim educare, educere, que significa literalmente “conduzir para fora”, “trazer à tona”.
Pois então, ali estava eu: adulto, pai, médico, educador, médico-educador e... menino. Criança-adulto em pleno processo de educação, guiado por aquele jovem de belo sorriso, olhos vivos e câmera na mão, gentil e me ajudando a olhar para mim mesmo.
Vocês, claro e infelizmente, perceberam porque me senti criança, não é? Porque, sensível, estava com medo! Aqui ou ali, aqui e ali, em todas as Américas, na Europa, Ásia, África e Oceania, em algum momento, em muitos momentos, em todos os momentos, ricas ou pobres, crianças têm medo: medo de não serem aceitas no coletivo, de não pertencerem ao coletivo, de terem sua existência negada, de serem reprovadas.
E, sensíveis, assustadas, aprendem o que é esperado delas: respostas prontas e certeiras. Aprendem que não podem ser quem são, aprendem negar a si mesmas, negar, negar e negar. Negam tanto que afinal esquecem quem são, espontaneidade perdida, autonomia perdida, amor próprio perdido.
Aprendem assim pois seus mestres também aprenderam assim, e os mestres de seus mestres, gerações e gerações de mestres...

“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.”
(Fernando Pessoa)

Os dias em Brasília foram se sucedendo, conversas acontecendo, trocas se organizando. Fui, dia a dia, buscando mais e mais conexão comigo mesmo, oferecendo o que tinha a oferecer, minha autonomia, meu amor próprio, buscando conexões com os outros, com cada um, com o que tinham a oferecer, suas autonomias, seus amores próprios. Dia a dia afetado, nutrido, por fluxos amorosos que, por sua vez, alimentavam e eram em si mesmo um grande campo de acolhimento que comprovava a simples e complexa dinâmica: quanto mais amor, menos medo.

Saio de Brasília mais desimpedido, energia vital mais livre e agradeço muito por isso.

“(...) E no ar livre, corpo livre
Aprender ou mais tentar

(...)

Iremos tentar
Vamos aprender, vamos lá”
(Lô Borges)


19 de maio de 2016

Linda passagem do Movimento Cantaluz pela Vila-Escola


Se alguém visitar o blog do Movimento Cantaluz (cantaluz.blogspot.com.br) poderá encontrar esse verso:

"a luz que se canta
pôs-se a caminho
seguiu pela estrada
andarilho, cantaluz
canta transbordando luz
lâmpada de si mesmo
brilha feito vagalume
e os frutos que colhe
são sorrisos e aplausos"


A moçada da Vila-Escola agradece o presente da presença de vocês aqui.

Valeu Marcel e Cris!

9 de maio de 2016

Diário - semana 02/05/16 à 06/05/16

Diário


Parece que há males que vem para bem. Foi isso que senti nessa segunda-feira passada na Vila-Escola. Terminada o momento de tutoria, a moçada foi pra rua jogar bola. Os times (duplas) foram separados e os gols (chinelos) foram postos com três passos de largura. Não havia juízes, ou se preferirem, todos eram juízes. A bola rolou e conforme os jogos se sucediam uma tensão foi crescendo no ar. Indecisões e desconfianças: “A bola saiu!” “Não saiu!”, “Gol!” “Foi na trave!”, “Falta!”. A competitividade e tensão do jogo extrapolou quando um menino, sentindo-se vítima de uma entrada mais dura, virou um chute no meio das pernas de uma menina. A intenção não era a bola, era machucar. Não acreditei. Seria pra vermelho direto. Mas não havia juízes. Antes mesmo deles se engalfinharem nos tapas, eu interferi: - “Pode parar! Bora pra roda!”. Olhei para o menino e vi que saía lágrimas de seus olhos. Não correram muito por seu rosto pois ele logo tratou de as secar, garantindo assim que ninguém o zombasse. Ele brigara com uma menina e ainda chorava. Quanta pressão para sua pouca idade. Entendi suas lágrimas como uma válvula corporal cuja mente e corpo, não aguentando a crescente tensão do jogo, se viu agindo de forma que não gostaria. Ele se pegou num ato falho. Essa criança tem doze anos. A outra, a menina, tem onze. Ambas subiram as escadas da Vila-Escola e sentaram na roda. Fiquei impressionado. Nenhuma delas pareciam duvidar do que era preciso ser feito: conversar. Muitas vezes me deparei com a relutância das crianças (dos adultos também, assim como a minha) em querer resolver conflitos. Essas duas crianças fizeram diferente. Com todo mundo na roda, os dois relataram sua versão da história. Eu também falei o que tinha visto. A conversa deve ter demorado uns trinta minutos ou mais. Durante esse intervalo percebi que as crianças haviam se acalmado, apesar de ainda se sentirem um pouco injustiçadas. Acho que de alguma forma perceberam que, além das regras (do futebol), há a subjetividade de cada pessoa envolvida no jogo. O que um sente ou interpreta em relação a um lance, nem sempre será igual ao que o outro sente e interpreta. Quando escalamos um árbitro para apitar a partida, delegamos as decisões a ele, mas quando nós mesmos somos os juízes, temos que lidar com as diferenças e tentar chegar a um acordo. Quanta lição. Quando a roda terminou não sobrara tensão alguma e o futebol deu prosseguimento, com os mesmos jogadores, com os mesmos juízes. Se é que a mesmice tem vez...


Patto

18 de abril de 2016

Bom começo

Diários de Cumuruxatiba

Semana de 14 a 21 de março de 2016/21 a 17 de abril de 2016

Ainda estamos com dificuldade na construção da nova dinâmica da V-E. Pela manhã, a presença é pequena. Havia, 3 crianças já inscritas, e vivendo o trabalho no ano passado, porém, apenas uma tem vindo com certa regularidade. Eles atribuem este movimento ao fato de por muito tempo não terem tempo para dormir de manhã, pois por pelo menos 3 anos seguidos estudaram, na escola convencional, neste horário.

Estamos conversando sobre a possibilidade de abrirmos 5 vagas neste horário. Esta hipótese foi mencionada na roda e o pessoal da tarde, a princípio, achou que não seria legal não ter ninguém da lista de espera entrando também à tarde. O turno da tarde tem 15 crianças, em alguns dias, apenas dois educadores. Também vale lembrar que a lista de espera tem mais de 30 crianças, a imensa maioria só poderia vir na V-E à tarde – neste momento, apenas duas pessoas da lista poderiam frequentar a V-E pela manhã. A conversar mais!

E haja conversa! Agora já é dia 14 de abril! E, finalmente, estamos com um grupo bacana nas manhãs da Vila-Escola.

Resumindo: em roda, a turma resolveu criar um grupo de 10 pessoas para a manhã e abrir duas vagas para a tarde. 03 já estavam inscritas para a manhã, como já dissemos. A dinâmica combinada foi: entrar na lista de espera – quase não havia ninguém nesta lista que pudesse frequentar a V-E pela manhã. A V-E tem, neste momento, 18 vagas para a tarde e 10 para a manhã.

Na quinta-feira, 14, houve o encontro definitivo para formação do grupo.

Manhã de 15 de abril, podemos considerar este o 1º dia de funcionamento pleno da Vila-Escola Projeto de Gente, turno da tarde. Nove pessoas presentes: 02 educadores e 07 meninos e meninas. Conversa boa. Dois ou três foram estudar para um compromisso na escola convencional, enquanto o resto foi assistir a um filme. Depois, durante o lanche, foi deliberado o quadro de atividades para as manhãs.

Um episódio merece ser relatado. Dois ou três meninos estavam na cozinha quando um educador entrou. Imediatamente os três abaixaram a cabeça, evitaram o olhar do educador e saíram. O fato é que eles haviam “assaltado” a geladeira e o armário. Para nós, mais uma vez, fica claro o treinamento cotidiano da moçada no sentido de quebrar o que é imposto, mesmo em um lugar onde nada é imposto, onde qualquer possibilidade pode ser combinada, onde nada está trancado. O treinamento é tão bem feito que as crianças ficam treinadas para não pensar na hipótese de propor uma combinação, simplesmente “quebram” a regra a que estão acostumadas – mesmo onde ela não vige. Não se lembram que têm instrumentos para organizar o espaço que é de todos.

De todo modo foi mais um belo momento para trabalhar estas questões.

Bom começo!




Jogos Colaborativos

Diário de Cumuruxatiba

Ontem, 08/03/16, foi dia de jogos colaborativos na V-E. A roda decidiu que ter jogos colaborativos é importante porque a gente já está bem (mal) acostumado com os jogos de competição. Aliás, a sociedade parece funcionar, quase sempre e bem exatamente, como um jogo competitivo.

Vale lembrar que não foi uma decisão unânime, nem sequer fácil. Uma criança chegou a dizer, quando perguntada sobre o que achava dos jogos colaborativos: “não é legal, não, é chato, a palavra colaborativa já é chata!” De todo jeito, houve maioria.

No 1º dia em que houve jogos com esta característica, resistência dos que votaram contra. Porém, já no 2º jogo, a adesão aumentou e a hora de saída da V-E teve que ser alterada porque todo mundo pediu mais um, mais um, mais um...

Na 2ª semana pudemos fazer algumas observações:
  1. A transformação, sem consciência, de colaboração em competição. Como o jogo propunha que grupos deviam cruzar, sem cair, o “mar infestado de tubarões” e chagar ao outro lado – cada um estava em pé sobre um banco de plástico e 4 formavam uma tripulação, isto é, deviam navegar juntos. Logo formou-se a ideia de que a vitória seria da tripulação que chegasse primeiro ao outro lado. O processo de co-labor dentro de cada equipe correu o risco de ficar em segundo plano em função do “chegar em primeiro lugar”. Além disso, entre os tripulantes, abriu-se a possibilidade de conflito quando um fazia um movimento que parecia inadequado ao outro. Foi possível perceber as múltiplas maneiras de reação de cada criança, sua competitividade ou timidez, a maior ou menor facilidade para ouvir a proposta do outro, por exemplo.
  2. Do mesmo modo, no jogo do telefone sem fio, aconteceram situações que revelam tanto questões já incrustadas na sociedade quanto questões individuais – e, sempre bom lembrar, o corpo social é formado pela ação, ou reação, dos corpos individuais. No jogo: algumas crianças ficavam muito atentas à possibilidade de que alguma outra mudasse a palavra ou frase a ser passada adiante. Ali estava uma pessoinha acostumada a uma sociedade que rouba e que, portanto, gera desconfiança. Ela não curtia a brincadeira, pois policiava, e apontava, os outros; era uma criança desconfiada devolvendo o alimento que recebe do social e, por sua vez, alimentando esta sociedade que não confia em seus pares.
  3. Outra situação, na mesma linha da observação anterior: a criança que, conscientemente, mudava a palavra ou frase a ser repetida, não para roubar ou atrapalhar a brincadeira – foi possível perceber –, mas como forma de sentir um certo poder sobre o grupo ao interferir no andamento da brincadeira.
A competição naturalizada, a desconfiança naturalizada, a naturalizada defesa estruturada por uma criança. Como deve se comportar um educador nestas situações? Se ele não traz à tona estas questões estará colaborando para sua manutenção e fortalecimento. Se, por outro lado, ele aponta e comenta pode propiciar um campo de humilhação, um campo para o aprofundamento da reação. Também neste caso não ajudará a desconstrução dessas questões; aliás, pode também fortalecê-las.

Aí está um momento delicado de nosso trabalho como educadores: encontrar o bom ponto entre o sermão chato (blá-blá-blá a ser evitado, pois será estéril) e a omissão que não ajuda o outro a perceber que algo pode ser reorganizado; encontrar o bom ponto que pode apoiar uma descoberta, uma desconstrução, e uma nova construção – mais harmônica.


Face a Face

Face a face
Um feixe de varas de bétula branca amarradas por cordas vermelhas, às vezes com um machado de bronze preso a ele. As varas de bétula significavam o poder de punir; as cordas vermelhas, a união e o absolutismo dos que comandavam; o machado de bronze, o poder de vida e morte. Acabamos de descrever um fasces: instrumento que, no Império Romano, era carregado por funcionários públicos quando nobres saíam às ruas. Eram usados para abrir caminho, para separar a multidão, separar o povo.


Fasces, raiz da palavra fascismo e também ponto de partida para uma triste imagem: o fascismo cria raízes e floresce na polarização, no mais das vezes simplificadora, reducionista, que opõe pessoas ou grupos de pessoas; isto é, o fascismo engendra-se justo na separação, na negação da escuta, na negação da concórdia, na negação da comunhão de possibilidades.

Pessoas e grupos que não se ouvem; pessoas que, com maior, menor ou nenhuma consciência, buscam apenas a consolidação de seus interesses; pessoas que frequentemente não têm a percepção da totalidade dos interesses envolvidos; pessoas que apenas buscam derrotar o outro, realizando o exercício da competitividade tão comum, quase naturalizado, na sociedade; pessoas que constroem muros entre uns e outros; pessoas que trabalham ferozmente na criação de guetos, pois acreditam em verdades perfeitas e, por consequência, dominantes, autoritárias: fascismo, fasces em ação.

Os funcionários que portavam os fasces – os lictores – cumprem um importante e simbólico papel neste contexto, pois são aqueles que, trabalhando para a elite – minoria que habita o topo da pirâmide –, ajudavam justamente na cisão entre aqueles que – maioria na base da pirâmide – assistiam à passagem do cortejo dos nobres. A função dos lictores, face brutal do poder, é precisa: através do uso do fasces provocavam medo, promoviam o terror, dividiam as pessoas, provocavam cismas, criavam castas, desuniam. Trabalhando neste sentido, os lictores alcançavam privilégios para si mesmos; porém, mais que tudo, escondiam o próprio medo.

Enquanto isso, também temerosas, ameaçadas, assustadas, a imensa base cindia-se, fragilizava-se, construía muros entre seus pares. Porém, seguia cumprindo o papel de sustentação dos que sobre elas organizavam seus poderes – podres mas eficientes poderes –, pois, estes inumeráveis muros, em sua junção labiríntica, revelavam-se ainda mais fortes como base de sustentação para o diminuto povo do topo da pirâmide que, assim, se mantinha em seu privilegiado posto de observação e comando.

O que mudou deste os tempos descritos aí em cima para os tempos de hoje? Talvez, essencialmente, nada. O cenário por certo é diferente; a tecnologia avançou incrivelmente; o número de pessoas aumentou também espantosamente; porém, talvez apenas uma sofisticação do modelo foi se formatando ao longo dos tempos: fasces, hoje, são sobretudo o poder econômico e o poder da mídia.

Hoje, quem está no topo da pirâmide? As grandes corporações e o sistema financeiro. E esta, talvez, seja a única constatação segura, pois, em tempos de globalização, não nos transformamos em uma “aldeia global” partilhando amor, saberes e riquezas; o que, de fato, compartilhamos é a estrutura do acúmulo e do consumo.

Há algum tempo, escrevi um texto chamado “O Muro e o Dinheiro”. Hoje, vou me permitir retirar alguns parágrafos deste texto e inseri-los neste “Face a Face”: “Como em qualquer processo de construção de estruturas defensivas, também o dinheiro foi, a princípio, protetor da existência humana: prestava-se para viabilizar a troca de serviços, habilidades, ou conhecimentos, muitas vezes necessários à manutenção da existência. Como brincou o cineasta Jorge Furtado, em A Ilha das Flores, o dinheiro facilitava a troca, antes impossível, de galinhas por baleias. Contudo, à medida que suas qualidades originais eram esquecidas, seu uso ganhava uma oculta segunda intenção. Com a segunda intenção, oculta, organizava-se um peso escravizante, compulsivo. Esta segunda intenção era, justo, a pretensa garantia através do acúmulo do excedente: a existência garantida – pretendia-se! – através do acúmulo de recursos. Uma estrutura defensiva, oculta, ambígua, ia ganhando forma, não mais protegendo seus construtores.

A função primária da pequena moeda, portátil, – a troca –, sua natureza genuína – a partilha de habilidades, de serviços –, ao final de um processo, jazia esquecida, escondida sob o peso da escravidão do acúmulo que “garante”, da compulsoriedade do acúmulo e de seu primo-irmão, o consumismo – a busca da existência “garantida”. Para possuir o excedente que “garante” a “vida” é necessário adquirir este excedente, e, para adquiri-lo é necessário possuir um excedente de dinheiro. 
O dinheiro não representa mais a possibilidade de troca de habilidades, de conhecimento transformado em serviços e objetos úteis a muitas pessoas. Representa a impossível garantia. Ganância instituída.

Desta maneira o dinheiro sofreu uma profunda metamorfose: de moeda de troca a instrumento de poder. Ilusório poder, é fato, mas, sentido como real através da sensação da garantia que o excedente pretende oferecer. Migrava-se das possibilidades para o poder imperativo, dominante.”

O que se disputa, no pano de fundo, é o controle do poder econômico ao qual todos estamos submetidos, pois, qualquer mãe ou pai condena seu filho ou filha à morte se não ganhar o mínimo de dinheiro para suprir suas necessidades mais básicas: comer, beber. E milhões de pais e mães não ganham este mínimo de dinheiro.

O exagero de acúmulo por parte de uns poucos faz com que muitos, a imensa maioria de seres humanos, necessitem oferecer, para conseguir a manutenção básica de seus filhos e filhas, sua força de trabalho usada em empregos produtivos ao sistema; não conseguem, no mais das vezes, oferecer sua vitalidade maior para a criação de um trabalho pessoal, assinado – feliz e prazeroso.

A dimensão humana, e a própria rede da vida, está sufocada pela lógica perversa e irracional de acumulação, do capital que não se importa com o bem-estar e a felicidade de cada um nesta rede. O dinheiro, de meio para a satisfação de necessidades e de desejos, converteu-se em finalidade em si, pois, atrás do dinheiro, esconde-se a ilusória conquista de estabilidade, de felicidade, de saúde. De um modo ou outro, todos estamos envolvidos pela lógica do sistema.

Contudo, brechas se abrem, e, atentos, temos a possibilidade de descobrir o truque do ilusionista. Podemos investigar como se arma este truque que, ao fim e ao cabo, parece determinar o destino de todos.

Uma dessas brechas: somos nós, seres humanos, que elaboramos o truque. Ninguém mais, nós mesmos. Porém, nós, os ilusionistas, acreditamos tanto no truque que agora estamos iludidos, cegos, presos no truque. O truque, transformado em armadilha com o passar dos anos, está em cada um, não fora, não no sistema! O sistema não tem vida própria, nós o alimentamos, cuidadosamente, dia após dia. Alimentamos e esquecemos suas raízes, esquecemos porque criamos o truque e o repetimos compulsivamente.

Esquecemos porque queremos esquecer o medo da instabilidade, da ausência de garantias, o medo da interdependência, o medo da impermanência; quisemos, e seguimos querendo, negar o inegável. Assim, construímos a armadilha e esquecemos onde guardamos a chave da gaiola de ouro, do “habitáculo duro como aço”¹ – ricos condomínios-guetos ou favelas-guetos –, estruturas onde todos são igualmente prisioneiros, todos enjaulados.

Finalizando, quem são os lictores nos dias de hoje? Resposta direta e reta: qualquer um que trabalhe com a intenção de dividir, de quebrar a integração, de construir um sistema guetificante, sistema de castas, de privilégios para alguns, de fartura não solidária, de escassez também não solidária. Os lictores, hoje, estão potencialmente em toda parte, desde a direita até a esquerda do leque social.

Cada um deve, antes de tudo, buscar em si a raiz de sua atitude, de sua ação, pois a chave do “habitáculo duro como aço” está com cada um – o sistema, nem nenhum sistema, possui esta chave. Não importa a que grupo um se associe, dentro deste grupo cada um pode ser mais ou menos agregador, mais ou menos atento ao que os outros falam. Cada um precisa conhecer a si mesmo, colocar-se face a face consigo mesmo, esclarecer se pretende empunhar sua fasces e usá-la contra o outro – o que é o mesmo que contra si mesmo, pois a fasces separa, apenas separa – ou se pretende depor esta arma.

Como bem disse meu amigo Ademar, o Mestre Dema, “existem variadas qualidades de presença, e de ação, em qualquer sistema”. Que cada um se coloque face a face consigo mesmo e responsabilize-se.

¹ - A expressão alemã stahlhartes Gehäuse, traduzida como “habitáculo duro como o aço” ou “jaula de aço”, foi utilizada por Max Weber.
Alexandre Cavalcanti
Médico-educador na Vila-Escola Projeto de Gente
(este texto reflete uma opinião pessoal)